Por que Jane Austen era feminista?

A leitora Alexandra Duarte nos presenteia hoje com suas reflexões a respeito de Jane Austen e feminismo. E vocês leitores, o que acham desta perspectiva?

O artigo está disponível para download, basta clicar na imagem abaixo.

 
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Hoje tem Jane Austen em Uberlândia!

Hoje, 20 de novembro, acontecerá a apresentação de dois trabalhos de pesquisa realizados por esta que vos escreve, Adriana Zardini e o amigo Amilcar Santos. O evento faz parte do IV Simpósio Internacional de Letras e Linguística e XIV Simpósio Nacional de Letras e Linguística, realizado na Universidade Federal de Uberlândia.

LT: Representações femininas no romance histórico
Local: Bloco 5S – Sala 5S 106
Dia 20 das 14:00 às 14:20
A identidade feminina na obra ‘Orgulho e Preconceito’ de Jane Austen – Adriana Sales
Zardini
Dia 20 das 14:20 às 14:40
Aurélia Camargo e Elizabeth Bennet: um diálogo entre protagonistas femininas de José de
Alencar & Jane Austen – Amilcar Figueiroa Peres dos Santos
No dia 22, às 19 horas, será a vez de Amanda Chieregatti, apresentar um poster a respeito do feminismo na obra de Austen, tema recorrente dos meus últimos trabalhos. O tema do poster da Amanda é: A paratopia criadora de Jane Austen: uma autora feminista?
Conheça um pouco sobre esta pesquisa de Amanda, aqui.

Terças: Indicações de livros – Jane Austen and Feminism

Hoje é dia da Coluna das terças-feiras: Indicações de livros

Eu recebi esse livro na semana passada, justamente duas semanas após ter realizado minha compra! Jane Austen and Discourses of Feminism está esgotado na editora, portanto só no Ebay e sites de livros usados como (AbeBooks e Amazon).  

O livro é uma série de artigos reunidos por Devoney Looser, publicado em 1995 Palgrave  Macmillan (New York). A edição que adquiri (foto abaixo) é de capa dura e possui 198 páginas. Clique aqui e conheça os artigos que fazem parte deste livro.


Veja os capítulos do livro:

  • Introduction: Jane Austen and Discourses of Feminism / Devoney Looser
  • 1. Jane Austen, Romantic Feminism, and Civil Society / Gary Kelly
  • 2. “Invention Is What Delights Me”: Jane Austen’s Remaking of “English” History / Antoinette Burton
  • 3. Jane Austen and the Engendering of Disciplinarity / Clifford Siskin
  • 4. Jane Austen and the Marriage Plot: Questions of Persistence / Laura Mooneyham White
  • 5. Jane Austen and the Burden of the (Male) Past: The Case Reexamined / Jocelyn Harris
  • 6. Consolidated Communities: Masculine and Feminine Values in Jane Austen’s Fiction / Glenda A. Hudson
  • 7. Vindicating Northanger Abbey: Mary Wollstonecraft, Jane Austen, and Gothic Feminism / Diane Hoeveler
  • 8. In Defense of the Gothic: Rereading Northanger Abbey / Maria Jerinic
  • 9. Privacy, Privilege, and “Poaching” in Mansfield Park / Ellen Gardiner
  • 10. “The Different Sorts of Friendship”: Desire in Mansfield Park / Misty G. Anderson.

Breve resumo do livro:

Nas últimas décadas a visão de Austen como uma autora de subversivo ou rebelde tem aparecido com mais força nas críticas literárias feministas. Jane Austen e Discursos do feminismo envolve – entre outras coisas – uma reavaliação dessas versões do relacionamento de Jane Austen com o feminismo. 

Conheça aqui as outras indicações desta coluna.

Jane Austen para Iniciantes

Este livrinho charmosinho é fruto dos estudos do Professor Robert Dryden que investiga Jane Austen. Com o título de Jane Austen para Iniciantes (ainda sem tradução aqui no Brasil) Robert escreveu um guia suscinto com tudo o que é essencial a respeito de Jane. Ele faz um resumo de sua vida e trabalho, além de explicar a enorme popularidade de Jane ao longo destes 200 anos.

Robert Dryden ainda insiste que Jane pode ser considerada uma precusora do feminismo moderno (“a precursor to the modern-day feminist”).

Clique na imagem abaixo ou aqui para visualizar o conteúdo do livro.

O livro faz parte de uma coleção chamada ‘For Beginners’, conheça melhor o católogo da editora aqui.

O livro está sendo vendido na Amazon por 11,35 dólares (preço promocional).

Para ler um pouco mais sobre Jane Austen e Feminismo clique aqui.

Orgulho e Preconceito na época de Jane Austen

Convido a todos os interessados que estejam na cidade de Belo Horizonte para uma palestra sobre as mulheres na época de Jane Austen. Eu decidi colocar o título como Orgulho e Preconceito, fazendo uma alusão ao título do livro mais famoso de Austen como ponto de partida para a discussão. Sejam todos bem vindos!

O Setor de Referência e Estudos da Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, tem a satisfação de convidá-lo(a) para a Palestra “Orgulho e preconceito na época de Jane Austin”, dia 23/03/2012 às 15h, na sala de cursos do prédio Anexo Prof. Francisco Iglésias – Rua da Bahia, 1889 – Funcionários, conforme convite anexo.
Palestrante convidada: Profª Adriana sales Zardini.
Contamos com sua presença e solicitamos que divulguem para seus amigos
Inscrição gratuita pelo telefone: (31)3269-1232 e/ou referencia.sub@cultura.mg.gov.br

O universo feminino nas obras de Jane Austen

Com o corre-corre do meu dia-a-dia acabei me esquecendo de divulgar um artigo que escrevi para Revista Em Tese da Pós Graduação em Estudos Literários da UFMG. Participei de um congresso Chamado Mulheres em Letras e após a minha apresentação, fui convidada a escrever um artigo para a revista.
Entre os pontos que merece destaque neste artigo estão: o papel da mulher na sociedade, no casamento e dentro do seio familiar, os direitos da mulher e por fim, Jane Austen e o feminismo.

Abaixo, o arquivo gratuito para download:

O Feminismo em A Abadia de Northanger

O artigo O Feminismo em A Abadia de Northanger de Austen, indicado pela Adriana Zardini, foi publicado originalmente em inglês no periódico online Artifacts, da Universidade do Missouri, Estados Unidos. Escrito por Sara Whitecotton, o texto identifica o pensamento feminista dentro da obra A Abadia de Northanger, de Jane Austen. Whitecotton relaciona o romance às ideias da escritora inglesa Mary Wollstonecraft (1759-1797) considerada pioneira do feminismo por ter escrito Uma Defesa dos Direitos da Mulher (1790). A obra é uma reposta ao médico e escritor moralista escocês Dr. John Gregory (1724-1773), que escreveu O Legado de Um Pai Para Suas Filhas (1761), um tratado sobre a educação feminina. Abaixo, segue a tradução que fiz do artigo:


O Feminismo em A Abadia de Northanger de Austen


Mary Wollstonecraft e o Dr. John Gregory

Em Uma Defesa dos Direitos da Mulher, Mary Wollstonecraft responde à obra O Legado de Um Pai Para Suas Filhas, do Dr. John Gregory, onde é discutida a sua visão sobre o comportamento adequado que uma mulher deve apresentar. As ideias de Wollstonecraft ecoam na visão de Austen de que as mulheres são indivíduos com capacidades intelectuais e criativas iguais as dos homens. Tanto em A Abadia de Northanger como em Uma Defesa dos Direitos da Mulher, as duas autoras questionam costumes sociais convencionais e afirmam que as mulheres devem agir racionalmente por elas mesmas, em vez de tentar simplesmente agradar ao sexo oposto.


O romance A Abadia de Northanger de Austen não é explicitamente descrito como feminista, mas ao retratar Catherine, Austen questiona o tipo feminino ideal na literatura. A individualidade de Catherine manifesta-se na primeira página do romance, onde Austen descreve a personagem principal como sendo tudo, menos uma heroína. “Catherine gostava de todas as brincadeiras de meninos, e tinha grande preferência pelo cricket… aos prazeres mais heróicos da infância, como cuidar de um arganaz, alimentar um canário, ou regar flores” (Austen 5). A extraordinária consciência de si que o romance possui fica patente na sátira que faz das banalidades da literatura gótica convencional, enfatizando que Catherine não é uma típica heroína e que Austen rejeita o conformismo feminino. Embora Catherine pareça muito diferente das outras heroínas de Austen por não ser especialmente inteligente, ela demonstra ter um bom discernimento em vários momentos do romance. Por não gostar de John Thorpe, Catherine mostra que pode pensar por si mesma e que não irá sucumbir às pressões sociais para se unir a ele. Catherine também acredita que casar por dinheiro é uma prática revoltante. Por ser tão comum em sua época, tal atitude também mostra que Catherine tem capacidade de formar as suas próprias opiniões, rejeitando as convenções aristocráticas por acreditar estarem erradas. Esta habilidade revela-se por si mesma quando Catherine recusa-se a entrar na mesma carruagem de Thorpe e seu irmão. Ela não permite ser manipulada e mostra verdadeiras características de uma heroína ao afirmar “se eu não pude ser persuadida a fazer o que considerava errado, eu nunca serei levada a fazê-lo” (Austen 68). Ao retratar Catherine como uma personagem não-convencional, Austen rejeita os costumes sociais convencionais para as mulheres e tenta modificá-los através de seus escritos.


A mensagem imprescindível em defesa da racionalidade das mulheres torna-se evidente em A Abadia de Northanger através da sátira do louvor à estupidez feminina. A voz do narrador serve como plataforma onde Austen pode apresentar o seu ponto de vista. Embora o narrador pareça concordar com a visão de outros autores de que as mulheres devem esconder a sua inteligência, as afirmações no romance significam exatamente o oposto de suas palavras. A famosa citação “uma mulher, especialmente se ela tem o infortúnio de saber alguma coisa, deve esconder o que sabe o quanto puder” (Austen 76) é evidente que não reflete o que Austen realmente pensava. Ao dizer coisas como estas, Austen zomba de outros autores que realmente acreditavam em tais bobagens. A escritora diretamente mostra isso quando afirma “as vantagens da tolice natural em uma bela garota já foram mostradas pela importante pena de uma autora” (Austen 76). Austen diminui os conselhos que as mulheres recebiam de homens como o Dr. John Gregory e afirma que as mulheres deveriam usar seus cérebros. Além disso, ao retratar a senhora Allen como uma mulher materialista e estúpida, Austen só faz ridicularizar mais ainda esse tipo de mulher. A senhora Allen é o perfeito retrato da esposa submissa e dependente que os homens aconselhavam as mulheres a se tornarem. A sua “mente vazia e a incapacidade para pensar” (Austen 40) permite que ela interaja com o sexo oposto com a habilidade “de administrar a vaidade dos outros” (Austen 76). Homens como Henry Tilney deleitavam-se com a ignorância porque permitia a eles que mostrassem seus conhecimentos ensinando às mulheres ingênuas. A visão de Austen sobre as capacidades intelectuais das mulheres em A Abadia de Northanger são ainda enfatizadas por Mary Wollstonecraft em Uma Defesa dos Direitos da Mulher.


Pelo fato do texto de Mary Wollstonecraft não ser em forma de romance como o de Austen, ela tem o poder de dizer exatamente o que pensa em resposta à obra de Gregory, O Legado de Um Pai Para Suas Filhas. Fazendo uso de sua própria voz e não a de um narrador, Wollstonecraft reprova o conselho de Gregory de que as mulheres deveriam ser “cautelosas ao demonstrarem… bom senso” (Gregory 221). Como Austen, Wollstonecraft acredita nas capacidades intelectuais das mulheres para pensar, assim como no seu direito de exercê-las. Ela também rejeita muitas convenções aristocráticas que privam as mulheres de agirem como elas gostam, tais como “o decoro serve para suplantar a natureza e banir toda simplicidade e variedade de caráter que não fizerem parte do mundo feminino”. Sem dúvida, o argumento mais convincente de Wollstonecraft que coincide com o d’A Abadia de Northanger é o de que a mulher não deveria fazer todas as vontades fúteis dos homens. Gregory afirma que certos homens talvez “vejam com olhos ciumentos e malignos uma mulher com muitos talentos e uma inteligência desenvolvida” (Gregory 221), no entanto, “um homem com um verdadeiro caráter e integridade é muito superior a essas baixezas” (Gregory 221). Wollstonecraft argumenta que se homens sem reais qualidades comportam-se dessa maneira, não há razão para as mulheres não demonstrarem seus dotes intelectuais diante de “tolos, ou homens… que não têm muito do que reclamar” (Wollstonecraft 224). Em vez de sempre tentar agradar aos homens, as mulheres devem falar e agir como desejarem, e um homem digno não deixará de amá-las pelo simples fato de pensarem. As ideias de Wollstonecraft ecoam na visão de Austen de que as mulheres não precisam constantemente agir de maneira diferente para cada tipo de pessoa, “isso seria bom se elas fossem somente companhias agradáveis ou razoáveis” (Wollstonecraft 225).


Tanto Wollstonecraft como Austen sustentavam pontos de vista incomuns para mulheres de sua época. Para elas, o comportamento apropriado para uma mulher parecia ilógico e exaustivo. Ambas argumentavam a favor das capacidades racionais das mulheres e acreditavam fortemente que elas tinham o direito de exercê-las. Austen usa em A Abadia de Northanger técnicas literárias, como caracterização e ponto de vista com o intuito de enfatizar suas ideias, enquanto que Wollstonecraft usa a sua própria voz. A despeito dos meios que as duas autoras utilizam para demonstrar suas opiniões, ambas opõem fortemente o conformismo feminino às normas sociais e acreditam que as mulheres são iguais aos homens em suas capacidades intelectivas.


Obras citadas:


Austen, Jane. Northanger Abbey. Ed. Susan Fraiman. New York: W.W. Norton & Company, 2004. 5-174.


Gregory, Dr. John. “From A Father’s Legacy to His Daughters.” Northanger Abbey. Ed. Susan Fraiman. New York: W.W. Norton & Company, 2004. 220-222.


Wollstonecraft, Mary. “From A Vindication of the Rights of Woman.” Northanger Abbey. Ed. Susan Fraiman. New York: W.W. Norton & Company, 2004. 222-225.