O oponente: amor e posse em Jane Austen

Ontem eu descobri um blog interessantíssimo que vale à pena indicar: Na linha, escrito por Márcia Caetano. Como a própria Márcia disse, é um blog para quem gosta de literatura, cinema e música.
Márcia faz uma análise sobre amor e posse na obra de Austen. Segundo Márcia, sua intenção é falar:

“Não apenas o rival amoroso, mas aquele que precisa (?) ser mais: o inimigo da própria alma, aquele que costuma dar pimenta à história, render páginas e páginas a mais e tirar o sono do protagonista mais sóbrio, em suma, o canalha necessário.São aqueles que aparecem sutilmente quando o livro está andando, quase que imperceptivelmente e tomam conta da trama. São os excelentes e bem elaborados oponentes de Jane Austen. Sem eles, muitos livros da autora – senão todos – correriam o risco de ficar em um embate entre os sexos.”

Abaixo os posts escritos por Márcia. Clique em cada um dos links abaixo, pois eu só apresento um parágrafo resumindo de cada post.
William Elliot (Tobias Menzes) X Capitão Wentworth (Rupert Penry-Jones)

“A entrada estratégica e fundamental de William Elliot na história irá marcar uma reviravolta, não apenas no jeito que Wentworth age em relação à Anne, mas também como ela própria passa a mostrar um caráter mais decidido, afinal, ela está “insuflada” não apenas pelo vento, mas pela admiração deste que se julga ser um cavalheiro qualquer.”

“Em resumo, a função de William Elliot em Persuasão é bem clara: aproximar velozmente Anne de Frederick. Este, ao vê-la praticamente perdida nos braços do primo, revive todo o amor do passado. Ela, ao receber uma atenção especial do primo e voltar a ter diante de si uma perspectiva que tinha abandonado há muito tempo: a de se casar e de se tornar legítima herdeira da mãe, adquire a auto-confiança e o brilho necessários para a reconquista do seu Wentworth. O interessante é toda a construção de William como um jovem sensato, um cavalheiro, excelente sobrinho e pessoa de bom senso (já que corteja Anne e não Elizabeth) é virada do avesso, como acontece com vários oponentes de Jane Austen.” 

Wickham (Ruppert Friend)

“A função deste oponente é também aproximar os protagonistas, porém não se colocando como possível par amoroso (como é o caso de William Elliot), mas evidenciando os erros de juízo do casal. Lizzy percebe que se deixou levar durante muito tempo pelas aparências, favorecendo em seu julgamento aquele que acreditava a ser o menos afortunado, o mais franco, cavalheiro e doce dos dois; e Darcy percebe que julgava poder tê-la só para si, isolada da sociedade e da família de onde vinha, trazendo apenas seus dotes genéticos à linhagem dos Darcy.”

Willoughby (Greg Wise) e Marianne Dashwood (Kate Winslet)

“A questão que fica é: por que Jane Austen fez desse personagem tão maravilhoso um oponente, enquanto o Coronel Brandon é – assim como Elinor – alguém que age subliminarmente, nas sombras, em suma, tão apagado, comparado com o brilhante John Willoughby? Por que justamente Marianne foi a escolhida para se casar com o homem mais sensato de toda a história?”

Elinor Dashwood (Emma Thompson) e Lucy Steele (Imogen Stubbs)
“Comparativamente aos outros oponentes citados nessa série, Lucy Steele parece ter menos influência sobre Elinor e Edward Ferrars do que aquela que ocorre com outros protagonistas. Levada por estas impressões, confesso que fiquei refletindo se estaria certo incluí-la entre a lista dos oponentes, uma vez que está claro que estas figuras surgem nos romances de Austen com a função de formar tramas paralelas ou contrárias à narrativa principal. (…) Tendo em vista o exposto, revi o seu caso e percebi o quanto eu estava errada e que, sem sombra de dúvida, deveria incluir Lucy Steele na lista dos oponentes de Austen. Pelas seguintes razões: ao surgir na trama e perceber que Elinor é querida por Edward, Lucy, em sua própria defesa, adota uma estratégia de guerra que envolve uma série de passos que irão desestabilizar tanto Elinor quanto Edward – que inclusive adia a visita à família das Dashwood com receio de se expor. Além disso, Lucy vai praticamente testar TODO o bom-senso e (até) sangue-frio de Elinor, que precisa mostrar uma coisa que não sente, participar como confidente de uma história que desejaria não conhecer e oferecer um exemplo de auto-controle à Marianne – afinal, ALGUÉM tem que fazer isso! Sem comentar o desenlace final, em que Lucy, persistente na sua ambição de subir nos degraus da escala social, dá um golpe fatal e muda de foco na família Ferrars. É preciso admitir que a moça é coerente e persistente com suas metas, do início ao fim (ao contrário de Willoughby, por exemplo, que acaba se envolvendo de fato com Marianne).”
Os posts de Márcia nos deixam com água na boca e gostinho de quero mais! Por favor, Márcia, escreva mais sobre Austen!
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Por que razão Jane Austen é lida até hoje?

Pessoal, estou de volta das férias prolongadas! Creio que a Elaine cuidou muito bem do Jasbar enquanto estive fora! Obrigada amiga! Volto à publicação dos posts com uma dica de leitura!
A Maria dona do blog Falcão de Jade fez um post muito interessante sobre: Por que razão Jane Austen é lida até hoje?
Maria nos mostra uma capa da edição portuguesa de Ema (com apenas um M) publicada pela Inquérito, enumera uma lista de biografia e livros interessantes sobre Jane Austen. Enfim, um post que vale à pena ser lido!
A conclusão de Maria sobre Jane Austen é: “que bom que existam pessoas assim!”

Emma 2009 – uma opinião masculina

Nossa discussão sobre A Abadia de Northanger está fervilhando! Descobrimos que temos dois rapazes basantes participativos no grupo: Hitoshi e Lucas! Ontem, eu descobri o blog do Guilherme Wasner e ele faz um longo comentário sobre a mini-série da BBC Emma (2009). Pedi autorização para publicar aqui no blog e prontamente o rapaz me autorizou. Obrigada Guilherme!

Com Emma, a BBC faz seu retorno ao universo das marcantes heroínas de Jane Austen. Esta é a segunda adaptação (a primeira é de 1972) do livro homônimo da escritora inglesa, realizada pela emissora. Esta nova produção tem Jim O’Hanlon na direção e Sandy Welch no roteiro. Welch é habituée das produções da BBC, sendo responsável pela ótima adaptação de North and South e da elogiada versão televisiva de Jane Eyre, entre várias outros trabalhos. Nesta minissérie em quatro episódios, acompanhamos a trajetória de Emma Woodhouse (Romola Garai), a inteligente, bela, rica – e um tanto arrogante – filha de Mr.Woodhouse. Emma adora meter o bedelho na vida alheia, principalmente quando o assunto é casamento. Ainda mais se for ela a promovê-lo. O problema é que a jovem cupido não é tão competente como imagina. De fato, Emma é mais míope do que pensa em relação aos sentimentos alheios – e também com relação aos seus próprios. Não demora muito para que suas atrapalhadas intervenções descambem para o desastre, para profundo desgosto do seu grande amigo e vizinho, Mr. Knightley (Jonny Lee Miller, neto do “M” original e ex de Angelina “quem mais eu posso adotar?” Jolie). Está armado o palco para inúmeros encontros e desencontros, bem ao gosto dos fãs de Austen.
Emma é uma adaptação bem sucedida e agradável de assistir. A fotografia é belíssima e a história flui com bom ritmo, prendendo a atenção do início ao fim. Todavia, não é livre de problemas. O mais relevante tem a ver com a interpretação um tanto afetada de Romola Garai, a atriz que dá vida a Emma. Romola é mais conhecida por sua participação no excelente Atonement (no Brasil, “Desejo e Reparação”, numa vã tentativa de associação com Jane Austen), entregando uma Briony (na fase adulta da personagem) remoída pela culpa. Mas enquanto em Atonement a atriz exibia uma performance contida – e por isso mesmo, muito boa – em Emma ela descamba para o overacting. Tudo é muito exagerado, a ponto de parecer que estamos assistindo a alguma produção infanto-juvenil da Disney. Ainda que Emma seja uma personagem jovem e expansiva, não justifica uma caracterização tão histriônica. Nesse ponto Keira Knightley foi mais bem-sucedida. Em Orgulho e Preconceito (a versão cinematográfica), ela transmite com sucesso a graça, a jovialidade e a autenticidade de Liz Bennet sem, no entanto, dar a impressão de que estamos assistindo, por engano, a alguma comédia juvenil.
Para sorte de Romola (o nome é uma versão feminina de “Romulus”, mostrando que não apenas os jogadores de futebol são amaldiçoados por pais sem noção), ela também esbanja encanto e simpatia, o que compensa suas limitações, até certo ponto. Também ajuda um pouquinho o fato da atriz ser muito bonita e carismática (que olhos expressivos, por sinal!). Faltou aqui uma presença mais atuante do diretor O’Hanlon, no sentido de controlar melhor os exageros da atriz, tarefa que o competente Joe Wright tirou de letra em Atonement. Isso demonstra o quanto um diretor é importante para se obter o melhor desempenho possível do cast à sua disposição. Falando nisso, o destaque do elenco vai para o sempre ótimo Michael Gambon, que interpreta o hipocondríaco e hiper-protetor pai de Emma, sem descambar na caricatura.
Com defeitos ou não, Emma é uma delícia de se assistir e, mais uma vez, lamento por nenhuma TV a cabo se interessar em transmitir o conteúdo da BBC One aqui no Brasil. Principalmente sua vasta e caprichada biblioteca de produções de época, que mantém vivos os clássicos da literatura inglesa, de uma forma atraente e acessível para o público. Não há sequer a opção de adquirir os DVDs por aqui. A única alternativa é importar a peso de ouro, ou se resignar a torrents de baixa qualidade. E o que temos em substituição? A Fazenda? É de chorar…

Detalhe: adivinhem qual é a série favorita de Guilherme? Orgulho e Preconceito é claro!!! Segundo o rapaz, foi uma das melhores coisas já produzidas para a TV… se não for a melhor!

Orgulho e Preconceito e Zumbis – uma opinião

Depois de publicar aqui no blog sobre o futuro lançamento de Orgulho e Preconceito e Zumbis pela Editora Intrínseca, acho interessante fazer um post sobre uma das muitas avaliações do livro.

Eu ganhei o livro de presente da Leila! Obrigada!
Detalhes das ilustrações

O texto abaixo é da Camila D. do Liquid Dreams of… – que gentilmente nos cedeu sua opinião. Obrigada Camila!

Não sei bem como começou este fenómeno dos remakes no campo da literatura. Talvez seja uma evolução natural do fenómeno das sequelas ou talvez seja uma profissionalização da moda de escrever fanfiction, mas o facto é que me parece que os remakes literários – e vou chamar-lhes assim porque passa a mensagem e me parece que ainda ninguém criou uma nomenclatura melhor – vieram para ficar.

A ideia é clara e simples, e passa um pouco pela fórmula que é usada para a música e o cinema: pegamos numa obra que já existe e damos-lhe uma roupagem diferente, mantendo a estrutura básica para que a obra seja reconhecida e apreciada pelo público conhecedor do original ao mesmo tempo que tenta utilizar as diferenças para captar um novo público.

Parece-me que é quase um dado adquirido que remakear – new word! – uma obra mais conhecida tem uma probabilidade bem maior de atingir um publico mais vasto, ou seja ter um maior número de vendas, do que remakear uma qualquer obra obscura de um autor maldito.


Este fenómeno é de tal forma evidente que muito autores estão já a fazer remakes das próprias obras, usando o truque sempre bom do contar-exactamente-o-mesmo-mas-de-outra-forma-ou-seja-as-mesmas-personagens-nas-mesmas-situações-com-os-mesmos-diálogos-mas-do-ponto-de-vista-de-uma-personagem-diferente. Um dos exemplos mais flagrantes é o caso da Stephanie Meyer (parece que falo sempre no mesmo, mas a culpa não é minha) que prepara uma nova versão de Twilight, mas contando agora a história do primeiro tomo da série do ponto de vista do vampiro.


Tenho uma estranha sensação nestes casos. No fundo, é como se os autores estivessem a fazer fanfiction das suas próprias obras!… (shudder!)

Estes remakes conseguem por vezes fugir um pouco à fórmula anterior, apresentando takes efectivamente diferentes, mudando o enfoque da história e criando situações diferentes; o que pode ter um efeito colateral complicado porque pode levar o autor a recriar as personagens e atribuir-lhes comportamentos e atitudes que os fãs não lhes reconhecem, alienando assim o público do trabalho original.


Cheguei a ver comentários na Amazon neste sentido, onde fãs irados tratavam as personagens como pessoas reais, que eles conheciam detalhadamente, afirmando: “Ela nunca faria isso! Ela nunca diria isso!”. Há, no entanto, algumas obras curiosas que apesar de serem remakes literários conseguem acrescentar dimensões interessantes às histórias originais e isso dá-lhes mérito próprio. Lembro-me do caso de Mary Riley de Valerie Martin que me pareceu bastante interessante. Antes ainda de abordar o livro que me levar a criar este post, resta-me recordar o leitor mais distraído que sou uma assumida fã de Jane Austen e uma coleccionadora edições de Pride and Prejudice: diferentes formatos, diferentes línguas, continuações e remakes.

Tenho-o até em Holandês e Dinamarquês, em BD e em texto dramático; confesso que tenho os “diários” de Mr. Darcy em diversas versões por diferentes autores, a versão digest e o companion da série da BBC de 1995 com fotografias dos locais de filmagem e até uns livros onde o casal Darcy se transforma numa espécie de parelha Poirot . Deuses, até tenho uma coisa verdadeiramente assustadora – sim, mais do que as enumeradas anteriormente – que é uma versão christian novel do romance, muito mais pudica – se é que conseguem imaginar – e passada nos dias de “hoje”.

Assim, quando descobri que iria sair um novo remake, desta vez uma edição virada para o horror, fiquei atentamente à espera que estivesse disponível uma versão softcover para comprar.

Já comprei e já li (dentro do possível). Deixem que vos diga que este trabalho é mau e que o pior é que ele é essencialmente preguiçoso. Seth Grahame-Smith, autor (de apenas algumas linhas), agarrou no texto de Austen, provavelmente downloadando uma versão digital do Project Gutenberg ou qualquer coisa semelhante, fez um copy-paste para dentro de um documento Word e foi colocando umas frases pelo meio, sempre tudo relacionado com zombies e a estranha praga que grassa pelas terras de sua majestade… e voilá!  Está feito um fabuloso “New York Times Best Seller” como diz o sticker na capa da minha edição. De facto, pensado bem, devia ter percebido isso imediatamente no momento em que o nome de Jane Austen é colocado na capa num tom de quase “parceira” do projecto, como se o livro tivesse sido escrito a quatro mãos.

Como é que é possível que tenham deixado publicar uma coisa destas! Chega ao ponto dos acrescentos de Grahame-Smith nem sequer fazerem sentido!  Tentei mesmo dar uma hipótese ao livro (caramba, se eu li a versão em christian novel e esta era mesmo mázinha…) e cheguei a usar duas abordagens diferentes no que toca à sua leitura. Numa primeira linha, tentei ver o livro como um remake de uma história que já conhecia e partir daí: foi terrível, tudo soava tão oco e absurdo (in a bad way) que tive de desistir.

Voltei ao livro algumas leituras depois, abordando o produto como sendo uma coisa absolutamente nova e séria, numa mistura efectiva da vida na época da Regência com zombies, numa espécie de história alternativa. Ainda foi pior. O facto de manter todo o texto original e, ao longo de várias páginas seguidas, alterar apenas algumas palavras e contextos, como limitar-se a transformar os dotes de piano e costura das meninas das várias famílias em treinos de judo com mestres orientais e habilidades com catanas, quebra o texto e a história.  Aposto que, mesmo quem nunca tenha lido nada de Jane Austen, consegue facilmente distinguir a sua prosa da de Grahame-Smith! É mesmo assim tão obvio, garanto!  Ver uma Lizzie a queixar-se que 50 milhas é muito longe tendo em atenção que aos 21 anos já foi duas vezes ao Oriente é um pouco, como direi?… deslocado? pouco consistente?
Não sei quem serão os leitores de uma obra destas: não estou a ver os fãs de livros de zombies com paciência para a linguagem e os enredos de Austen a cru, nem estou a ver os fãs de Austen a ter muita vontade de encontrar o Mr. Darcy a cortar cabeças aos zombies da vizinhança enquanto regressa à sua adorada Pemberley.  O que mais de deixa aborrecida é sentir-me enganada: achei que ia encontrar aqui uma coisa original e engraçada. Talvez a culpa seja minha e seja eu quem não tem o sentido de humor necessário para “perceber” o alcance e a dimensão do livro e da ideia do autor. A ideia é gira, mas era preciso que o autor tivesse tido trabalhado e ter, de facto, criado uma versão alternativa onde os mesmos personagens vivem uma história de amor semelhante, mas com esta dimensão, que é uma dimensão de peso, com implicações maiores do que trocar as aulas de piano por aulas de artes marciais.
Este é, na minha opinião, mais um caso de uma ideia boa com uma execução duvidosa. Podemos juntá-lo ao “30 Days Of Night” sem bem que é quase ofensivo: pelo menos este teve originalidade! O meu veredicto é que o livro é mau. É preguiçoso e um descarado roubo do trabalho de Austen, uma artimanha de baixo nível para ganhar uns trocos em direitos de autor. Gostava de saber quanto é que este “autor” recebeu por este “trabalho” que lhe deve ter demorado, no máximo, umas duas ou três tardes a concluir! Ah! mas entretanto, preparem-se porque há mais gente a achar que este é um bom filão: “The War of the Worlds Plus Blood, Guts and Zombies” de H.G.Wells e Eric S. Brown também anda aí. Pelo título e utilização do nome do autor original, cheira-me que o processo foi o mesmo. PS: e contrariamente ao que andam a dizer, o livro não é uma paródia ao original; é mesmo só um rippoff descarado.