JANE’S HAPPY ENDINGS

Poema inédito da Lúcia Leão – publicado na Revista Literausten número 06/2019.

JANE’S HAPPY ENDINGS

Lúcia Leão[1]

were never there when she arrived.

She would dress, naked

inside, ready inside.

The garden was hers

to redefine, and with no rain

coming her way she learned life

can go on with no crying.

She learned to leave behind

simple beginnings and lessons,

she wanted to replant

in the middle of clouds

– a desire.


[1] Lúcia Leão é tradutora e escritora. Tem mestrado em literatura brasileira pela UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e mestrado em jornalismo pela Universidade de Miami (Flórida, EUA).

Nova edição da Revista Literausten

Para o presente número da Revista LiterAusten  apresentamos um poema em homenagem a Jane Austen, escrito por Lúcia Leão, e, em seguida, um artigo traduzido pelas alunas do Ensino Médio do CEFET-MG – Campus Timóteo, sob orientação de Adriana Sales Zardini e Marcelle Santos Vieira Salles. Também apresentamos a tradução de um artigo muito interessante a respeito do relacionamento entre Tom Lefroy e Jane Austen, escrito, em inglês, pela Joan Ray (JASNA).  Além dos dois artigos traduzidos, apresentamos também o artigo de Larissa França, que traz uma análise sobre a descrição dos personagens Austen em duas: Orgulho e Preconceito e Persuasão. A partir desta edição, serão publicados artigos, ensaios e demais trabalhos sobre escrita de autoria feminina e todo o universo de pesquisas que retratem essa temática.

Vejam os títulos das publicações desta edição:

JANE’S HAPPY ENDINGS (Lúcia Leão)

JANE AUSTEN, HANNAH MORE E O DRAMA DA EDUCAÇÃO  (Jane Baron Nardin, Vitória Martins de Souza e Maria Clara Coura)

O ROMANCE UNILATERAL DE JANE AUSTEN E TOM LEFROY (Joan Klingel Ray e Adriana Sales Zardini)

A [IN]DESCRIÇÃO DE JANE AUSTEN (Larissa Pereira de França)

O HORROR OCULTO NOS ROMANCES DE AMOR DE JANE AUSTEN

Mikaella Clements[1]

Tradução: Jane Andrade (JASBRA)

Existe uma lenda urbana, que persegue os Departamentos de Inglês pelo mundo, que versa sobre Charlotte Brönte condenando Jane Austen. Segundo a lenda, ela teria dito, “Jane Austen retrata um belíssimo jardim. Saia pelo portão e nós lhe mostraremos o mundo.”

Apesar da história não ser totalmente verdadeira, ela é baseada nos comentários feitos por Charlote Brönte em uma carta ao crítico literário G.H.Lewes. Ainda assim, os comentários de Charllote são indelicados, mas não tão impactantes. Na verdade, ela escreve que “os jardins de Austen são cuidadosamente cercados e muito bem cultivados”, em oposição ao “campo aberto…. ar fresco”, pelos quais a própria Brönte anseia. De qualquer maneira, para os críticos de Austen, a censura de Brönte parece conter algumas pitadas de verdade. A fama de Austen e seu sucesso junto aos seus pares não impediu que ela, ainda assim, fosse vista por muitos como uma escritora afetada, conservadora, interessada apenas em salas de estar e gafes sociais. Todavia, coisas ruins acontecem nos romances de Austen, e as ameaças são muito reais – Lydia titubeando perigosamente, à beira da ruína, Marianne negligente com sua própria reputação – mas elas não são, na superfície, ou para os desavisados, sombrias. O humor habilidoso de Austen, seus diálogos incisivos que nos permitem rir de todos os personagens e, acima de tudo o seu amor permanente pelos finais felizes, de certa maneira, fazem com que não seja necessário para nós, leitores, nos preocuparmos demais com o mundo além do portão.

Mas será que isso significa que não há nada a que temer nos jardins maravilhosamente cultivados, ou nas luxuosas propriedades rurais, retratados por Austen? Eu me pergunto sobre os quartos naquela casa e tudo que fica escondido atrás de suas portas fechadas, as sombras que os personagens de Austen projetam. Uma inquietação subterrânea cintila e some em uma existência tremeluzente e incerta, que está presente na charmosa e descomplicada felicidade de Emma e no frescor do adorado Orgulho e Preconceito. No âmago das críticas sociais otimistas de Austen, existe um centro de medo, arrepiante e ameaçador, profundamente enraizado, que antecipa os modernos gêneros de terror e seus temas. Não é necessário pisar fora do portão; o grito vem de dentro da casa.

Notícias recentes de que logo haverá uma nova adaptação de Orgulho e Preconceito provocaram resmungos e gozações sutis, que podemos facilmente resumir como: mais uma? Mas os produtores da nova série, já conhecidos pelo seriado Poldark daBBC, um drama inquietante sobre um soldado britânico que retorna para casa depois de lutar na Guerra de Independência dos Estados Unidos, anunciaram que esta será uma adaptação “mais sombria”, com o objetivo de trazer à tona a “inteligência sombria de Austen – brilhante sim, mas cintilante como o granito.”

E há muito em Orgulho e Preconceito para discutir. Para mim, sempre foi um romance sobre dinheiro e poder tanto quanto sobre amor; talvez o mais certo seja dizer que Orgulho e Preconceito é um romance sobre desejo. Não é coincidência o fato de que o termo que Mr. Darcy mais usa ao se referir a Elizabeth Bennett não seja “amor” mas sim “perigo”; há um sentimento de medo presente ali, medo das consequências desastrosas que o desejo, especialmente o desejo impróprio, pode trazer – e na verdade traz, quando Lydia e Mr. Wickham fogem juntos.

Também não é coincidência que a obra Orgulho e Preconceito, com a conveniente adição do termo “e Zumbis”, tenha iniciado a mania de modernização dos clássicos com temáticas de terror mais explícitas. Ao falar ao New York Times em 2009, o Professor Brad Pasanek disse: “Os personagens… estão frequentemente rodeados por pessoas que não são totalmente humanas, são como máquinas que repetem as mesmas coisas indefinidamente. Todos aqueles personagens se embaralham, entrando e saindo das cenas, sempre frustrando os protagonistas. A paisagem lotada de pessoas é, no entanto, estranha e ameaçadora. O que há de errado com aquelas pessoas?  Elas não dançam bem, apenas se movem em movimentos desajeitados. Oh, eles estão vindo para cá!” É engraçado imaginar Elizabeth Bennet lutando contra zumbis, mas como Pasanek, eu não acho que seja necessário procurar em versões atualizadas para encontrar as linhas do horror presentes no trabalho de Austen.

Há outro tipo de monstro se escondendo na alegre, quase frívola obra Emma – que inspirou o filme “As Patricinhas de Beverly Hills”- a história de uma jovem perfeitamente elegível para casar-se que, no entanto, se delicia em formar novos casais, enquanto ela própria permanece em casa com seu pai dependente. Seu pai,  Mr. Woodhouse, é tratado por ela e pelos outros personagens como se fosse meramente um estressado adorável, alguém que precisa ser constantemente guiado e cuidado, sempre tratado pela jovem com amor e respeito inquestionáveis. É relativamente fácil seguir a linha cômica e afetuosa do personagem, mas, se você se permitir, por um momento, abstrair-se dessa cumplicidade, Mr. Woodhouse se tornará subitamente grotesco.

Em incontáveis momentos ao longo do romance, Mr. Woodhouse constrói sua presença opressiva e claustrofóbica, aprisionando primeiramente Emma, a seguir, Mr. Knightley e, eventualmente, o leitor, dentro de sua casa cuidadosamente monitorada. “O que faz meu querido pai ser tão adorado por todos é seu coração afetuoso”, reflete Emma, mas Mr. Woodhouse não parece nada mais do que uma armadilha amorosa assexuada. Apesar de não ter poderes sobrenaturais, de todo modo existem nele características vampirescas, já que Mr. Woodhouse “gosta de todos os corpos com que se acostuma, mas detesta separar-se deles.” Ele tem uma necessidade pegajosa e parasitária de manter as pessoas por perto. Ele é aquela coisa feia no canto, sugando a energia das pessoas só para se manter aquecido.

Temos aqui um vilão que sempre vai conseguir o que quer, o romance sugere isso, porque, na realidade, ninguém se dispõe a reconhecê-lo como tal.”

Ao longo de todo o romance, Mr. Woodhouse se irrita com praticamente tudo: festas de casamento, casamento, comida, janelas abertas, chuva, neve, ventanias, poças, crianças, cavalos, cocheiros, carruagens, pousadas, muitas visitas, poucas visitas, andar muito, andar pouco. Essa lista é apenas parcial. O que começa como um capricho engraçado, se torna algo sufocante; Mr. Woodhouse não permite que seus hóspedes comam tudo que escolhem, deseja desesperadamente forçar para que todos comam mingau como prato principal, e, até mesmo quando Emma, ao deixar seus convidados sozinhos com seu pai, ‘providencia um farto  jantar…ela desejou saber se eles puderam comê-lo.” Sua necessidade de amor e afeto é patológica, mas ele deixa seus convidados e ele mesmo, à mingua. No final de uma releitura recente de Emma, eu só conseguia murmurar “Eu te odeio,” sempre que ele aparecia, com nojo, como se tivesse me deparado com alguma coisa apodrecendo.

Pior de tudo, não há como escapar de Mr. Woodhouse: para terem direito a um final feliz, Emma e Mr. Knightley são obrigados a concordar em morar com ele em Hartfield. Fica até difícil imaginar Mr. Knightely, tão resoluto, tranquilo e confiante curvando-se aos ditames de Mr. Woodhouse; mas Emma, tão alegre e voluntariosa, já está totalmente dominada por ele. Temos aqui um vilão que sempre vai conseguir o que quer, o romance sugere isso, porque, na realidade, ninguém se dispõe a reconhecê-lo como tal.

Fanny Price, a menosprezada heroína de Mansfield Park, parece, em contraste, cercada de vilões por todos os lados. Criada com desprezo como a parente pobre da família rica, humilhada e abusada, Fanny triunfa, eventualmente, por pura obra do acaso, quando os personagens ao seu redor começam lentamente a compreender o valor da sua mansidão e de sua serena bondade cristã. Ela é um personagem difícil de amar; não é inteligente como Elizabeth nem tampouco divertida como Emma. Durante um longo tempo, eu li Fanny como um exercício de paciência, um testemunho de firmeza de propósito. Mas Austen já havia escrito um personagem que é calmo e paciente e bom e ainda assim muito amado: Elinor Dashwood de Razão e Sensibilidade, que é passiva, mas firme, decente mas segura de seu próprio coração. Pelo que sei, não existem grandes campanhas anti-Elinor. Mas os leitores odeiam Fanny: sua submissão, sua passividade. Durante muitos anos eu a desculpei, apesar do sentimento inquietante que tomava conta de mim toda vez que eu relia o romance. Mas, na verdade – porque odiamos Fanny Price? O que há de errado com ela?

“O horror de Jane Austen é de ambiguidade inquietante e desconforto permanente.”

Mansfield Park é um romance mais sombrio, mais preocupante do que o restante da obra de Austen – Pam Perkins, crítica literária, o descreveu como o “patinho feio” de Austen. O romance poderia muito facilmente ser confundido com uma obra Gótica; uma heroína inocente, cercada por poderosos marcadores do patriarcado, com perigosas forças sociais pesando sobre ela. Mas Austen não se interessa particularmente pela estética gótica. Northanger Abbey, sua sátira gótica afetuosa, mostra que ela se diverte muito com a estrutura e temas do gênero para levá-lo muito a sério. Na obra de Austen, os quartos e vilões ameaçadores da ficção gótica são melodramáticos demais para serem verdadeiramente assustadores.

Quando a própria Jane Austen se propõe a ser assustadora, ela o faz de uma maneira bem diferente. O horror presente em sua obra é de ambiguidade inquietante e desconforto permanente, como acontece no caso de Mr. Woodhouse, que não é tão malvado assim, até que o sentimento de horror e aversão, que ele desperta como ninguém, se repete, até tornar-se insuportável. Mais do que qualquer outro romancista do século XVIII, Austen tinha um olhar para as micro agressões: seus romances detectam ansiedades que se manifestam constantemente até que um aborrecimento superficial se torna repugnância e então, por fim, medo.

A mansidão de Fanny Price tem o seu próprio núcleo de pavor. Cercada por estruturas de violência e poder patriarcais, Fanny Price consegue vencer sem se esforçar, sem tentar fazer ninguém mudar de ideia. Ela vence por meio do sofrimento; apenas suporta as regras frias e o sistema abusivo do jogo que os Bertrams jogam. Ela permite que eles a tratem terrivelmente até que ela tenha sido testada o suficiente para merecer Edmund. Ela se submete totalmente, jogando de acordo com as regras impostas. Mas isso não significa que ela não esteja jogando.

O pior de tudo é que Fanny teve oportunidade de sair. Henry Crawford é um dos homens mais ambíguos criados por Austen, ele não tem o coração sincero dos heróis da escritora, mas não é um libertino deliberadamente cruel como Wickham. Porém, quando ele persegue Fanny, oferecendo-lhe um gosto pelo mundo exterior, de forma invasiva, ela o bane. O seu final feliz – expresso pelo seu casamento com Edmund Bertram – acontece quando ela aceita as mesmas estruturas de poder que a aprisionaram.

Maria Bertram, passeando por onde deveria ser um jardim aprazível, compreende o quanto está prisioneira: “Sim, com certeza, o sol brilha e o parque parece muito alegre. Mas, infelizmente, aquele portão de ferro me dá uma sensação de prisão e sofrimento. ‘Eu não posso sair’, como dissera o pássaro… Mr. Rushworth está demorando demais para buscar essa chave!”

Eu não posso sair. Mas Fanny Price não quer sair. Quando os portões do romance se fecham, ela está presa lá dentro, e nós também.


[1] Mikaella Clements, escritora australiana, atualmente radicada em Berlim. Ela publicou no BuzzFeed, The Lifted Brow, Catapult, e Overland Literary Journal, dentre outros. Você pode encontrá-la no Twitter @mikclements.

CONTRIBUIÇÕES DO FANDOM DIGITAL DE JANE AUSTEN PARA A CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO ACERCA DA ESCRITORA

Já está disponível para download e leitura o artigo que escrevi para o 2o Simpósio Internacional Subjetividade e Cultura Digital sobre o fandom digital de Jane Austen aqui no Brasil. O meu artigo começa na página 416 do arquivo. Esse artigo faz parte da minha pesquisa do doutorado em estudos linguísticos na UFMG, vocês podem acessar a tese aqui.

Jane Austen para crianças

Esse ano promete! Vários lançamentos de livros, incluindo livros para crianças! A previsão de lançamento dos títulos abaixo começa em julho de 2020, na Amazon.br

Vejam que fofura esses livros adaptados para crianças por Gemma Barder (com áudio books):

E essa coleção de livros para colorir Awesomely Austen:

Fico cá pensando…. ai meu rico dinheirinho!! E vocês? O que acharam?

12 anos de Jane Austen Brasil

Comemorando 12 anos que comecei a escrever sobre #janeaustenbrasil em português! Jamais pude imaginar o quão longe essa iniciativa iria me levar! Em 2008, 23 de fevereiro, comecei a escrever aqui nesse blog! Obrigada à todos pelo carinho e por tantas discussões preciosas! Feliz carnaval! #janeausten #janeaustensociedadedobrasil #jasbra #janeaustensocietyofbrazil

Rational Creatures – websérie baseada em Persuasão de Jane Austen

A Moira Bianchi acabou de publicar suas impressões sobre a Websérie Rational Creatures, inspirada em Persuasão de Jane Austen! É um post bem completo e com spoilers! Thank you so much Moira!

Para quem desejar conhecer o projeto antes de ler as impressões da Moira, segue abaixo os links:

Youtube – #rationalcreatures

Twitter – https://twitter.com/rationalseries

Instagram –  https://www.instagram.com/rationalseries/

Visite a casa museu de Jane Austen com áudio em espanhol

Obrigada pela dica Cláudia Cristino! Para quem ainda não visitou o chalé onde Austen viveu seus últimos dias de vida, antes de ir para Winchester para se tratar da doença. Vejam que belezura!

Emma: adaptação de clássico de Jane Austen ganha novo trailer e pôsteres

Vejam que lindeza! Estreia aqui no Brasil dia 23 de abril!

Vejam o trailler:

Bate-volta de Londres a Winchester, antiga capital real da Inglaterra

O artigo publicado pelo Jornal Estadão vale à pena ser lido, principalmente, por aqueles que desejam conhecer um pouco mais sobre a cidade onde Austen viveu seus últimos dias de vida.

“.. Enquanto nossa turnê atravessava a extremidade leste e depois voltava para a porta principal oeste, ouvimos mais duas histórias. Primeiro, a da romancista Jane AustenEla morreu em 1817 em Winchester durante o tratamento médico que fez em sua casa, nas proximidades de Chawton. Seu túmulo é marcado por uma tábua de ardósia preta que fala da “benevolência de seu coração, da doçura de seu temperamento e das extraordinárias doações de sua mente”. Mas logo após sua morte, notou-se que nem uma das palavras se referia às suas realizações literárias. Uma placa de latão foi adicionada em 1872, uma “framboesa gigante” para aqueles que omitiram essas palavras do tributo na ardósia preta, disse Weeks. Em 1900, um vitral foi instalado acima dos dois marcadores.”