A Batalha por Jane Austen

Laura Miller, colunista do site de variedades Salon.com, publicou um artigo intitulado The Battle for Jane Austen, onde analisa o fenômeno atual de livros e fan fictions inspirados nos romances da escritora inglesa. Entre zumbis, vampiros e um Darcy gay, Miller tenta reencontrar a verdadeira Jane Austen. Abaixo, segue a tradução do artigo:

A Batalha por Jane Austen

Grande romancista, precursora da chick-lit, vampira. Queira a verdadeira senhorita Austen se levantar, por favor?

“Os romances de Jane Austen/São aqueles em que nos perdemos”, escreveu G.K. Chesterton, e milhões de leitores fizeram exatamente isso. Desde 1995, em particular, quando a adaptação da BBC de Orgulho e Preconceito, estrelada por Colin Firth, conquistou inúmeros corações femininos, Austen e sua (agora) mais famosa criação, Mr. Darcy, tornaram-se o critério de uma certa tendência do desejo feminino contemporâneo. O ano seguinte trouxe O Diário de Bridget Jones, de Helen Fielding, que se inspirou no enredo e no sobrenome do herói de Orgulho e Preconceito, e apenas concretizou a ideia na mente do público: Jane Austen é a avó da chick-lit.

Embora não tenha inventado a comédia romântica (Muito Barulho por Nada de Shakespeare, clara inspiração de Orgulho e Preconceito, pode reivindicar esta honra), Austen, por certo, concebeu e aperfeiçoou o estilo em sua forma moderna. Ninguém nunca superou Orgulho e Preconceito, e não foi por falta de tentativa. No entanto, o empreendimento literário pode explicar a loucura em torno de Austen. Muitos livros ditos “clássicos” podem ser “amados”, mas Austen é canônica nos dois sentidos da palavra ao mesmo tempo. Quem mais entre os grandes romancistas de todos os tempos inspiraram tantas fan fictions? Quais fan fictions de outros autores são amplamente publicadas?

O site The Republic of Pemberley lista cerca de 60 “sequências e continuações” somente de Orgulho e Preconceito. As outras cinco grandes obras de Jane Austen também têm os seus derivados, mas nenhuma como Orgulho e Preconceito. A lista nem sequer inclui Pride and Prejudice and Zombies, um surpreendente bestseller lançado ano passado e o primeiro de uma série sem fim de misturebas de clássicos. Também não inclui a ficção em que a própria Austen é uma personagem, como a série de mistérios de Stephanie Barron, onde a escritora é uma detetive. Ou a recentemente publicada Jane Bites Back, onde Austen é uma vampira que sobrevive até os dias de hoje como uma livreira de meia-idade em Nova York, zangada por ter virado um produto de massa. E há ainda o subgênero chick-lit, que falam de mulheres contemporâneas que tentam se conformar com a escassez de Darcys (Austenland, Me and Mr. Darcy). Podemos amar nos perder nos romances de Jane Austen, mas seria melhor se, a essa altura, eles não tivessem se perdido em nós.



Ler o livro A Truth Universally Acknowledged: 33 Great Writers on Why We Read Jane Austen, apenas aumenta o mistério em torno deste fenômeno. Nos vários ensaios desta coleção, muitos publicados ao longo do século passado, podemos perceber que ser “ligeiramente imbecil por Jane Austen” é uma condição anterior não somente à adaptação de Orgulho e Preconceito da BBC, mas à própria televisão. O romancista E.M. Forster descreveu a si mesmo usando este epíteto em 1936, embora ele provavelmente não tenha ido tão longe a ponto de ir a um lugar onde pessoas podem simular a vida na Inglaterra no período da Regência, como a heroína de Austenland.

A Truth Universally Acknowledged (editado por Susannah Carson) lembra-nos de que antes da paixão em torno de Colin Firth vestindo uma camiseta molhada, Austen era admirada por muitas pessoas – inclusive homens! – que consideravam o mérito literário algo realmente muito sério. Martin Amis, pergunta-se “por que o leitor anseia impotente com tanto fervor pelo casamento de Elizabeth Bennet e Mr. Darcy?” (Bem, talvez Amis devesse perguntar como uma romancista faz para que os leitores se importem pelo destino de seus personagens; ele poderia aprender alguma coisa). Lionel Trilling conta o seu espanto quando 150 estudantes disputaram trinta vagas em um seminário sobre Austen, que ministrou em 1973, e a “histérica urgência moral” com a qual suplicaram para entrar no de C.S. Lewis, que nunca considerou a seriedade incompatível com a boa leitura, apesar de ter escrito em louvor da “dureza” do rigor moral de Austen.


Ao lado desses sóbrios cavalheiros, estão as “Janeites”, as entusiastas, que Henry James acusou de transformarem Jane Austen na “querida Jane de todo mundo”, que certamente se encaixa na caracterização de Jane Austen em Jane Bites Back, de Michael Thomas Ford. Apesar de ser um blockbuster de 200 anos, a Jane de Ford não possui a ironia impiedosa que a verdadeira Austen colocava em seus romances ou nas cartas que escrevia para a sua amada irmã Cassandra. Em vez disso, a atual Jane Austen é totalmente banal e “narrativa”, chegando em casa depois de um dia na loja, se vestindo com seu robe felpudo, portando um livro, uma barra de chocolate e uma taça de merlot. Ela tem até um gato. Quando um pretendente abre a porta para ela, “ela não para de pensar o quão elegante ele é. Um verdadeiro cavalheiro”. É difícil acreditar que com imortalidade e dois séculos de experiência a autora de Emma tenha se reduzido a uma pessoa antiquada e sem vida. Pior, a Jane de Ford trabalha em um romance não publicado; trechos capengas – cheios do tipo de melodrama ofegante que Austen parodiou em A Abadia de Northanger – abrem cada capítulo.

Críticos tem investido contra “a quantidade de adulação acolhedora e familiar”, expressa através de diversos jardins e Janeites bebedoras de chá, desde que Marvin Mudrick publicou Jane Austen: Irony as Defense and Discovery, em 1952. Ironia (a verdadeira, não a de Alanis Morissette) era o estilo predominante em Jane Austen, como Mudrick chamou atenção, e isso não somente fez dela “inumanamente fria e penetrante”, mas também a posicionou contra “todas as ilusões intrínsecas à arte e à sociedade convencionais”. Estes foram os varonis anos 50 falando; nos anos 2000, Austen tornou-se na mentalidade popular, uma saudosa lembrança de todos os prazeres cavalheirescos de uma ordem social perdida – uma sociedade que teria levado a Janeite contemporânea a uma insurreição se tivesse que viver nela.

Como o espelho de Dumbledore, a ficção de Austen parece ter a habilidade de mostrar aquilo que seus leitores querem ver. Austen é a avó da chick-lit, mesmo que esse fato venha aborrecer seus admiradores intelectuais. Mas ela não é apenas isso, e para se convencer de que seus romances falam apenas sobre ser cortejada por homens ricos e bonitos versados em etiquetas de bailes, é preciso ser tão tola e frívola quanto a irmã mais nova de Elizabeth Bennet, Lydia. O que a chick-lit sempre tenta fazer com Austen é subtrair a realidade social e econômica de sua ficção (ignorando as mortificações pelas quais suas heroínas passam), mas há ainda uma outra categoria de Janeite que não quer subtrair nada. Ao contrário, elas preferem adicionar.



O recentemente publicado Pride/Prejudice, de Ann Herendeen pressupõe que antes de Elizabeth e Darcy se unirem cada um tinha um parceiro sexual do mesmo sexo: Elizabeth com Charlotte Lucas e Darcy com Mr. Bingley. Supostamente isso explica o motivo de ambos serem contra os casamentos de seus amigos, mesmo que o romance de Austen proporcione razões perfeitamente adequadas, embora bem menos excitantes. Alguns leitores podem ficar desapontados ao verem os encontros amorosos de Lizzy e Charlotte serem mencionados somente de passagem, enquanto que as brincadeiras no quarto entre Darcy e Bingley e alguns outros amigos (ele faz parte de um clube de cavalheiros em Londres – um clube muito, muito perverso de cavalheiros) são descritos com detalhes consideráveis. O título do livro – “slash” [“barra”] é um termo para a fan fiction que trata de pares românticos masculinos que são ostensivamente heterossexuais no original canônico – diz tudo. Nas primeiras páginas, Bingley sussurra maliciosamente para Darcy: “beije-me de novo, seu bruto”.

Apesar desses lapsos, Herendeen faz um trabalho melhor do que a maioria dos que se aproximam mais do estilo de Austen, sem imitá-la, e quando Darcy e Elizabeth finalmente se casam, ela nos dá a noite de núpcias que tem sido provavelmente a maior entre todas as outras fantasias de uma Janeite. Até mesmo Amis expressou o desejo de “uma cena de sexo de 20 páginas envolvendo os dois protagonistas e, além disso, com Mr. Darcy tendo um desempenho fora do comum.” (Vinte páginas – sério? Você é mais forte do que eu, Mr. Amis.) Devo confessar que nunca senti falta dessa cena, então não posso dizer se a versão de Herendeen corresponde às expectativas, mas isso requer muita conversa.

Para o tipo de fã que escreve Pride/Prejudice ou Darcy & Elizabeth: Nights and Days at Pemberley ou Mr. Darcy’s Diary ou, no que diz respeito ao assunto, Mr. Darcy, Vampyre (há, de fato, duas séries diferentes envolvendo um Darcy morto-vivo) não há Jane Austen o suficiente, e produzir em larga escala sequências e obras auxiliares é a única resposta para o insaciável desejo por mais. Visto que a maioria desses fãs tem dificuldade em identificar os elementos da obra de Austen que não remetem à realização do desejo romântico e ao fantástico requinte, você poderia imaginar que eles ficariam facilmente satisfeitos com imitações, mas não parece ser o caso; nenhum desses livros foi recebido com grande aclamação. Quantas vezes, quando conseguimos aquilo que pensamos que queremos, ficamos profundamente desapontados? Talvez o segredo do carisma de Austen seja esse, como em um flerte concretizado, ela sabe agradar os desejos mais profundos de seus leitores: seus romances não são passionais como as Janeites desejam, mas também sua moralidade não é “fria e penetrante” como os especialistas austeros retratam.



Finalmente, o mais surpreendente e bem sucedido derivado de Jane Austen, Pride and Prejudice and Zombies, constitui uma categoria especial, visto que não é nem uma sequência nem uma tentativa de imaginar o que ocorre fora da ação dos romances canônicos. Em vez disso, é simplesmente Orgulho e Preconceito (texto que já está em domínio público) com a inserção ocasional de cenas de filmes de terror de acampamento. É uma piada divertida. De acordo com as informações de um livreiro conhecido, a maioria das pessoas que compram o livro não tem a intenção de lê-lo, apenas acham a capa engraçada ou querem dar um presente divertido. (Uma informação adicional: Sense and Sensibility and Sea Monsters não está vendendo muito bem, o que confirma a minha teoria).

Não ficaria surpresa, no entanto, se o editor de Pride and Prejudice and Zombies não tivesse inadivertidamente encontrado o único verdadeiro antídoto para a nova reputação de Austen como progenitora da chick-lit e, por essa razão, um gosto estritamente feminino. No universo da cultura pop, zumbis geralmente são coisa de homem – eles existem, em primeiro lugar, para matar indiscriminadamente e sem remorso nos vídeo games. Entretenimento baseado em zumbis torna-se mais facilmente um sucesso instantâneo do que a ficção com qualidade Austen, e os verdadeiros aficionados por zumbis tem muitas, muitas outras opções para escolher quando estão em busca de satisfazer o seu desejo por carnificina e sangue coagulado. Pride and Prejudice and Zombies, em suma, não tem muito a oferecer a ninguém que esteja seriamente interessado em zumbis, porque boa parte do livro continua a consistir nos sofrimentos de amor das irmãs Bennet.

No entanto, você pode ler Pride and Prejudice and Zombies fingindo que está lendo por causa dos zumbis ou das gargalhadas, enquanto secretamente saboreia a sublime comédia romântica de Austen. Ao menos foi assim que eu li – não, quero dizer, sem pretensão nenhuma, mas enquanto prosseguia, via-me gradualmente lendo às pressas as interjeições de horror e combate para poder voltar para a verdadeira história. Como não sou uma Janeite, não tenho planos de reler o romance, então foi como encontrar inesperadamente uma velha amiga esquecida, somente para relembrar o quão encantadora ela é, e para perguntar a mim mesma como pude esquecê-la. A grande vantagem, a arma secreta de Pride and Prejudice and Zombies é que quando você se cansa das decapitações e das artes marciais e do sangue e das tripas, você percebe que ainda é Orgulho e Preconceito. E você sabe que não pode ser ruim.

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6 thoughts on “A Batalha por Jane Austen

  1. Elaine 05/02/2010 / 7:08 PM

    É verdade, Lord Daniel. Uma das coisas que sempre achei interessante em Jane Austen é essa capacidade de agradar não somente a scholars, mas também a um público mais diversificado.

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  2. Karlinha 05/02/2010 / 10:37 PM

    Pois é eu não posso falar mal dessas adptações. Por que amo Chcick-Lits e sim austen é avó deles. srsrsrs
    Mais fala sério…tem austen para tudo que é gosto..imagino ela se revirando na tumba( como diria amanda price em Lost in austen)

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  3. Elaine 05/02/2010 / 11:14 PM

    Revirando-se na tumba ou, então, dando gargalhadas.

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  4. Mari 08/02/2010 / 9:14 PM

    Olha, eu concordo com a autora do artigo, apesar de ser leitora e até escritora de fanfics de Orgulho e Preconceito. Acho que algumas pessoas exageram um pouco na “adoração” a Jane Austen, fazendo com que ela se torne, se já não tiver se tornado, mais um ícone da cultura pop. E não sei se gosto muito disso.

    Agora, a frase mais genial do artigo pra mim foi “Talvez o segredo do carisma de Austen seja esse, como em um flerte concretizado, ela sabe agradar os desejos mais profundos de seus leitores: seus romances não são passionais como as Janeites desejam, mas também sua moralidade não é “fria e penetrante” como os especialistas austeros retratam.”
    Ela verbalizou o que eu sempre pensei!

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  5. Elaine 08/02/2010 / 10:17 PM

    Mari, acho que quer gostemos ou não, Jane Austen já virou um ícone pop. Inúmeras séries, filmes, fan fics, mangás, HQs, bonecas, xícaras, canetas etc, enfim, tudo isso faz parte da cultura pop. Mas é claro que, acima de tudo isso, ela continua a ser um clássico da literatura, e seria bom se as pessoas não perdessem isso de vista.

    Também gostei do trecho que você citou, e destaco outro que eu também gostei: “para se convencer de que seus romances falam apenas sobre ser cortejada por homens ricos e bonitos versados em etiquetas de bailes, é preciso ser tão tola e frívola quanto a irmã mais nova de Elizabeth Bennet, Lydia”. Acho que a carapuça vai servir em muita gente ;o)

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