Jane Austen Brasil no Youtube

Para quem ainda não conhece, temos um canal no Youtube. Em tempos de distanciamento social, por causa do novo corona vírus, vale a pena visitar e conhecer um pouco do nosso trabalho, nossos encontros presenciais.

Para este ano de 2020, pretendemos colocar mais vídeos e áudios! Aguardem!

Chamada para publicação da Revista Literausten

Está aberta a chamada para artigos para publicação na Revista Literausten, até dia 31 de maio de 2020.

A sétima edição da Revista LiterAusten (ISSN 2526-9739) está com chamada aberta para artigos relacionados ao Universo Austen e, agora também, aos estudos sobre outras escritoras inglesas! Qualquer temática que seja relacionada às escritoras e suas obras é bem vinda! 

Normas para Publicação

Emma 2020 – Kit do Filme

Recebi, hoje mais cedo, um presente maravilhoso da Melinda @jasna_sctx é um kit de impressa do filme #emma2020 espero que esteja disponibilizado em streaming em breve para nós aqui no Brasil, já que não podemos mais ir aos cinemas e demais lugares com aglomerações de pessoas! @emmafilm @focusfeatures #jasbra #janeaustenbrasil #janeaustensocietyofbrazil #janeaustensociedadedobrasil

Etiqueta na Pandemia com Anne Elliot

Fonte: Fantástico Mundo de Jane Austen

Em tempos de coronavírus, distanciamento social e medidas de prevenção, a sensata heroína de Persuasão pode nos deixar algumas dicas valiosas. Para informações oficiais sobre o coronavírus, acesse: https://coronavirus.saude.gov.br/ Informação, cuidado coletivo e combate às fake news são essenciais! Fiquemos todos protegidos e façamos a nossa parte.

A [IN]DESCRIÇÃO DE JANE AUSTEN

Artigo escrito por Larissa Pereira de França[1], Publicado na Revista Literausten, edição 06/2019.

Se a um leitor assíduo das obras de Jane Austen é pedido para que trace um perfil de algumas das personagens dos romances Austeneanos, com sucesso esse leitor será capaz de fazê-lo. Facilmente, um pode traçar o perfil do Sr. Collins – um homem pedante, repugnante, bajulador e, como muitos dizem um “mala”. Ou da Sra. Bennet – uma senhora falante, ignorante, fútil e fofoqueira que vive por casar as filhas e não se cansa de reclamar da vida. Ou de Sir Walter Elliot – um baronete quase falido, porém prepotente, vaidoso e orgulhoso.

Porém, ao refletir, esse leitor percebe que nos perfis que traçou não havia sequer uma característica física. Ele percebe que não sabe a cor dos olhos do Sr. Collins, a estatura da Sra. Bennet ou se Sir Walter Elliot era calvo. Não sabe porque Jane Austen não dá a ele essa informação. No entanto, é capaz de imaginar perfeitamente essas personagens. Isso porque a descrição física e material – preferida pela grande maioria dos escritores – para Jane Austen não aparenta ser o mais importante dentro de uma obra. Entretanto, a autora se destaca pela ausência dessa descrição – o que chamo de [in]descrição. O que é e a importância dessa [in]descrição constituem a preocupação deste artigo.


[1] Formada em Letras – Inglês/Literaturas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). E-mail: larissa.p.franca@gmail.com.

O ROMANCE UNILATERAL DE JANE AUSTEN E TOM LEFROY

Tradução inédita do artigo escrito por Joan Klingel Ray[1] com tradução de Adriana Sales Zardini (tradução)[2], Publicado na Revista Literausten, edição 06/2019.

A ânsia de introduzir um romance apaixonado na vida de Jane Austen – seja com o jovem irlandês Tom Lefroy ou com outra pessoa – não é novidade. Em uma palestra proferida em 1925, na Sociedade Real de Literatura dos Estados Unidos sobre a “lacuna” na produtividade literária de Austen entre 1797 (Primeiras Impressões) e o “dilúvio” de romances após 1811, H. W. Garrod advertiu sensatamente:

 
Os biógrafos de Miss Austen procuraram a explicação do mistério em um caso de amor. Mas talvez uma explicação mais simples [seja]. . . que, apesar de ter escrito seus três primeiros romances até o final de 1798, não havia encontrado uma editora para nenhum deles até 1811. Um gênio, o mais fértil, necessariamente sente seus ardores bastante amortecidos pelo infortúnio de três filhos natimortos. (GARROD, 1935: 27-28). Com o lançamento do filme “Amor e Inocência” pela Miramax, em 2007, essa especulação se espalhou pelo mundo dos fãs de Austen para o público do cinema. Muitos cineastas podem acreditar que não apenas Lefroy era o “muso” romântico de Austen, mas também que ele mantinha um lugar em seu coração.



[1] Joan Klingel Ray (email: jray@uccs.edu) é professora de inglês e pesquisadora da Universidade do Colorado, em Colorado Springs, Presidente dos amigos norte-americanos da  Chawton House Library.  Foi Presidente da JASNA (Jane Austen Society of North America) de 2000 a 2006.

[2] Adriana Sales Zardini (email: aszardini@gmail.com) é doutora em Estudos Linguísticos pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), professora de inglês no CEFET-MG (Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais) e Presidente da JASBRA (Jane Austen Society of Brazil) desde 2009.

JANE AUSTEN, HANNAH MORE E O DRAMA DA EDUCAÇÃO

Tradução inédita do artigo escrito por Jane Nardin[1] Tradução: Vitória Martins de Souza e Ana Clara Coura Vargas (CEFET-MG Timóteo)[2]. Publicado na Revista Literausten, edição 06/2019.

Jane Austen sabia tudo sobre Hannah More, mas Hannah More nunca ouviu falar de Jane Austen, o que não chega a ser surpreendente. Apesar da popularidade de More não ter sobrevivido após sua morte, em 1833 aos 88 anos, enquanto viva, essa cristã moralista foi, sem sombra de dúvida, a mais famosa escritora inglesa.

Leia o artigo completo aqui.


[1] Professora de Literatura Inglesa na Universidade de Yale. E-mail: jane.nardin@yale-nus.edu.sg. Website: <https://www.yale-nus.edu.sg/about/faculty/jane-baron-nardin/>. Jane Nardin é Professora de Inglês na Universidade de Wisconsin, Milwaukee, EUA, onde se especializou nos romances ingleses do século XIX. Seu livro mais recente é Trollope and Victorian Moral Philosophy (Impresso na Universidade de Ohio, 1996), ainda sem título em português.

[2] São alunas do Ensino Médio no CEFET-MG Campus Timóteo. Conduziram esse trabalho sob orientação da professora Adriana Sales e co-orientação de Marcelle Salles em 2019.

JANE’S HAPPY ENDINGS

Poema inédito da Lúcia Leão – publicado na Revista Literausten número 06/2019.

JANE’S HAPPY ENDINGS

Lúcia Leão[1]

were never there when she arrived.

She would dress, naked

inside, ready inside.

The garden was hers

to redefine, and with no rain

coming her way she learned life

can go on with no crying.

She learned to leave behind

simple beginnings and lessons,

she wanted to replant

in the middle of clouds

– a desire.


[1] Lúcia Leão é tradutora e escritora. Tem mestrado em literatura brasileira pela UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e mestrado em jornalismo pela Universidade de Miami (Flórida, EUA).

Nova edição da Revista Literausten

Para o presente número da Revista LiterAusten  apresentamos um poema em homenagem a Jane Austen, escrito por Lúcia Leão, e, em seguida, um artigo traduzido pelas alunas do Ensino Médio do CEFET-MG – Campus Timóteo, sob orientação de Adriana Sales Zardini e Marcelle Santos Vieira Salles. Também apresentamos a tradução de um artigo muito interessante a respeito do relacionamento entre Tom Lefroy e Jane Austen, escrito, em inglês, pela Joan Ray (JASNA).  Além dos dois artigos traduzidos, apresentamos também o artigo de Larissa França, que traz uma análise sobre a descrição dos personagens Austen em duas: Orgulho e Preconceito e Persuasão. A partir desta edição, serão publicados artigos, ensaios e demais trabalhos sobre escrita de autoria feminina e todo o universo de pesquisas que retratem essa temática.

Vejam os títulos das publicações desta edição:

JANE’S HAPPY ENDINGS (Lúcia Leão)

JANE AUSTEN, HANNAH MORE E O DRAMA DA EDUCAÇÃO  (Jane Baron Nardin, Vitória Martins de Souza e Maria Clara Coura)

O ROMANCE UNILATERAL DE JANE AUSTEN E TOM LEFROY (Joan Klingel Ray e Adriana Sales Zardini)

A [IN]DESCRIÇÃO DE JANE AUSTEN (Larissa Pereira de França)

O HORROR OCULTO NOS ROMANCES DE AMOR DE JANE AUSTEN

Mikaella Clements[1]

Tradução: Jane Andrade (JASBRA)

Existe uma lenda urbana, que persegue os Departamentos de Inglês pelo mundo, que versa sobre Charlotte Brönte condenando Jane Austen. Segundo a lenda, ela teria dito, “Jane Austen retrata um belíssimo jardim. Saia pelo portão e nós lhe mostraremos o mundo.”

Apesar da história não ser totalmente verdadeira, ela é baseada nos comentários feitos por Charlote Brönte em uma carta ao crítico literário G.H.Lewes. Ainda assim, os comentários de Charllote são indelicados, mas não tão impactantes. Na verdade, ela escreve que “os jardins de Austen são cuidadosamente cercados e muito bem cultivados”, em oposição ao “campo aberto…. ar fresco”, pelos quais a própria Brönte anseia. De qualquer maneira, para os críticos de Austen, a censura de Brönte parece conter algumas pitadas de verdade. A fama de Austen e seu sucesso junto aos seus pares não impediu que ela, ainda assim, fosse vista por muitos como uma escritora afetada, conservadora, interessada apenas em salas de estar e gafes sociais. Todavia, coisas ruins acontecem nos romances de Austen, e as ameaças são muito reais – Lydia titubeando perigosamente, à beira da ruína, Marianne negligente com sua própria reputação – mas elas não são, na superfície, ou para os desavisados, sombrias. O humor habilidoso de Austen, seus diálogos incisivos que nos permitem rir de todos os personagens e, acima de tudo o seu amor permanente pelos finais felizes, de certa maneira, fazem com que não seja necessário para nós, leitores, nos preocuparmos demais com o mundo além do portão.

Mas será que isso significa que não há nada a que temer nos jardins maravilhosamente cultivados, ou nas luxuosas propriedades rurais, retratados por Austen? Eu me pergunto sobre os quartos naquela casa e tudo que fica escondido atrás de suas portas fechadas, as sombras que os personagens de Austen projetam. Uma inquietação subterrânea cintila e some em uma existência tremeluzente e incerta, que está presente na charmosa e descomplicada felicidade de Emma e no frescor do adorado Orgulho e Preconceito. No âmago das críticas sociais otimistas de Austen, existe um centro de medo, arrepiante e ameaçador, profundamente enraizado, que antecipa os modernos gêneros de terror e seus temas. Não é necessário pisar fora do portão; o grito vem de dentro da casa.

Notícias recentes de que logo haverá uma nova adaptação de Orgulho e Preconceito provocaram resmungos e gozações sutis, que podemos facilmente resumir como: mais uma? Mas os produtores da nova série, já conhecidos pelo seriado Poldark daBBC, um drama inquietante sobre um soldado britânico que retorna para casa depois de lutar na Guerra de Independência dos Estados Unidos, anunciaram que esta será uma adaptação “mais sombria”, com o objetivo de trazer à tona a “inteligência sombria de Austen – brilhante sim, mas cintilante como o granito.”

E há muito em Orgulho e Preconceito para discutir. Para mim, sempre foi um romance sobre dinheiro e poder tanto quanto sobre amor; talvez o mais certo seja dizer que Orgulho e Preconceito é um romance sobre desejo. Não é coincidência o fato de que o termo que Mr. Darcy mais usa ao se referir a Elizabeth Bennett não seja “amor” mas sim “perigo”; há um sentimento de medo presente ali, medo das consequências desastrosas que o desejo, especialmente o desejo impróprio, pode trazer – e na verdade traz, quando Lydia e Mr. Wickham fogem juntos.

Também não é coincidência que a obra Orgulho e Preconceito, com a conveniente adição do termo “e Zumbis”, tenha iniciado a mania de modernização dos clássicos com temáticas de terror mais explícitas. Ao falar ao New York Times em 2009, o Professor Brad Pasanek disse: “Os personagens… estão frequentemente rodeados por pessoas que não são totalmente humanas, são como máquinas que repetem as mesmas coisas indefinidamente. Todos aqueles personagens se embaralham, entrando e saindo das cenas, sempre frustrando os protagonistas. A paisagem lotada de pessoas é, no entanto, estranha e ameaçadora. O que há de errado com aquelas pessoas?  Elas não dançam bem, apenas se movem em movimentos desajeitados. Oh, eles estão vindo para cá!” É engraçado imaginar Elizabeth Bennet lutando contra zumbis, mas como Pasanek, eu não acho que seja necessário procurar em versões atualizadas para encontrar as linhas do horror presentes no trabalho de Austen.

Há outro tipo de monstro se escondendo na alegre, quase frívola obra Emma – que inspirou o filme “As Patricinhas de Beverly Hills”- a história de uma jovem perfeitamente elegível para casar-se que, no entanto, se delicia em formar novos casais, enquanto ela própria permanece em casa com seu pai dependente. Seu pai,  Mr. Woodhouse, é tratado por ela e pelos outros personagens como se fosse meramente um estressado adorável, alguém que precisa ser constantemente guiado e cuidado, sempre tratado pela jovem com amor e respeito inquestionáveis. É relativamente fácil seguir a linha cômica e afetuosa do personagem, mas, se você se permitir, por um momento, abstrair-se dessa cumplicidade, Mr. Woodhouse se tornará subitamente grotesco.

Em incontáveis momentos ao longo do romance, Mr. Woodhouse constrói sua presença opressiva e claustrofóbica, aprisionando primeiramente Emma, a seguir, Mr. Knightley e, eventualmente, o leitor, dentro de sua casa cuidadosamente monitorada. “O que faz meu querido pai ser tão adorado por todos é seu coração afetuoso”, reflete Emma, mas Mr. Woodhouse não parece nada mais do que uma armadilha amorosa assexuada. Apesar de não ter poderes sobrenaturais, de todo modo existem nele características vampirescas, já que Mr. Woodhouse “gosta de todos os corpos com que se acostuma, mas detesta separar-se deles.” Ele tem uma necessidade pegajosa e parasitária de manter as pessoas por perto. Ele é aquela coisa feia no canto, sugando a energia das pessoas só para se manter aquecido.

Temos aqui um vilão que sempre vai conseguir o que quer, o romance sugere isso, porque, na realidade, ninguém se dispõe a reconhecê-lo como tal.”

Ao longo de todo o romance, Mr. Woodhouse se irrita com praticamente tudo: festas de casamento, casamento, comida, janelas abertas, chuva, neve, ventanias, poças, crianças, cavalos, cocheiros, carruagens, pousadas, muitas visitas, poucas visitas, andar muito, andar pouco. Essa lista é apenas parcial. O que começa como um capricho engraçado, se torna algo sufocante; Mr. Woodhouse não permite que seus hóspedes comam tudo que escolhem, deseja desesperadamente forçar para que todos comam mingau como prato principal, e, até mesmo quando Emma, ao deixar seus convidados sozinhos com seu pai, ‘providencia um farto  jantar…ela desejou saber se eles puderam comê-lo.” Sua necessidade de amor e afeto é patológica, mas ele deixa seus convidados e ele mesmo, à mingua. No final de uma releitura recente de Emma, eu só conseguia murmurar “Eu te odeio,” sempre que ele aparecia, com nojo, como se tivesse me deparado com alguma coisa apodrecendo.

Pior de tudo, não há como escapar de Mr. Woodhouse: para terem direito a um final feliz, Emma e Mr. Knightley são obrigados a concordar em morar com ele em Hartfield. Fica até difícil imaginar Mr. Knightely, tão resoluto, tranquilo e confiante curvando-se aos ditames de Mr. Woodhouse; mas Emma, tão alegre e voluntariosa, já está totalmente dominada por ele. Temos aqui um vilão que sempre vai conseguir o que quer, o romance sugere isso, porque, na realidade, ninguém se dispõe a reconhecê-lo como tal.

Fanny Price, a menosprezada heroína de Mansfield Park, parece, em contraste, cercada de vilões por todos os lados. Criada com desprezo como a parente pobre da família rica, humilhada e abusada, Fanny triunfa, eventualmente, por pura obra do acaso, quando os personagens ao seu redor começam lentamente a compreender o valor da sua mansidão e de sua serena bondade cristã. Ela é um personagem difícil de amar; não é inteligente como Elizabeth nem tampouco divertida como Emma. Durante um longo tempo, eu li Fanny como um exercício de paciência, um testemunho de firmeza de propósito. Mas Austen já havia escrito um personagem que é calmo e paciente e bom e ainda assim muito amado: Elinor Dashwood de Razão e Sensibilidade, que é passiva, mas firme, decente mas segura de seu próprio coração. Pelo que sei, não existem grandes campanhas anti-Elinor. Mas os leitores odeiam Fanny: sua submissão, sua passividade. Durante muitos anos eu a desculpei, apesar do sentimento inquietante que tomava conta de mim toda vez que eu relia o romance. Mas, na verdade – porque odiamos Fanny Price? O que há de errado com ela?

“O horror de Jane Austen é de ambiguidade inquietante e desconforto permanente.”

Mansfield Park é um romance mais sombrio, mais preocupante do que o restante da obra de Austen – Pam Perkins, crítica literária, o descreveu como o “patinho feio” de Austen. O romance poderia muito facilmente ser confundido com uma obra Gótica; uma heroína inocente, cercada por poderosos marcadores do patriarcado, com perigosas forças sociais pesando sobre ela. Mas Austen não se interessa particularmente pela estética gótica. Northanger Abbey, sua sátira gótica afetuosa, mostra que ela se diverte muito com a estrutura e temas do gênero para levá-lo muito a sério. Na obra de Austen, os quartos e vilões ameaçadores da ficção gótica são melodramáticos demais para serem verdadeiramente assustadores.

Quando a própria Jane Austen se propõe a ser assustadora, ela o faz de uma maneira bem diferente. O horror presente em sua obra é de ambiguidade inquietante e desconforto permanente, como acontece no caso de Mr. Woodhouse, que não é tão malvado assim, até que o sentimento de horror e aversão, que ele desperta como ninguém, se repete, até tornar-se insuportável. Mais do que qualquer outro romancista do século XVIII, Austen tinha um olhar para as micro agressões: seus romances detectam ansiedades que se manifestam constantemente até que um aborrecimento superficial se torna repugnância e então, por fim, medo.

A mansidão de Fanny Price tem o seu próprio núcleo de pavor. Cercada por estruturas de violência e poder patriarcais, Fanny Price consegue vencer sem se esforçar, sem tentar fazer ninguém mudar de ideia. Ela vence por meio do sofrimento; apenas suporta as regras frias e o sistema abusivo do jogo que os Bertrams jogam. Ela permite que eles a tratem terrivelmente até que ela tenha sido testada o suficiente para merecer Edmund. Ela se submete totalmente, jogando de acordo com as regras impostas. Mas isso não significa que ela não esteja jogando.

O pior de tudo é que Fanny teve oportunidade de sair. Henry Crawford é um dos homens mais ambíguos criados por Austen, ele não tem o coração sincero dos heróis da escritora, mas não é um libertino deliberadamente cruel como Wickham. Porém, quando ele persegue Fanny, oferecendo-lhe um gosto pelo mundo exterior, de forma invasiva, ela o bane. O seu final feliz – expresso pelo seu casamento com Edmund Bertram – acontece quando ela aceita as mesmas estruturas de poder que a aprisionaram.

Maria Bertram, passeando por onde deveria ser um jardim aprazível, compreende o quanto está prisioneira: “Sim, com certeza, o sol brilha e o parque parece muito alegre. Mas, infelizmente, aquele portão de ferro me dá uma sensação de prisão e sofrimento. ‘Eu não posso sair’, como dissera o pássaro… Mr. Rushworth está demorando demais para buscar essa chave!”

Eu não posso sair. Mas Fanny Price não quer sair. Quando os portões do romance se fecham, ela está presa lá dentro, e nós também.


[1] Mikaella Clements, escritora australiana, atualmente radicada em Berlim. Ela publicou no BuzzFeed, The Lifted Brow, Catapult, e Overland Literary Journal, dentre outros. Você pode encontrá-la no Twitter @mikclements.