O HORROR OCULTO NOS ROMANCES DE AMOR DE JANE AUSTEN

Mikaella Clements[1]

Tradução: Jane Andrade (JASBRA)

Existe uma lenda urbana, que persegue os Departamentos de Inglês pelo mundo, que versa sobre Charlotte Brönte condenando Jane Austen. Segundo a lenda, ela teria dito, “Jane Austen retrata um belíssimo jardim. Saia pelo portão e nós lhe mostraremos o mundo.”

Apesar da história não ser totalmente verdadeira, ela é baseada nos comentários feitos por Charlote Brönte em uma carta ao crítico literário G.H.Lewes. Ainda assim, os comentários de Charllote são indelicados, mas não tão impactantes. Na verdade, ela escreve que “os jardins de Austen são cuidadosamente cercados e muito bem cultivados”, em oposição ao “campo aberto…. ar fresco”, pelos quais a própria Brönte anseia. De qualquer maneira, para os críticos de Austen, a censura de Brönte parece conter algumas pitadas de verdade. A fama de Austen e seu sucesso junto aos seus pares não impediu que ela, ainda assim, fosse vista por muitos como uma escritora afetada, conservadora, interessada apenas em salas de estar e gafes sociais. Todavia, coisas ruins acontecem nos romances de Austen, e as ameaças são muito reais – Lydia titubeando perigosamente, à beira da ruína, Marianne negligente com sua própria reputação – mas elas não são, na superfície, ou para os desavisados, sombrias. O humor habilidoso de Austen, seus diálogos incisivos que nos permitem rir de todos os personagens e, acima de tudo o seu amor permanente pelos finais felizes, de certa maneira, fazem com que não seja necessário para nós, leitores, nos preocuparmos demais com o mundo além do portão.

Mas será que isso significa que não há nada a que temer nos jardins maravilhosamente cultivados, ou nas luxuosas propriedades rurais, retratados por Austen? Eu me pergunto sobre os quartos naquela casa e tudo que fica escondido atrás de suas portas fechadas, as sombras que os personagens de Austen projetam. Uma inquietação subterrânea cintila e some em uma existência tremeluzente e incerta, que está presente na charmosa e descomplicada felicidade de Emma e no frescor do adorado Orgulho e Preconceito. No âmago das críticas sociais otimistas de Austen, existe um centro de medo, arrepiante e ameaçador, profundamente enraizado, que antecipa os modernos gêneros de terror e seus temas. Não é necessário pisar fora do portão; o grito vem de dentro da casa.

Notícias recentes de que logo haverá uma nova adaptação de Orgulho e Preconceito provocaram resmungos e gozações sutis, que podemos facilmente resumir como: mais uma? Mas os produtores da nova série, já conhecidos pelo seriado Poldark daBBC, um drama inquietante sobre um soldado britânico que retorna para casa depois de lutar na Guerra de Independência dos Estados Unidos, anunciaram que esta será uma adaptação “mais sombria”, com o objetivo de trazer à tona a “inteligência sombria de Austen – brilhante sim, mas cintilante como o granito.”

E há muito em Orgulho e Preconceito para discutir. Para mim, sempre foi um romance sobre dinheiro e poder tanto quanto sobre amor; talvez o mais certo seja dizer que Orgulho e Preconceito é um romance sobre desejo. Não é coincidência o fato de que o termo que Mr. Darcy mais usa ao se referir a Elizabeth Bennett não seja “amor” mas sim “perigo”; há um sentimento de medo presente ali, medo das consequências desastrosas que o desejo, especialmente o desejo impróprio, pode trazer – e na verdade traz, quando Lydia e Mr. Wickham fogem juntos.

Também não é coincidência que a obra Orgulho e Preconceito, com a conveniente adição do termo “e Zumbis”, tenha iniciado a mania de modernização dos clássicos com temáticas de terror mais explícitas. Ao falar ao New York Times em 2009, o Professor Brad Pasanek disse: “Os personagens… estão frequentemente rodeados por pessoas que não são totalmente humanas, são como máquinas que repetem as mesmas coisas indefinidamente. Todos aqueles personagens se embaralham, entrando e saindo das cenas, sempre frustrando os protagonistas. A paisagem lotada de pessoas é, no entanto, estranha e ameaçadora. O que há de errado com aquelas pessoas?  Elas não dançam bem, apenas se movem em movimentos desajeitados. Oh, eles estão vindo para cá!” É engraçado imaginar Elizabeth Bennet lutando contra zumbis, mas como Pasanek, eu não acho que seja necessário procurar em versões atualizadas para encontrar as linhas do horror presentes no trabalho de Austen.

Há outro tipo de monstro se escondendo na alegre, quase frívola obra Emma – que inspirou o filme “As Patricinhas de Beverly Hills”- a história de uma jovem perfeitamente elegível para casar-se que, no entanto, se delicia em formar novos casais, enquanto ela própria permanece em casa com seu pai dependente. Seu pai,  Mr. Woodhouse, é tratado por ela e pelos outros personagens como se fosse meramente um estressado adorável, alguém que precisa ser constantemente guiado e cuidado, sempre tratado pela jovem com amor e respeito inquestionáveis. É relativamente fácil seguir a linha cômica e afetuosa do personagem, mas, se você se permitir, por um momento, abstrair-se dessa cumplicidade, Mr. Woodhouse se tornará subitamente grotesco.

Em incontáveis momentos ao longo do romance, Mr. Woodhouse constrói sua presença opressiva e claustrofóbica, aprisionando primeiramente Emma, a seguir, Mr. Knightley e, eventualmente, o leitor, dentro de sua casa cuidadosamente monitorada. “O que faz meu querido pai ser tão adorado por todos é seu coração afetuoso”, reflete Emma, mas Mr. Woodhouse não parece nada mais do que uma armadilha amorosa assexuada. Apesar de não ter poderes sobrenaturais, de todo modo existem nele características vampirescas, já que Mr. Woodhouse “gosta de todos os corpos com que se acostuma, mas detesta separar-se deles.” Ele tem uma necessidade pegajosa e parasitária de manter as pessoas por perto. Ele é aquela coisa feia no canto, sugando a energia das pessoas só para se manter aquecido.

Temos aqui um vilão que sempre vai conseguir o que quer, o romance sugere isso, porque, na realidade, ninguém se dispõe a reconhecê-lo como tal.”

Ao longo de todo o romance, Mr. Woodhouse se irrita com praticamente tudo: festas de casamento, casamento, comida, janelas abertas, chuva, neve, ventanias, poças, crianças, cavalos, cocheiros, carruagens, pousadas, muitas visitas, poucas visitas, andar muito, andar pouco. Essa lista é apenas parcial. O que começa como um capricho engraçado, se torna algo sufocante; Mr. Woodhouse não permite que seus hóspedes comam tudo que escolhem, deseja desesperadamente forçar para que todos comam mingau como prato principal, e, até mesmo quando Emma, ao deixar seus convidados sozinhos com seu pai, ‘providencia um farto  jantar…ela desejou saber se eles puderam comê-lo.” Sua necessidade de amor e afeto é patológica, mas ele deixa seus convidados e ele mesmo, à mingua. No final de uma releitura recente de Emma, eu só conseguia murmurar “Eu te odeio,” sempre que ele aparecia, com nojo, como se tivesse me deparado com alguma coisa apodrecendo.

Pior de tudo, não há como escapar de Mr. Woodhouse: para terem direito a um final feliz, Emma e Mr. Knightley são obrigados a concordar em morar com ele em Hartfield. Fica até difícil imaginar Mr. Knightely, tão resoluto, tranquilo e confiante curvando-se aos ditames de Mr. Woodhouse; mas Emma, tão alegre e voluntariosa, já está totalmente dominada por ele. Temos aqui um vilão que sempre vai conseguir o que quer, o romance sugere isso, porque, na realidade, ninguém se dispõe a reconhecê-lo como tal.

Fanny Price, a menosprezada heroína de Mansfield Park, parece, em contraste, cercada de vilões por todos os lados. Criada com desprezo como a parente pobre da família rica, humilhada e abusada, Fanny triunfa, eventualmente, por pura obra do acaso, quando os personagens ao seu redor começam lentamente a compreender o valor da sua mansidão e de sua serena bondade cristã. Ela é um personagem difícil de amar; não é inteligente como Elizabeth nem tampouco divertida como Emma. Durante um longo tempo, eu li Fanny como um exercício de paciência, um testemunho de firmeza de propósito. Mas Austen já havia escrito um personagem que é calmo e paciente e bom e ainda assim muito amado: Elinor Dashwood de Razão e Sensibilidade, que é passiva, mas firme, decente mas segura de seu próprio coração. Pelo que sei, não existem grandes campanhas anti-Elinor. Mas os leitores odeiam Fanny: sua submissão, sua passividade. Durante muitos anos eu a desculpei, apesar do sentimento inquietante que tomava conta de mim toda vez que eu relia o romance. Mas, na verdade – porque odiamos Fanny Price? O que há de errado com ela?

“O horror de Jane Austen é de ambiguidade inquietante e desconforto permanente.”

Mansfield Park é um romance mais sombrio, mais preocupante do que o restante da obra de Austen – Pam Perkins, crítica literária, o descreveu como o “patinho feio” de Austen. O romance poderia muito facilmente ser confundido com uma obra Gótica; uma heroína inocente, cercada por poderosos marcadores do patriarcado, com perigosas forças sociais pesando sobre ela. Mas Austen não se interessa particularmente pela estética gótica. Northanger Abbey, sua sátira gótica afetuosa, mostra que ela se diverte muito com a estrutura e temas do gênero para levá-lo muito a sério. Na obra de Austen, os quartos e vilões ameaçadores da ficção gótica são melodramáticos demais para serem verdadeiramente assustadores.

Quando a própria Jane Austen se propõe a ser assustadora, ela o faz de uma maneira bem diferente. O horror presente em sua obra é de ambiguidade inquietante e desconforto permanente, como acontece no caso de Mr. Woodhouse, que não é tão malvado assim, até que o sentimento de horror e aversão, que ele desperta como ninguém, se repete, até tornar-se insuportável. Mais do que qualquer outro romancista do século XVIII, Austen tinha um olhar para as micro agressões: seus romances detectam ansiedades que se manifestam constantemente até que um aborrecimento superficial se torna repugnância e então, por fim, medo.

A mansidão de Fanny Price tem o seu próprio núcleo de pavor. Cercada por estruturas de violência e poder patriarcais, Fanny Price consegue vencer sem se esforçar, sem tentar fazer ninguém mudar de ideia. Ela vence por meio do sofrimento; apenas suporta as regras frias e o sistema abusivo do jogo que os Bertrams jogam. Ela permite que eles a tratem terrivelmente até que ela tenha sido testada o suficiente para merecer Edmund. Ela se submete totalmente, jogando de acordo com as regras impostas. Mas isso não significa que ela não esteja jogando.

O pior de tudo é que Fanny teve oportunidade de sair. Henry Crawford é um dos homens mais ambíguos criados por Austen, ele não tem o coração sincero dos heróis da escritora, mas não é um libertino deliberadamente cruel como Wickham. Porém, quando ele persegue Fanny, oferecendo-lhe um gosto pelo mundo exterior, de forma invasiva, ela o bane. O seu final feliz – expresso pelo seu casamento com Edmund Bertram – acontece quando ela aceita as mesmas estruturas de poder que a aprisionaram.

Maria Bertram, passeando por onde deveria ser um jardim aprazível, compreende o quanto está prisioneira: “Sim, com certeza, o sol brilha e o parque parece muito alegre. Mas, infelizmente, aquele portão de ferro me dá uma sensação de prisão e sofrimento. ‘Eu não posso sair’, como dissera o pássaro… Mr. Rushworth está demorando demais para buscar essa chave!”

Eu não posso sair. Mas Fanny Price não quer sair. Quando os portões do romance se fecham, ela está presa lá dentro, e nós também.


[1] Mikaella Clements, escritora australiana, atualmente radicada em Berlim. Ela publicou no BuzzFeed, The Lifted Brow, Catapult, e Overland Literary Journal, dentre outros. Você pode encontrá-la no Twitter @mikclements.

Jane Austen e Zumbis? Oh… de novo não!

Como o próprio grupo afirma: “já que é inevitável a presença dos zumbis, pelo menos que seja de maneira divertida”.Com vocês ‘Improvised Jane Austen‘, visite a página do grupo no facebook.

Sorteio de um Kit de livros da Editora Intrínseca

A Editora Intrínseca firmou parceria com a JASBRA e iremos sortear um kit de livros contendo: Orgulho e Preconceito e Zumbis e Razão e Sensibilidade e os Monstros Marinhos. Todos poderão participar e terão até o dia 31 de maio para deixarem um comentário com: número, nome e e-mail neste post.
Orgulho e Preconceito e Zumbis
Autor: Seth Grahame-Smith
Tradução: Luiz Antônio Aguiar

“É uma verdade universalmente aceita que um zumbi, uma vez de posse de um cérebro, necessita de mais cérebros.” Assim começa essa paródia que se tornou um best-seller do The New York Times. No romance clássico, Jane Austen iniciava a saga das casadouras irmãs Bennet com o aviso: “É uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro, possuidor de uma grande fortuna, deve estar em busca de uma esposa.”
Agora, porém, no tranquilo vilarejo de Meryton, nossa heroína, a guerreira Elizabeth Bennet, treinada nos rigores das artes marciais, está determinada a eliminar a ameaça zumbi. Até que sua atenção seja desviada pela chegada do altivo e arrogante Sr. Darcy. Ela conseguirá superar os preconceitos sociais dos grandes aristocratas ingleses, tão ciosos e orgulhosos de seus privilégios?
Grahame-Smith transfigura as famosas passagens do texto de Jane Austen em uma deliciosa comédia de costumes. Além dos embates civilizados e repletos de cortesia entre o casal de protagonistas, inclui batalhas violentas, em confrontos cheios de sangue e ossos quebrados. Conjugando amor, emoção e lutas de espada com canibalismo e milhares de cadáveres em decomposição, Orgulho e preconceito e zumbis transforma uma obra-prima da literatura mundial em outra história que você realmente terá vontade de ler.
Razão e Sensibilidade e os Monstros Marinhos
Autor: Ben H. Winters
Tradução: Maria Luzia Borges

Sinopse:

Composto de 60% da obra de Jane Austen e 40% do humor e da aventura de Ben H. Winters, Razão e Sensibilidade e Monstros Marinhos funde o magistral retrato da Inglaterra da Regência – e seu provocante comentário social – às descrições ultraviolentas do embate entre humanos e bestas marinhas. Preservando a estrutura do romance original, inclusive muitas de suas linhas mais famosas, Winter introduz à trama o fenômeno da “Alteração”, responsável pela revolta dos animais marinhos contra as criaturas da terra.
Nesta obra, as irmãs Dashwood são expulsas do lar em que passaram a infância e enviadas para viver na Ilha Pestilenta, local repleto de criaturas selvagens e segredos obscuros. Enquanto a sensata Elinor se apaixona por Edward Ferrars, sua romântica irmã Marianne é cortejada por dois pretendentes ao mesmo tempo: o vistoso Willoughby e o medonho coronel Brandon, parte homem, parte polvo.
Conseguirão as irmãs Dashwood triunfar sobre matriarcas intrometidas e patifes inescrupulosos e encontrar o verdadeiro amor? Ou se tornarão vítimas dos tentáculos que estão sempre a lhes agarrar os calcanhares?
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Para participar do sorteio basta deixar o nome completo e endereço de e-mail aqui neste post! Boa sorte! O resultado será divulgado no dia 1o de Junho.

Overdose de Zumbis

Vocês não acham que esta fase de zumbis está demorando para passar? Rencetemente eu descobri este vídeo sobre Orgulho e Preconceito e Zumbis. Obviamente e a editora responsável pela publicação dos livros escritos por Seth Grahame-Smith fazem o que podem para divulgarem os livros e aumentarem as vendas.
Além disso, lançaram também uma Revista em Quadrinhos (HQ), confiram abaixo três páginas (Site Omelete):

Zumbis e Vídeo Games

Um outro lançamento relacionamento ao mundo dos zumbis trata-se de um jogo para vídeo games baseado no livro de Seth Grahame-Smith: Orgulho e Preconceito e Zumbis.

Veja algumas imagens abaixo:

Orgulho e Preconceito e Zumbis

Olá pessoal, primeiramente eu gostaria de pedir desculpas à todos pelo meu sumiço. Além da correria do dia-a-dia eu tive uma intoxicação alimentar e fiquei de ‘molho’ por alguns dias.
Vou tentar atualizar o blog, à medida que eu puder me conectar à internet, ok?
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Uma novidade no mercado brasileiro é o lançamento de Orgulho e Preconceito e Zumbis, já divulgado aqui no blog, porém inteiramente em português, lançado pela Editora Intrínseca. Lançamento previsto para 22/03/2010. Fonte: Livraria Martins Fontes
Sinopse Completa

No romance clássico, a autora iniciava a saga das casadouras irmãs Bennet com o aviso: “É uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro, possuidor de uma grande fortuna, deve estar em busca de uma esposa”. Agora, porém, no tranquilo vilarejo de Meryton, nossa heroína, a guerreira Elizabeth Bennet, treinada nos rigores das artes marciais, está determinada a eliminar a ameaça zumbi. Até que sua atenção seja desviada pela chegada do altivo e arrogante Sr. Darcy. Ela conseguirá superar os preconceitos sociais dos grandes aristocratas ingleses, tão ciosos e orgulhosos de seus privilégios? Grahame-Smith transfigura as famosas passagens do texto de Jane Austen numa deliciosa comédia de costumes. Além dos embates civilizados e repletos de cortesia entre o casal de protagonistas, inclui batalhas violentas, em confrontos cheios de sangue e ossos quebrados. Conjugando amor, emoção e lutas de espada com canibalismo e milhares de cadáveres em decomposição, ‘Orgulho e preconceito e zumbis’ transforma uma obra-prima da literatura mundial em outra história.
Dados técnicos:
Editora: INTRINSECA
Edição: 1ª EDIÇÃO – 2010
Numero de páginas: 320
Preço: 29,90
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Para quem assina o The Biography Channel, fique atento(a), será exibido um programa sobre Jane Austen! O canal está fazendo uma programação especial no mês de março em homenagem ao dia internacional da mulher e nossa amada escritora está incluída. Veja abaixo a programação:
Dia 19/03 – 16:00 e 20:00
Dia 20/03 – 04:00
 
 
Sinopse: Ela foi uma mulher que levou uma vida normal como a de muitas outras pessoas de sua época: com momentos felizes, momentos tristes e momentos de paixão. No entanto, nunca se imaginou que suas obras se destacariam a tal ponto, que serviriam de inspiração para milhares de pessoas ao redor do mundo. Nunca se imaginou que com suas histórias de amor, ela tocaria o coração de uns e encheria de esperança o coração de outros.

Vídeos disponíveis no site internacional do canal, clique aqui.
 
 

A Batalha por Jane Austen

Laura Miller, colunista do site de variedades Salon.com, publicou um artigo intitulado The Battle for Jane Austen, onde analisa o fenômeno atual de livros e fan fictions inspirados nos romances da escritora inglesa. Entre zumbis, vampiros e um Darcy gay, Miller tenta reencontrar a verdadeira Jane Austen. Abaixo, segue a tradução do artigo:

A Batalha por Jane Austen

Grande romancista, precursora da chick-lit, vampira. Queira a verdadeira senhorita Austen se levantar, por favor?

“Os romances de Jane Austen/São aqueles em que nos perdemos”, escreveu G.K. Chesterton, e milhões de leitores fizeram exatamente isso. Desde 1995, em particular, quando a adaptação da BBC de Orgulho e Preconceito, estrelada por Colin Firth, conquistou inúmeros corações femininos, Austen e sua (agora) mais famosa criação, Mr. Darcy, tornaram-se o critério de uma certa tendência do desejo feminino contemporâneo. O ano seguinte trouxe O Diário de Bridget Jones, de Helen Fielding, que se inspirou no enredo e no sobrenome do herói de Orgulho e Preconceito, e apenas concretizou a ideia na mente do público: Jane Austen é a avó da chick-lit.

Embora não tenha inventado a comédia romântica (Muito Barulho por Nada de Shakespeare, clara inspiração de Orgulho e Preconceito, pode reivindicar esta honra), Austen, por certo, concebeu e aperfeiçoou o estilo em sua forma moderna. Ninguém nunca superou Orgulho e Preconceito, e não foi por falta de tentativa. No entanto, o empreendimento literário pode explicar a loucura em torno de Austen. Muitos livros ditos “clássicos” podem ser “amados”, mas Austen é canônica nos dois sentidos da palavra ao mesmo tempo. Quem mais entre os grandes romancistas de todos os tempos inspiraram tantas fan fictions? Quais fan fictions de outros autores são amplamente publicadas?

O site The Republic of Pemberley lista cerca de 60 “sequências e continuações” somente de Orgulho e Preconceito. As outras cinco grandes obras de Jane Austen também têm os seus derivados, mas nenhuma como Orgulho e Preconceito. A lista nem sequer inclui Pride and Prejudice and Zombies, um surpreendente bestseller lançado ano passado e o primeiro de uma série sem fim de misturebas de clássicos. Também não inclui a ficção em que a própria Austen é uma personagem, como a série de mistérios de Stephanie Barron, onde a escritora é uma detetive. Ou a recentemente publicada Jane Bites Back, onde Austen é uma vampira que sobrevive até os dias de hoje como uma livreira de meia-idade em Nova York, zangada por ter virado um produto de massa. E há ainda o subgênero chick-lit, que falam de mulheres contemporâneas que tentam se conformar com a escassez de Darcys (Austenland, Me and Mr. Darcy). Podemos amar nos perder nos romances de Jane Austen, mas seria melhor se, a essa altura, eles não tivessem se perdido em nós.



Ler o livro A Truth Universally Acknowledged: 33 Great Writers on Why We Read Jane Austen, apenas aumenta o mistério em torno deste fenômeno. Nos vários ensaios desta coleção, muitos publicados ao longo do século passado, podemos perceber que ser “ligeiramente imbecil por Jane Austen” é uma condição anterior não somente à adaptação de Orgulho e Preconceito da BBC, mas à própria televisão. O romancista E.M. Forster descreveu a si mesmo usando este epíteto em 1936, embora ele provavelmente não tenha ido tão longe a ponto de ir a um lugar onde pessoas podem simular a vida na Inglaterra no período da Regência, como a heroína de Austenland.

A Truth Universally Acknowledged (editado por Susannah Carson) lembra-nos de que antes da paixão em torno de Colin Firth vestindo uma camiseta molhada, Austen era admirada por muitas pessoas – inclusive homens! – que consideravam o mérito literário algo realmente muito sério. Martin Amis, pergunta-se “por que o leitor anseia impotente com tanto fervor pelo casamento de Elizabeth Bennet e Mr. Darcy?” (Bem, talvez Amis devesse perguntar como uma romancista faz para que os leitores se importem pelo destino de seus personagens; ele poderia aprender alguma coisa). Lionel Trilling conta o seu espanto quando 150 estudantes disputaram trinta vagas em um seminário sobre Austen, que ministrou em 1973, e a “histérica urgência moral” com a qual suplicaram para entrar no de C.S. Lewis, que nunca considerou a seriedade incompatível com a boa leitura, apesar de ter escrito em louvor da “dureza” do rigor moral de Austen.


Ao lado desses sóbrios cavalheiros, estão as “Janeites”, as entusiastas, que Henry James acusou de transformarem Jane Austen na “querida Jane de todo mundo”, que certamente se encaixa na caracterização de Jane Austen em Jane Bites Back, de Michael Thomas Ford. Apesar de ser um blockbuster de 200 anos, a Jane de Ford não possui a ironia impiedosa que a verdadeira Austen colocava em seus romances ou nas cartas que escrevia para a sua amada irmã Cassandra. Em vez disso, a atual Jane Austen é totalmente banal e “narrativa”, chegando em casa depois de um dia na loja, se vestindo com seu robe felpudo, portando um livro, uma barra de chocolate e uma taça de merlot. Ela tem até um gato. Quando um pretendente abre a porta para ela, “ela não para de pensar o quão elegante ele é. Um verdadeiro cavalheiro”. É difícil acreditar que com imortalidade e dois séculos de experiência a autora de Emma tenha se reduzido a uma pessoa antiquada e sem vida. Pior, a Jane de Ford trabalha em um romance não publicado; trechos capengas – cheios do tipo de melodrama ofegante que Austen parodiou em A Abadia de Northanger – abrem cada capítulo.

Críticos tem investido contra “a quantidade de adulação acolhedora e familiar”, expressa através de diversos jardins e Janeites bebedoras de chá, desde que Marvin Mudrick publicou Jane Austen: Irony as Defense and Discovery, em 1952. Ironia (a verdadeira, não a de Alanis Morissette) era o estilo predominante em Jane Austen, como Mudrick chamou atenção, e isso não somente fez dela “inumanamente fria e penetrante”, mas também a posicionou contra “todas as ilusões intrínsecas à arte e à sociedade convencionais”. Estes foram os varonis anos 50 falando; nos anos 2000, Austen tornou-se na mentalidade popular, uma saudosa lembrança de todos os prazeres cavalheirescos de uma ordem social perdida – uma sociedade que teria levado a Janeite contemporânea a uma insurreição se tivesse que viver nela.

Como o espelho de Dumbledore, a ficção de Austen parece ter a habilidade de mostrar aquilo que seus leitores querem ver. Austen é a avó da chick-lit, mesmo que esse fato venha aborrecer seus admiradores intelectuais. Mas ela não é apenas isso, e para se convencer de que seus romances falam apenas sobre ser cortejada por homens ricos e bonitos versados em etiquetas de bailes, é preciso ser tão tola e frívola quanto a irmã mais nova de Elizabeth Bennet, Lydia. O que a chick-lit sempre tenta fazer com Austen é subtrair a realidade social e econômica de sua ficção (ignorando as mortificações pelas quais suas heroínas passam), mas há ainda uma outra categoria de Janeite que não quer subtrair nada. Ao contrário, elas preferem adicionar.



O recentemente publicado Pride/Prejudice, de Ann Herendeen pressupõe que antes de Elizabeth e Darcy se unirem cada um tinha um parceiro sexual do mesmo sexo: Elizabeth com Charlotte Lucas e Darcy com Mr. Bingley. Supostamente isso explica o motivo de ambos serem contra os casamentos de seus amigos, mesmo que o romance de Austen proporcione razões perfeitamente adequadas, embora bem menos excitantes. Alguns leitores podem ficar desapontados ao verem os encontros amorosos de Lizzy e Charlotte serem mencionados somente de passagem, enquanto que as brincadeiras no quarto entre Darcy e Bingley e alguns outros amigos (ele faz parte de um clube de cavalheiros em Londres – um clube muito, muito perverso de cavalheiros) são descritos com detalhes consideráveis. O título do livro – “slash” [“barra”] é um termo para a fan fiction que trata de pares românticos masculinos que são ostensivamente heterossexuais no original canônico – diz tudo. Nas primeiras páginas, Bingley sussurra maliciosamente para Darcy: “beije-me de novo, seu bruto”.

Apesar desses lapsos, Herendeen faz um trabalho melhor do que a maioria dos que se aproximam mais do estilo de Austen, sem imitá-la, e quando Darcy e Elizabeth finalmente se casam, ela nos dá a noite de núpcias que tem sido provavelmente a maior entre todas as outras fantasias de uma Janeite. Até mesmo Amis expressou o desejo de “uma cena de sexo de 20 páginas envolvendo os dois protagonistas e, além disso, com Mr. Darcy tendo um desempenho fora do comum.” (Vinte páginas – sério? Você é mais forte do que eu, Mr. Amis.) Devo confessar que nunca senti falta dessa cena, então não posso dizer se a versão de Herendeen corresponde às expectativas, mas isso requer muita conversa.

Para o tipo de fã que escreve Pride/Prejudice ou Darcy & Elizabeth: Nights and Days at Pemberley ou Mr. Darcy’s Diary ou, no que diz respeito ao assunto, Mr. Darcy, Vampyre (há, de fato, duas séries diferentes envolvendo um Darcy morto-vivo) não há Jane Austen o suficiente, e produzir em larga escala sequências e obras auxiliares é a única resposta para o insaciável desejo por mais. Visto que a maioria desses fãs tem dificuldade em identificar os elementos da obra de Austen que não remetem à realização do desejo romântico e ao fantástico requinte, você poderia imaginar que eles ficariam facilmente satisfeitos com imitações, mas não parece ser o caso; nenhum desses livros foi recebido com grande aclamação. Quantas vezes, quando conseguimos aquilo que pensamos que queremos, ficamos profundamente desapontados? Talvez o segredo do carisma de Austen seja esse, como em um flerte concretizado, ela sabe agradar os desejos mais profundos de seus leitores: seus romances não são passionais como as Janeites desejam, mas também sua moralidade não é “fria e penetrante” como os especialistas austeros retratam.



Finalmente, o mais surpreendente e bem sucedido derivado de Jane Austen, Pride and Prejudice and Zombies, constitui uma categoria especial, visto que não é nem uma sequência nem uma tentativa de imaginar o que ocorre fora da ação dos romances canônicos. Em vez disso, é simplesmente Orgulho e Preconceito (texto que já está em domínio público) com a inserção ocasional de cenas de filmes de terror de acampamento. É uma piada divertida. De acordo com as informações de um livreiro conhecido, a maioria das pessoas que compram o livro não tem a intenção de lê-lo, apenas acham a capa engraçada ou querem dar um presente divertido. (Uma informação adicional: Sense and Sensibility and Sea Monsters não está vendendo muito bem, o que confirma a minha teoria).

Não ficaria surpresa, no entanto, se o editor de Pride and Prejudice and Zombies não tivesse inadivertidamente encontrado o único verdadeiro antídoto para a nova reputação de Austen como progenitora da chick-lit e, por essa razão, um gosto estritamente feminino. No universo da cultura pop, zumbis geralmente são coisa de homem – eles existem, em primeiro lugar, para matar indiscriminadamente e sem remorso nos vídeo games. Entretenimento baseado em zumbis torna-se mais facilmente um sucesso instantâneo do que a ficção com qualidade Austen, e os verdadeiros aficionados por zumbis tem muitas, muitas outras opções para escolher quando estão em busca de satisfazer o seu desejo por carnificina e sangue coagulado. Pride and Prejudice and Zombies, em suma, não tem muito a oferecer a ninguém que esteja seriamente interessado em zumbis, porque boa parte do livro continua a consistir nos sofrimentos de amor das irmãs Bennet.

No entanto, você pode ler Pride and Prejudice and Zombies fingindo que está lendo por causa dos zumbis ou das gargalhadas, enquanto secretamente saboreia a sublime comédia romântica de Austen. Ao menos foi assim que eu li – não, quero dizer, sem pretensão nenhuma, mas enquanto prosseguia, via-me gradualmente lendo às pressas as interjeições de horror e combate para poder voltar para a verdadeira história. Como não sou uma Janeite, não tenho planos de reler o romance, então foi como encontrar inesperadamente uma velha amiga esquecida, somente para relembrar o quão encantadora ela é, e para perguntar a mim mesma como pude esquecê-la. A grande vantagem, a arma secreta de Pride and Prejudice and Zombies é que quando você se cansa das decapitações e das artes marciais e do sangue e das tripas, você percebe que ainda é Orgulho e Preconceito. E você sabe que não pode ser ruim.

Mais notícias sobre zumbis

Ilustração de Luc Latulippe
Decididamente escrever e vender livros sobre zumbis e seres ameaçadores é um grande negócio. As últimas novidades no mundo dos zumbis são bastante grandiosas:
O mais recente projeto da empresa Apple para a App Store é um jogo no qual uma heroína de Jane Austen, de vestido rendado, derruba legiões de zumbis com golpes de karatê. Como todos sabem o mercado de jogos rende milhões de dólares. Ótimo investimento para a Apple não?
Outra novidade é que Orgulho e Preconceito e Zumbis não será um filme, mas uma série de seis capítulos.
Imagem cedida pelo Channel 4 da Inglaterra
Encontrei a notícia na página do Twitter PrideandZombies – o que mais me incomoda é uma frase que vejo em muitos lugares: “Pride and Prejudice and Zombies transforms a masterpiece of world literature into something you’d actually want to read”.
Então quer dizer que a obras primas da literatura são tão entendiantes que basta uma pessoa encher de zumbis para que seja algo interessante de se ler?
Mas se já colocaram zumbis na santa ceia, tudo é possível. Veja aqui a decepção que é ver até onde o ser humano pode chegar para tentar se destacar: Jesus Super Zumbi

Orgulho e Preconceito e Zumbis – uma opinião

Depois de publicar aqui no blog sobre o futuro lançamento de Orgulho e Preconceito e Zumbis pela Editora Intrínseca, acho interessante fazer um post sobre uma das muitas avaliações do livro.

Eu ganhei o livro de presente da Leila! Obrigada!
Detalhes das ilustrações

O texto abaixo é da Camila D. do Liquid Dreams of… – que gentilmente nos cedeu sua opinião. Obrigada Camila!

Não sei bem como começou este fenómeno dos remakes no campo da literatura. Talvez seja uma evolução natural do fenómeno das sequelas ou talvez seja uma profissionalização da moda de escrever fanfiction, mas o facto é que me parece que os remakes literários – e vou chamar-lhes assim porque passa a mensagem e me parece que ainda ninguém criou uma nomenclatura melhor – vieram para ficar.

A ideia é clara e simples, e passa um pouco pela fórmula que é usada para a música e o cinema: pegamos numa obra que já existe e damos-lhe uma roupagem diferente, mantendo a estrutura básica para que a obra seja reconhecida e apreciada pelo público conhecedor do original ao mesmo tempo que tenta utilizar as diferenças para captar um novo público.

Parece-me que é quase um dado adquirido que remakear – new word! – uma obra mais conhecida tem uma probabilidade bem maior de atingir um publico mais vasto, ou seja ter um maior número de vendas, do que remakear uma qualquer obra obscura de um autor maldito.


Este fenómeno é de tal forma evidente que muito autores estão já a fazer remakes das próprias obras, usando o truque sempre bom do contar-exactamente-o-mesmo-mas-de-outra-forma-ou-seja-as-mesmas-personagens-nas-mesmas-situações-com-os-mesmos-diálogos-mas-do-ponto-de-vista-de-uma-personagem-diferente. Um dos exemplos mais flagrantes é o caso da Stephanie Meyer (parece que falo sempre no mesmo, mas a culpa não é minha) que prepara uma nova versão de Twilight, mas contando agora a história do primeiro tomo da série do ponto de vista do vampiro.


Tenho uma estranha sensação nestes casos. No fundo, é como se os autores estivessem a fazer fanfiction das suas próprias obras!… (shudder!)

Estes remakes conseguem por vezes fugir um pouco à fórmula anterior, apresentando takes efectivamente diferentes, mudando o enfoque da história e criando situações diferentes; o que pode ter um efeito colateral complicado porque pode levar o autor a recriar as personagens e atribuir-lhes comportamentos e atitudes que os fãs não lhes reconhecem, alienando assim o público do trabalho original.


Cheguei a ver comentários na Amazon neste sentido, onde fãs irados tratavam as personagens como pessoas reais, que eles conheciam detalhadamente, afirmando: “Ela nunca faria isso! Ela nunca diria isso!”. Há, no entanto, algumas obras curiosas que apesar de serem remakes literários conseguem acrescentar dimensões interessantes às histórias originais e isso dá-lhes mérito próprio. Lembro-me do caso de Mary Riley de Valerie Martin que me pareceu bastante interessante. Antes ainda de abordar o livro que me levar a criar este post, resta-me recordar o leitor mais distraído que sou uma assumida fã de Jane Austen e uma coleccionadora edições de Pride and Prejudice: diferentes formatos, diferentes línguas, continuações e remakes.

Tenho-o até em Holandês e Dinamarquês, em BD e em texto dramático; confesso que tenho os “diários” de Mr. Darcy em diversas versões por diferentes autores, a versão digest e o companion da série da BBC de 1995 com fotografias dos locais de filmagem e até uns livros onde o casal Darcy se transforma numa espécie de parelha Poirot . Deuses, até tenho uma coisa verdadeiramente assustadora – sim, mais do que as enumeradas anteriormente – que é uma versão christian novel do romance, muito mais pudica – se é que conseguem imaginar – e passada nos dias de “hoje”.

Assim, quando descobri que iria sair um novo remake, desta vez uma edição virada para o horror, fiquei atentamente à espera que estivesse disponível uma versão softcover para comprar.

Já comprei e já li (dentro do possível). Deixem que vos diga que este trabalho é mau e que o pior é que ele é essencialmente preguiçoso. Seth Grahame-Smith, autor (de apenas algumas linhas), agarrou no texto de Austen, provavelmente downloadando uma versão digital do Project Gutenberg ou qualquer coisa semelhante, fez um copy-paste para dentro de um documento Word e foi colocando umas frases pelo meio, sempre tudo relacionado com zombies e a estranha praga que grassa pelas terras de sua majestade… e voilá!  Está feito um fabuloso “New York Times Best Seller” como diz o sticker na capa da minha edição. De facto, pensado bem, devia ter percebido isso imediatamente no momento em que o nome de Jane Austen é colocado na capa num tom de quase “parceira” do projecto, como se o livro tivesse sido escrito a quatro mãos.

Como é que é possível que tenham deixado publicar uma coisa destas! Chega ao ponto dos acrescentos de Grahame-Smith nem sequer fazerem sentido!  Tentei mesmo dar uma hipótese ao livro (caramba, se eu li a versão em christian novel e esta era mesmo mázinha…) e cheguei a usar duas abordagens diferentes no que toca à sua leitura. Numa primeira linha, tentei ver o livro como um remake de uma história que já conhecia e partir daí: foi terrível, tudo soava tão oco e absurdo (in a bad way) que tive de desistir.

Voltei ao livro algumas leituras depois, abordando o produto como sendo uma coisa absolutamente nova e séria, numa mistura efectiva da vida na época da Regência com zombies, numa espécie de história alternativa. Ainda foi pior. O facto de manter todo o texto original e, ao longo de várias páginas seguidas, alterar apenas algumas palavras e contextos, como limitar-se a transformar os dotes de piano e costura das meninas das várias famílias em treinos de judo com mestres orientais e habilidades com catanas, quebra o texto e a história.  Aposto que, mesmo quem nunca tenha lido nada de Jane Austen, consegue facilmente distinguir a sua prosa da de Grahame-Smith! É mesmo assim tão obvio, garanto!  Ver uma Lizzie a queixar-se que 50 milhas é muito longe tendo em atenção que aos 21 anos já foi duas vezes ao Oriente é um pouco, como direi?… deslocado? pouco consistente?
Não sei quem serão os leitores de uma obra destas: não estou a ver os fãs de livros de zombies com paciência para a linguagem e os enredos de Austen a cru, nem estou a ver os fãs de Austen a ter muita vontade de encontrar o Mr. Darcy a cortar cabeças aos zombies da vizinhança enquanto regressa à sua adorada Pemberley.  O que mais de deixa aborrecida é sentir-me enganada: achei que ia encontrar aqui uma coisa original e engraçada. Talvez a culpa seja minha e seja eu quem não tem o sentido de humor necessário para “perceber” o alcance e a dimensão do livro e da ideia do autor. A ideia é gira, mas era preciso que o autor tivesse tido trabalhado e ter, de facto, criado uma versão alternativa onde os mesmos personagens vivem uma história de amor semelhante, mas com esta dimensão, que é uma dimensão de peso, com implicações maiores do que trocar as aulas de piano por aulas de artes marciais.
Este é, na minha opinião, mais um caso de uma ideia boa com uma execução duvidosa. Podemos juntá-lo ao “30 Days Of Night” sem bem que é quase ofensivo: pelo menos este teve originalidade! O meu veredicto é que o livro é mau. É preguiçoso e um descarado roubo do trabalho de Austen, uma artimanha de baixo nível para ganhar uns trocos em direitos de autor. Gostava de saber quanto é que este “autor” recebeu por este “trabalho” que lhe deve ter demorado, no máximo, umas duas ou três tardes a concluir! Ah! mas entretanto, preparem-se porque há mais gente a achar que este é um bom filão: “The War of the Worlds Plus Blood, Guts and Zombies” de H.G.Wells e Eric S. Brown também anda aí. Pelo título e utilização do nome do autor original, cheira-me que o processo foi o mesmo. PS: e contrariamente ao que andam a dizer, o livro não é uma paródia ao original; é mesmo só um rippoff descarado.

"Orgulho e Preconceito e Zumbis" em português

Texto retirado integralmente da página da Folha Online:

Livro de Jane Austen “Orgulho e Preconceito”, de 1813, é considerado um dos grandes romances da língua inglesa, um exemplo primoroso da utilização literária do discurso indireto que revela os costumes ingleses da época ao narrar a epopéia de moças em busca de amor e casamentos vantajosos. Já “Orgulho e Preconceito e Zumbis” tem como objetivo “transformar este clássico da literatura mundial em algo que você gostaria de ler”.
Sátira modifica pouco do texto original para incluir zumbis no clássico de Jane Austen
A editora Intrínseca anunciou que irá lançar em 2010 essa sátira que mantém cerca de 85% do texto original da autora britânica, modificado apenas o bastante para que a história se passe em meio a uma violenta praga de mortos-vivos pela Inglaterra. O livro chegou a figurar na terceira posição da lista de mais vendidos do NY Times no primeiro semestre deste ano e ficou entre as melhores capas do ano escolhidas pelos leitores da livraria virtual Amazon.
Na história, o Sr. Bennet insistiu que todas as suas filhas fossem treinadas nas artes marciais por monges Shaolin, o que causa certo atrito com a família do Sr. Darcy, que prefere a tradição japonesa de combate às forças do mal. A obra se utiliza do original a todo o momento. Se na história original Lady Catherine esnoba a falta de criados da família de Elizabeth durante o jantar, nesta versão a nobre diz a Elizabeth, retratada como uma espécie de Buffy do século 19, que acha estranha as meninas serem criadas sem um contingente de ninjas para ajudar nas batalhas.
O “co-autor” da obra, junto de Jane Austen, é o norte-americano Seth Grahame-Smith, que já adaptou outro livro da autora para o universo trash, “Razão e Sensibilidade e Monstros Marinhos”, além de “Abraham Lincoln: O Caçador de Vampiros”, obra de humor que diz provar, através de documentos e fotos históricas, que Abraham Lincoln lutou contra vampiros em sua época. A editora Intrínseca afirmou que eles também serão lançados no Brasil, na mesma coleção de “Orgulho e Preconceito e Zumbis”.