Três Vezes Austen

Passeando pelo site Submarino fiquei surpresa ao encontrar a pré-venda de três livros de Jane Austen em um único volume. As obras escolhidas foram: Razão e Sensibilidade, Orgulho e Preconceito, e, Persuasão.

Observando o site da editora responsável pela publicação, a Editora Matin Claret, percebi que ainda não foi realizado o lançamento oficial, mas, não é necessário se preocupar já que não somente o Submarino como outros sites de vendas online estão realizando a pré-venda ,dado que o lançamento já está próximo.

Lembrando que a mesma editora possui os três romances de Jane Austen publicados também em edições separadas.

Os preços são acessíveis e estão ao alcance do grande público. agora é escolher a melhor opção e fazer uma boa leitura das maravilhosas obras de Jane Austen. Boa Leitura!

Armitage em Persuasão?

Eu descobri ontem um vídeo editado por uma fã de Austen e também do ator inglês Richard Armitage! Ela propõe que Richard volte a fazer uma nova série de época e desta vez como Capitão Wentworth de Persuasão. Para interpretar Anne Elliot a sugestão é Kate Winslet.
Bem… é uma proposta interessante. Mas não vejo o Richard como Capitão… Sei lá…. ele é muito bonito para fazer papel de um homem que conquistou sua fortuna no mar! Mas como o cinema e a tv também vivem das aparências das pessoas… nada como um ator/atriz bonitos! Quanto à Kate, acho que não daria muito certo hoje para o papel por causa da idade da atriz.

O Retrato de Mrs. Q

O retrato de Mrs. Q

A capa da mais recente tradução do livro Persuasão, lançado pela editora Martin Claret (que Adriana Zardini comentou aqui), chamou a nossa atenção. Trata-se de um retrato intitulado Mrs. Q ou Portrait of a Lady (desenho de J.F.M. Huet-Villiers e gravura do poeta inglês William Blake), exibido esse ano no Morgan Library and Museum de Nova York, como parte da exposição A Woman’s Wit: Jane Austen’s Life and Legacy. A pintura – que representa Mrs. Harriet Quentin, esposa de um certo Coronel Quentin e amante do então Príncipe de Gales – desperta a curiosidade pelo fato de ter sido considerada por Jane Austen como a imagem mais próxima que ela tinha em mente da personagem Jane Bennet, de Orgulho e Preconceito. Em 24 de maio de 1813, Jane, hospedada na casa do seu irmão Henry, em Londres, escreveu para sua irmã Cassandra:


Henry e eu fomos à Exposição em Spring Gardens. Não é considerada uma boa coleção, mas gostei muito – particularmente (por favor, conte a Fanny) de um retrato da Sra. Bingley, muito parecido com ela. Tive ainda a esperança em encontrar um de sua irmã, mas não havia nenhuma Sra. Darcy, talvez eu a encontre na Grande Exposição, para a qual devemos ir, se tivermos tempo (…) O retrato da Sra. Bingley é exatamente igual a ela: tamanho, formato do rosto, as feições e a suavidade; nunca vi tamanha semelhança. Ela usa um vestido branco, com ornamentos verdes, o que me convence daquilo que eu sempre presumi, que verde era a cor que lhe caía melhor. Ouso dizer que a Sra. D. ficaria melhor de amarelo.

Lady Nelthorpe (miniatura de C.J. Robertson)

No entanto, Deirdre Le Faye, especialista em Jane Austen, em seu livro Jane Jane Austen’s Letters, afima que apesar de Mrs. Q ser provavelmente o retrato ao qual Jane se referia, outras opções não devem ser descartadas, como as miniaturas do pintor Charles John Robertson (uma delas pode ser vista acima) exibidas na mesma exposição. Quanto à heroína de Persuasão, Anne Eliot, Jane parece não ter deixado nenhuma indicação de qual retrato se aproximaria mais daquilo que ela imaginava.

Novas traduções em Português

Quando eu gravei o programa para a Globo News, tive a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre a Celina Portocarrero! Foi uma ótima oportunidade para saber um pouco mais sobre Celina, que já traduziu mais de 40 livros e atualmente está aprendendo Russo! Congratulations dear!
Celina disse-me que está traduzindo Persuasão para a Editora L&PM. Ótima notícia, não é mesmo? Tentei buscar informações no site da editora, mas ainda não há uma capa. Como é de se esperar, a qualidade e bom preço da editora devem continuar nesta edição!
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Outra novidade, descoberta hoje é que a Martin Claret acaba de lançar Persuasão, traduzido por Roberto Leal Ferreira, que também traduziu Razão e Sensibilidade para a mesma editora. Preço: R$ 12,90.
Abaixo as novas capas da Martin Claret:
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A Editora Landmark está com a edição bilíngue de Emma prevista para o segundo semestre de 2010. Ainda não há uma capa no site da editora. O preço de lançamento deve ficar em torno de R$ 40,00 já que é uma edição dois em um = bilíngue.
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Como este post trata-se apenas de divulgação e não da minha opinião pessoal sobre os livros, escrevo de forma genérica: parece-me que as editoras descobriram o filão que é publicar Jane Austen e estão todas correndo atrás de novos leitores. Parece também que existe uma espécie de competição para ver quem publica primeiro os seis livros de Austen em português! Só espero que, nós leitores, tenhamos boas surpresas. Acho que é um apelo de todos nós: qualidade e bom preço!

Artefatos raros em Winchester

Artefatos raros da vida de Jane Austen, incluindo poemas escritos à mão e as primeiras edições de seus livros, estão em exposição em Winchester.

A Catedral de Winchester, onde a escritora está sepultada, começou um a exposição que vai até dia 20 de setembro. Sendo o primeiro de uma série de eventos em comemoração do bicentenário da morte de Jane Austen em 2017.
A exibição, ao lado de sua sepultura, mostra poemas escritos por Jane Austen sobre sua amiga Mrs Lefroy, as primeiras edições de Emma em três volumes de 1816, além de Northanger Abbey e Persuasion publicados juntos em 1818. Está também na exposição a nota escrita à mão pelo irmão de Austen, Henry, com as orientações sobre a inscrição que se encontra hoje no túmulo de Jane Austen.
Os poemas e a nota escrita por Henry pertencem à Winchester College. Esses artefatos nunca sairam da faculdade desde que foram doados à instituição na década de 30.

Jane Austen Centre arremata roteiro de Persuasão

Segundo o site This is Bath, o Jane Austen Centre, após bater as ofertas de participantes do mundo inteiro, arrematou o roteiro da adaptação de Persuasão, produzida pela BBC, em 1995. Junto com o roteiro, foram compradas fotos autografadas pelo elenco (imagem acima), e a renda será destinada ao asilo Weldmar, em Dorchester. O diretor do centro afirmou: “estamos muito excitados por termos adquirido esses itens, pois a produção não tem apenas conexão com Bath, mas Amanda Root [atriz que fez papel de Anne Elliot] apareceu em nosso primeiro Festival Jane Austen e sempre deu muito apoio ao centro ao longo dos anos”. O leilão ocorreu no dia 2 deste mês, e os itens leiloados futuramente farão parte de uma exposição dedicada ao filme.

Austen na série Bloom’s Modern Critical Interpretations


A coleção Bloom’s Modern Critical Interpretations, editada pelo crítico norte-americano Harold Bloom, é uma série com mais de cem volumes que reúne artigos de crítica literária onde são abordadas as grandes obras da literatura ocidental, indo desde a Ilíada, Édipo Rei, Beowulf, Hamlet, Dom Quixote, passando por David Copperfield, Drácula, A Balada do Velho Marinheiro, e chegando a obras contemporâneas como Som e Fúria, O Apanhador no Campo de Centeio, O Senhor dos Anéis, On the Road, e várias outras. Dentro dessa enorme variedade, foi reservado espaço para três obras de Jane Austen: Orgulho e Preconceito, Emma e Persuasão, cada um com uma introdução escrita pelo próprio Harold Bloom e com artigos que abordam diferentes aspectos de cada obra.



Anne Elliot e Rosalinda

O volume que tenho em mãos é o de Persuasão. O texto da introdução contida neste volume foi publicado originalmente no livro O Cânone Ocidental, lançado no Brasil pela editora Objetiva. Nela, destaco a comparação que Bloom faz entre a personagem Anne Elliot de Jane Austen, com a personagem Rosalinda, da peça Como Gostais, de Shakespeare:

“Anne Elliot é para a obra de Austen o que Rosalinda de Como Gostais é para a de Shakespeare: o personagem quase alcança a mestria de perspectiva que apenas a romancista ou o dramaturgo têm acesso, para que toda qualidade dramática do romance ou da peça não seja perdida”.

E complementa:

“(…) até mais do que Hamlet ou Falstaff, que Elizabeth Bennet, ou do que Fanny Price em Mansfield Park, Rosalinda e Anne Elliot possuem praticamente o equilíbrio completo, quase capazes de enxergar tudo o que acontece em torno da peça e do romance (…)”

Abaixo, seguem os títulos e os respectivos autores dos artigos presentes no livro:

Anne Elliot, Cuja Palavra Não Tinha Muito Valor, por Stuart M. Tave

Persuasão: formas de alienação, por A. Walton Litz

O Dote de Anne Elliot: Reflexões sobre o Final de Persuasão, por Gene W. Ruoff

O Pessimismo Radical de Persuasão, por Julia Prewitt Brown

A Natureza do Caráter em Persuasão, por Susan Morgan

No Meio: Persuasão, por Tony Tanner

Persuasão: “O Tom Anti-Feudal dos Dias Atuais”, por Claudia L. Johnson

Persuasão: A Patologia do Dia-a-Dia, por John Wiltshire

Perdido em um Livro: Persuasão de Jane Austen, por Adela Pinch

Sátira, sensibilidade e inovação em Jane Austen: Persuasão e as obras menores, por Claude Rawson.



Os livros podem ser adquiridos no site da Amazon.

O Natal nos livros de Austen

Como o dia de hoje é um dia festivo, vale à pena resgatar um post do ano passado sobre o assunto!
Ilustração de Alan Wright
O Natal só foi proclamado feriando nacional na Inglaterra após 1834 – dezessete anos depois da morte de Jane. Porém, durante a vida de Jane já havia uma observância da data e as pessoas costumavam saudar umas às outras com desejos alegres e afetuosos, repletos de rituais, supertições e idas à Igreja. No entanto, o natal celebrado por Jane e seus contemporâneos em nada se parece com o que vivemos: correria e tumulto em lojas, pois na época não havia o apelo comercial para a data.
Eu fiz uma busca em 6 livros da Jane e encontrei em todos citações sobre a data:
“… This is quite the season indeed for friendly meetings. At Christmas every body invites their friends about them, and people think little of even the worst weather. I was snowed up at a friend’s house once for a week. Nothing could be pleasanter. I went for only one night, and could not get away till that very day se’nnight.” Chapter XIII – EMMA
“A verdade é que esta é a estação do ano mais adequada para as reuniões amistosas. No Natal todo mundo convida a seus amigos e a gente não se preocupa muito com o tempo, embora seja muito frio. Estava nevando e fiquei sitiado na casa de um amigo por uma semana. Nada poderia ser mais agradável. Eu fui para permanecer por uma noite, e não pude sair por sete dias seguidos.”
“… Luckily the visit happened in the Christmas holidays, when she could directly look for comfort to her cousin Edmund; and he told her such charming things of what William was to do, and be hereafter, in consequence of his profession, as made her gradually admit that the separation might have some use. Edmund’s friendship never failed her…” Chapter II – MANSFIELD PARK
“… Felizmente isto se deu justamente nas férias de Natal, de forma que Fanny pôde encontrar consolo junto ao primo Edmund; e ele lhe falou com tanta simpatia de William, das coisas formidáveis que ele iria fazer em razão da profissão que abraçara, que finalmente ela se convenceu de que a separação só poderia lhe ser útil. A amizade de Edmund por ela foi sempre sincera…”
“… The very first day that Morland came to us last Christmas–the very first momentI beheld him–my heart was irrecoverably gone…” Chapter XV – NORTHANGER ABBEY
No Natal passado, no dia em que o Morland veio à nossa casa, assim que o vi, o meu coração ficou irremediàvelmente perdido de amor.
“… They had left Louisa beginning to sit up; but her head, though clear, was exceedingly weak, and her nerves susceptible to the highest extreme of tenderness; and though she might be pronounced to be altogether doing very well, it was still impossible to say when she might be able to bear the removal home; and her father and mother, who must return in time to receive their younger children for the Christmas holidays, had hardly a hope of being allowed to bring her with them…” Chapter XIV – PERSUASION
Quando vieram embora, Louisa já se sentava, mas a sua cabeça, embora lúcida, estava extremamente fraca, e os seus nervos demasiado sensíveis; e, embora se pudesse dizer que, de um modo geral, a recuperação decorria muito bem, ainda era impossível dizer quando estaria em condições de suportar a viagem de regresso a casa; e o pai e mãe, que tinham de voltar a tempo de receber os filhos mais novos para as férias de Natal, acalentavam poucas esperanças de a trazerem com eles.
“… I sincerely hope your Christmas in Hertfordshire may abound in the gaieties which that season generally brings, and that your beaux will be so numerous as to prevent your feeling the loss of the three of whom we shall deprive you …” Chapter XXI – PRIDE AND PREJUDICE
Desejo-lhe sinceramente que o Natal em Hertfordshire seja cheio de alegrias próprias que esta estação geralmente traz, e que não lhe faltem admiradores, para que não sinta a ausência dos três que lhe privamos.
“… I remember last Christmas at a little hop at the park, he danced from eight o’clock till four, without once sitting down …” Chapter IX – SENSE AND SENSIBILITY
Lembro-me de que no Natal passado, em ocasião de um pequeno baile no parque, ele dançou das oito horas da noite até as quatro da manhã, sem sentar-se nem uma vez sequer.

O que Jane Austen faria?

Parece título de livro, mas não… é um texto que a Mariana Fonseca (membro do JASBRA) traduziu de um artigo do Wall Street Journal.

O Que Jane Faria?

Como uma solteirona do século XIX serve como guia moral no mundo de hoje
por James Collins
(publicado no site do Wall Street Journal em 14 de novembro de 2009)
Jane Austen é muito divertida. Suas personagens são vívidas. O equilíbrio de suas sentenças é perfeito. Seus enredos são bastante bons – pelo menos, eles mantêm você lendo. No entanto, escrever romances brilhantes não era o objetivo principal de Jane Austen: O que era mais importante para ela era fornecer instrução moral.
Em sua essência, os livros de Austen são trabalhos morais. “Abadia de Northanger” é na verdade sobre a educação moral de Catherine Morland: Ela aprende que o mundo não funciona de acordo com os princípios de um romance gótico. Como o título indica, “Razão e Sensibilidade” é um conto moral: É a história do autocontrole de Elinor e do comodismo de Marianne. O evento central tanto em “Orgulho e Preconceito” quanto em “Emma” é a descoberta de cada heroína sobre sua própria fraqueza moral. “Mansfield Park” trata de todo tipo de questão moral, da decência no envolvimento com o teatro amador até as conseqüências do abandono do marido por um outro homem. A premissa de “Persuasão” é a de que Anne Elliot um dia sacrificou sua felicidade por cumprir o seu dever e obedecer a orientação de sua guia moral, Lady Russell. Assuntos relativos à moral não são apenas refletidos nos maiores temas dos livros, entretanto: Eles são universais. Até mesmo o menor ato ou o mais breve diálogo ou a mera descrição da maneira de vestir de uma personagem é carregado de conteúdo moral.
Os leitores de hoje tendem a apreciar Austen apesar de seu didatismo e, não, por causa dele. Ela pode ser positivamente pedante e isso é um obstáculo. O leitor contemporâneo que ama Jane Austen quase pula as partes moralistas e diz a si mesmo que elas não contam realmente. É possível ignorar esse aspecto de seu trabalho, assim como é possível discutir uma pintura religiosa sem qualquer referência à intenção religiosa do artista. Mas isso parece absurdo: Ignorar a preocupação central de uma escritora é uma estranha forma de tentar apreciá-la e entendê-la.
A questão é, então, como conciliar o moralismo de Austen com a sensibilidade moderna. Para discursar sobre esse problema, seria conveniente se pudéssemos encontrar alguém com essa sensibilidade moderna que realmente lê Austen por sua instrução moral (em adição ao prazer literário que ela proporciona). Que conveniente termos à nossa disposição alguém que se encaixa nessa descrição: eu.
Eu acho que ler Jane Austen me ajuda a elucidar escolhas éticas, a descobrir um meio de viver com integridade no mundo corrupto e até a adotar o tom e a maneira adequados ao lidar com os outros. Seu moralismo e a mentalidade moderna não estão, de fato, em oposição direta, como é tão freqüentemente suposto.
Dizer que alguém valoriza a instrução moral de Austen pode provocar ceticismo porque, afinal, ela era uma solteirona vivendo na Inglaterra provinciana há 200 anos. Mas nossos mundos não são tão diferentes. Nós vemos as personagens de Austen – vaidosas, egoístas, ingênuas, compassivas – em nossas vidas todos os dias. O tempo e a localização dela são, na verdade, uma vantagem. Em seu mundo circunscrito, os problemas da vida podem ser examinados com uma precisão mais aguçada.
Austen viveu na divisão das eras augustana do século XVIII e romântica do século XIX. No nosso tempo, quase toda canção, propaganda ou filme é baseado em princípios românticos. Não importa o quanto apreciemos as “felicidades da vida doméstica”, como Austen coloca em “Persuasão”, ainda sentimos o enorme impulso romântico para fazer alguma coisa mais heróica ou intensa. Ao invés de estarmos aproveitando um bom jantar enquanto conversamos com amigos, nós deveríamos estar lá fora forjando a consciência de nossa raça na oficina de nossa alma, ou algo assim. Eu realmente não quero forjar a consciência da minha raça, mas, ao mesmo tempo, não quero perder tudo o que o Romantismo oferece. É aí que entra Austen, pois ela é uma augustana familiarizada com o Romantismo, o que a torna mais útil do que um escritor moderno para nos ajudar a encarar o desafio romântico. Só ela pode, com credibilidade, mostrar a nós que é possível ter moderação e sentimentos profundos, bons jantares e boa poesia.
Quais são, então, os valores que Austen nos ensinaria? Palavras e frases carregadas de valor aparecem a todo momento em sua obra, freqüentemente aos montes: auto-conhecimento, generosidade, humildade, elegância, decência, constância, contentamento, bom entendimento, opinião correta, conhecimento de mundo, coração cálido, estabilidade, observação, moderação, candura, sensibilidade ao que é cordial e amável.
A instrução moral de Austen aponta para uma vida mais moral – em que “moral” se refere não apenas a princípios corretos, mas à conduta em geral. O sistema de valores de Austen pode ser tido como uma esfera com camadas. O centro poderia ser chamado de “moralidade”, a camada seguinte seria a “emoção” e, finalmente, a superfície, “conduta”. Moralidade consiste nos princípios fundamentais: auto-conhecimento, generosidade, humildade, compaixão, integridade.
A ênfase que Austen dá à ordem e ao decoro pode parecer seca e rígida. Mas qualquer um que leia “Mansfield Park” sentirá o mesmo alívio de Fanny diante da mudança da estrondosa desordem da casa de sua família em Portsmouth para a ordem da mansão. Da mesma forma, a consideração de Austen pelo autocontrole, especialmente expressa em “Razão e Sensibilidade”, pode parecer dura, mas é preciso lembrar como a autora claramente vê o sentimentalismo de Marianne com grande compaixão. Austen não está defendendo a supressão dos sentimentos – apesar de seu irrepreensível comportamento, Elinor é submetida a grandes sofrimentos e sente cada um deles profundamente. O que Austen está dizendo, como um psicólogo moderno pode recomendar, é que se deve evitar a desintegração da própria personalidade. Emoções são construídas sobre a fundação de nossa moralidade: um coração adorável, sensibilidade a tudo o que é amável. A conduta, por outro lado, tem a ver com comportamento, com o modo como trabalhamos no mundo: boa educação, maneiras suaves. Certamente ainda é necessário ter modelos de bom senso e conduta honrada expostos a nós.
Como a moralidade, a emoção e a conduta podem ajudar alguém a viver no mundo? Como deveriam ser as relações entre as pessoas e o mundo? Deve-se rejeitar o mundo inteiramente como corrupto e mercenário e hipócrita e superficial? Ou há um outro caminho, em que se podem manter a integridade e a sensibilidade, mas viver no mundo também? W. H. Auden colocou bem o problema quando escreveu:
“Será que a vida só oferece duas alternativas: ‘Você pode ser feliz, saudável, atraente, sociável, um bom amante e um bom pai, mas com a condição de que não seja curioso demais sobre a vida. Por outro lado, você pode ser sensível, consciente do que está acontecendo ao seu redor, mas, nesse caso, você não deve esperar ser feliz, ou bem sucedido no amor ou em casa com qualquer companhia. Existem dois mundos e você não pode pertencer a ambos.’”
De fato, Austen está perguntando se a vida oferece apenas as duas alternativas de “Razão e Sensibilidade” e podemos simpatizar com seu grito de desespero, pois quando o dilema é colocado da maneira como ele o faz, as duas parecem inconciliáveis.
Austen vem a nosso resgate, entretanto, visto que ela consegue se ajustar entre “Razão e Sensibilidade”, rejeitando os excessos de ambas. Sua postura agrada porque a combinação de moralidade, emoção e conduta proporciona um modo de vida que permite estar no mundo e desfrutar dos benefícios da sensibilidade também. Austen não escreve sobre boêmios e rebeldes; ela não quer mudar seu mundo – “ela não mudaria um fio de cabelo na cabeça de ninguém ou moveria um tijolo” como Virginia Woolf escreveu. Suas simpáticas personagens participam plenamente de sua sociedade e aceitam as convenções dela, e ainda têm corações e mentes perfeitamente bons. Bom senso não precisa estar em guerra com a sensibilidade.
Ironia não é apenas o modo de expressão característico de Austen: É seu modo característico de pensamento. A ironia de Austen reflete um perfeito entendimento de todos os meios pelos quais o mundo é ordinário e a crença de que, apesar de não podermos lutar contra isso, podemos, pelo menos, separamo-nos disso. Em suas sentenças irônicas, há movimento com estabilidade. Ela se move em direção ao objeto de suas críticas, e então se afasta dele, e aí proporciona um bom retrato no final. Essa movimentação rítmica serve como um ideal tanto para a aceitação quanto para a rejeição dos meios do mundo ordinário enquanto se mantém o equilíbrio.
A ironia das personagens de Austen também fornece àqueles de nós que acreditam no decoro uma forma de lidar com os hipócritas. Elinor Dashwood de “Razão e Sensibilidade” é raramente irônica, mas ela nos serve como um bom exemplo. Lembre da conversa quando o odioso John Dashwood, que havia traído a promessa feita no leito de morte patriarcal de ajudar suas meias-irmãs, sugere a Elinor que a Sra. Jennings lhes deixará uma herança. Elinor responde, “De fato, irmão, sua preocupação pelo nosso bem-estar e prosperidade o levam muito longe”. Faltam a John Dashwood generosidade e integridade. Elinor o insulta, mas ela o faz da maneira mais cortês possível.
Se alguém quiser argumentar que a moralidade de Austen é útil para uma pessoa que vive nos dias de hoje, precisará lidar com três casos difíceis. Primeiro, há a objeção de Fanny ao teatro amador em “Mansfield Park”. Então, em “Razão e Sensibilidade” há a recusa de Elinor a lutar pelo homem que ela ama, Edward Ferrars, quando ela sabe que ele está oficialmente comprometido com Lucy Steele, uma mulher que “unia a insinceridade à ignorância”. Finalmente, há o reconhecimento de Anne Eliot em “Persuasão” de que ela fez a coisa certa seguindo os ditames de Lady Russel para recusar o Capitão Wentworth, mesmo que isso tenha levado a anos de penúria sem amor para ambos. Nos três casos, Austen defende uma moralidade que parece quase absurda em sua rigidez. Qual é o grande problema com o teatro? Sustentar o princípio de honra vale a pena quando ele resulta em relacionamentos ruins e arrependimento? E que tipo de sistema de valores coloca a obediência antes do amor?
Tavez a rigidez de Austen seja muito antiquada, mas qualquer um pode encontrar mérito nos conceitos de honra, dever e obediência. Essas cordas ficaram tão frouxas que não há nada errado em apertá-las com uma leitura indulgente desse aspecto de Austen; elas afrouxarão novamente logo.
Para encerrar rapidamente os casos de Elinor e Anne, direi apenas que suas ações devem ser vistas no contexto de suas próprias crenças sinceras. A lição é de que às vezes é certo sacrificar alguma coisa que queremos pelo bem de nossa consciência.
Com Fanny Price quase parece que Austen decidiu criar uma personagem que não tem nem boas maneiras nem personalidade, mas é simplesmente moralidade crua. Ela é famosa por desagradar os leitores, mas suas ações e atitudes podem ser justificadas. Apesar de toda sua timidez, ela tem coragem de verdade. Ela se opõe aos outros quando eles querem que ela participe da peça e ela até resiste ao terrível ataque de fúria de Sir Thomas quando ela recusa a proposta de casamento de Crawford. É raramente reconhecido que Fanny está correta. O perigo da encenação é que ela deixa jovens homens e mulheres juntos em um ambiente com grande carga sexual e, de fato, eles realmente acabam levados ao resultado que Fanny temia: Henry Crawford e Maria Rushworth escapam juntos. Então Fanny não está simplesmente aderindo a uma regra arbitrária e tola sobre a decência ou não do teatro amador, ela está tentando evitar uma condição que realmente termina causando dor de verdade.
Os princípios de Jane Austen são de valor transcendente, eles não são “pedantes” e seus romances ilustram e defendem um modo de viver no mundo que é ético, sensível e prático. O melhor representante para o mérito da aproximação de Austen da vida é, entretanto, a própria Austen. O reflexo da primeira sentença de “Orgulho e Preconceito” pode ser vislumbrado sob ela. “É uma verdade universalmente reconhecida que uma mulher solteira com pouco dinheiro deve estar à procura de um marido.” Não há nada irônico nisso: No tempo de Austen essa realmente era uma verdade universal. A condição de Austen como uma mulher solteira sem dinheiro e já não tão jovem era, como ela coloca na descrição da Srta. Bates em “Emma”, estar “na pior situação do mundo para ter a simpatia das pessoas”. Como essa frase indica, entretanto, Austen era capaz de olhar para a própria situação friamente, claramente e sem auto-comiseração. Os romances carregam a estabilidade, o equilíbrio, a indulgência e o humor de sua criadora. Ao lê-los, a pessoa é envolvida na personalidade dela, a personalidade que podemos desejar adotar para nós mesmos, pois parece esclarecer muitos dos costumes, problemas e outras coisas da vida

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James Collins é escritor e editor, cujo primeiro romance, “Beginner’s Greek”, foi lançado esse ano. Esse texto foi adaptado de “A Truth Universally Acknowledged”, uma antologia de ensaios sobre o porquê de lermos Jane Austen, publicada no início dessa semana pela Random House.

Imagens de Bath

Outra coisinha interessante que descobri no site da Biblioteca Britânica foi algumas imagens de Bath, cidade que Jane conhecia e citou em dois livros: Persuasão e A Abadia de Northanger.

The Pump Room, Bath

General View of Bath
Milsom Street, Bath
Bath, The Hot Baths

A Ball in the Rooms, Bath
Great Poulteney Street, Bath
Bath Oliver Biscuits Advertisement, 1884