Gazeta de Longbourn Apresenta: Para Celebrar Jane Austen

Os textos críticos reunidos neste livro são resultado de uma pesquisa financiada pelo CNPQ, através de bolsa de produtividade em pesquisa.

Os textos abordam questões fundamentais dos romances de Jane Austen, publicados entre 1811 e 1818, como a relevância das protagonistas-mulheres e a necessidade de tornar seus anseios e suas subjetividades visíveis, bem como o uso inovador que Austen faz dos recursos metalinguísticos e metaficcionais, a exemplo da paródia.

A discussão também aproveita a relação contemporânea entre Austen e a adaptação audiovisual, sobretudo aquela realizada pelo cinema.

As frequentes adaptações de romances da autora atestam a atualidade das questões que ela aborda, a exemplo do autocontrole da emoção, da necessidade do discernimento crítico, mas também de experiências, ainda que sutilmente expressas, ligadas à sexualidade, ao erotismo; também de questões mais amplamente políticas, como a crítica ferrenha à hipocrisia e ao imperialismo da sociedade inglesa pré-vitoriana.

Acho que descobri esse livro por um comentário feito pela Lílian, da JASBRA/PB na comunidade da Jane Austen pelo Facebook ou em alguma conversa em algum dos encontros da sociedade. Fiquei curiosa (obviamente), pois não apenas se tratava de um livro de crítica e análise literária – gênero de que gosto muito – como também era uma produção nacional.

Demorei um pouco para consegui-lo, porque quando tentei comprá-lo pela primeira vez, ele já tinha se esgotado. Esperei um tempo, e fui procurá-lo de novo – não me lembrava exatamente o site em que ele estava sendo vendido, de forma que joguei no Google e aí descobri que ele estava disponível pela Livraria Cultura. Uma vez que pedindo pela livraria, eu podia solicitar a entrega na loja e assim escapar do frete, encomendei-o. Demorou quase um mês para ele chegar, mas foi uma espera que valeu à pena.

O livro é uma coletânea de artigos focados especialmente em Orgulho e Preconceito, A Abadia de Northanger e Mansfield Park, incluindo excelentes análises acerca do papel feminino nas obras, o uso de recursos metalinguísticos, e entre os livros e as adaptações que foram feitas dos mesmos.

Em alguns pontos, é um livro mais técnico do que outros volumes de crítica sobre a Austen que já li – o que faz sentido, visto que são artigos científicos, produzidos por uma pesquisa financiada pelo CNPq. Mas o texto é suficientemente claro para ser compreensível mesmo para aqueles que não conhecem as teorias literárias e citações da autora.

Encontrei algumas das minhas próprias interpretações sobre certos eventos do romance com maiores argumentos e muito bem destrinchados e descobri outros pontos de vista em que não tinha pensado antes. Curiosamente, ao terminar o livro, senti uma enorme vontade de rever Palácio das Ilusões e reler Mansfield Park à luz das considerações feitas pela autora.

A única reclamação que tenho a fazer de Para Celebrar Jane Austen é que ele é um livro pequeno. São pouco mais de cem páginas, mas são cem páginas de dar água na boca. Um excelente volume de referência, sem dúvida alguma.

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Terças – Indicações de livros – Para Celebrar Jane Austen

Hoje é dia da Coluna das terças-feiras: Indicações de livros!  A Lília dos Anjos (JASBRA-PB) me indicou esse super lançamento em português: Para Celebrar Jane Austen: Diálogos Entre Literatura e Cinema – de Genilda Azerêdo, clique aqui para conhecer os outros livros publicados por essa paraibana! 



Descrição

Os textos críticos reunidos neste livro são resultado de uma pesquisa financiada pelo CNPQ, através de bolsa de produtividade em pesquisa.

Os textos abordam questões fundamentais dos romances de Jane Austen, publicados entre 1811 e 1818, como a relevância das protagonistas-mulheres e a necessidade de tornar seus anseios e suas subjetividades visíveis, bem como o uso inovador que Austen faz dos recursos metalinguísticos e metaficcionais, a exemplo da paródia. 

A discussão também aproveita a relação contemporânea entre Austen e a adaptação audiovisual, sobretudo aquela realizada pelo cinema. 

As frequentes adaptações de romances da autora atestam a atualidade das questões que ela aborda, a exemplo do autocontrole da emoção, da necessidade do discernimento crítico, mas também de experiências, ainda que sutilmente expressas, ligadas à sexualidade, ao erotismo; também de questões mais amplamente políticas, como a crítica ferrenha à hipocrisia e ao imperialismo da sociedade inglesa pré-vitoriana.

Especificações

Encadernação: Encadernado
Dimensões (Altura x Largura): 14,8 x 21

Dados técnicos

Número de Páginas: 110
Edição: 1a
Ano da edição: 2013

PRÉ-LANÇAMENTO! Clique aqui para fazer a sua reserva! 

Conheça aqui as outras indicações desta coluna.

Jane Austen made in Paraíba

Esse livro abaixo cruzou o Brasil até chegar às minhas mãos. Recebi de presente de aniversário de Lília dos Anjos! É o mais recente lançamento do Genilda Azerêdo sobre: Jane Austen nas telas – um estudo da ironia em Emma. O livro foi publicado com o selo da Editora UFPB e está à venda na livraria do Campus e creio que também nas Livrarias Paulinas (pois o presente veio embrulhado com o papel de presente de lá). Vou confirmar com a Lília e depois falo para vocês!
Conteúdo:
Há um essay sobre esse tema, de autora da própria Genilda, à disposição para download nos arquivos da UFSC (onde Genilda fez o doutorado), para baixar clique aqui.
***
Já falei sobre Genilda em dois outros posts:
Jane Austen, adaptação e Ironia – livro publicado por Genilda Azerêdo
Hollywood sem beijo – artigo de Genilda Azerêdo sobre o filme Orgulho e Preconceito
Ps. ouso dizer que meu amigo Lord Daniel vai adorar a notícia!

Hoje é aniversário do Blog

Hoje é uma data muito importante para este blog! Comemoramos 1 ano de vida!! Dei início a este blog por causa de uma comunidade do orkut (Orgulho e Preconceito) – que participo desde 2006. No ano passado, havia muita gente criando tópicos com dúvidas parecidas a respeito de Jane Austen e seus livros. Então, decidi criar este blog para deixar registrado algumas assuntos básicos sobre Austen, seus livros e assuntos relacionados. Os dois primeiros posts, no mesmo dia inclusive, foram sobre: Pequena biografia de Austen e Os Livros em Inglês no formato eletrônico.

Acontence que de maio até dezembro de 2008, vivi um período criativo, cansativo e estressante de interpretação dos dados da minha pesquisa de mestrado, além da escrita da dissertação. Devido ao excesso de tarefas, o blog não recebeu muitas postagens mensais, mas continou recebendo visitas todos os dias.

Logo no início eu coloquei uma enquete para saber quantos livros de Austen os leitores do blog haviam lido. Abaixo segue a reprodução dos dados até o último dia que a enquete esteve no ar (03 de janeiro de 2009):

Hoje, só tenho a agradecer aos meus mais de 100 visitantes diários e suas contribuições deixadas neste blog!
Também desejo agradecer aos meus seguidores e aos amigos que me presentearam com os selinhos.
Um forte abraço à galera do Chá Cultural e do Chá com Jane Austen!
Abraços também aos novos amigos que fiz aqui! Abraços à Genilda Azeredo! Aos visitantes do exterior, e porque não, que de uma forma ou outra contribuem com este blog: Heather M. Laurence, Laurie Viera Rigler, Jeanne Kiefer, Mags do AustenBlog, Jane Austen Today, JASA, Professora Nadine do JASBA, Sheryl Craig do JASNA, Becky do Jane Austen UK!
Por causa de tantos visitantes este blog muitas vezes está no page rank de 10/10! Esta conquista não é só minha, e sim das pessoas que o visitam e participam! OBRIGADA!

Vamos às compras?

PARTE 1

Conforme o prometido, aqui vão algumas informações sobre como adquirir o livro da Genilda Azerêdo: ‘Jane Austen, Adaptação e Ironia: uma introdução’. Segundo a autora, o livro está disponível para venda na Casa do Livro (Editora UFPB) no Campus da Universidade em João Pessoa. Contato somente por telefone ou e-mail: (83) 3216 7327 – livrariacasadolivro@gmail.com

Eu tenho uma amiga que mora em Jampa (como é chamada pelos nativos) e ela também é fã de Austen e correu lá para comprar seu exemplar. Segundo Lilia, o livro custa R$ 12,00 e só havia mais 3 exemplares na prateleira. Se por acaso vocês tiverem dificuldades para comprar me avisem pois a Lilia se prontificou a comprar e enviar pelos correios caso a livraria da universidade não ofereça este serviço.

PARTE 2

A Livraria da Travessa (já mencionada no post: Livros da Jane à preço de banana) possui um bom acervo das obras de Jane! Há duas semanas eu encontrei este livro (já visto na Amazon.com) por apenas R$ 16,49!! Trata-se de um livro de bonecos de papel publicado em 1997. Eu realizei a compra, entretando recebi a cópia que veio faltando justamente os bonecos, as roupinhas estavam todas lá. Estou aguardando o envio do novo livro completo. Gostaria de acrescentar que a representante da Livraria me atendeu muito bem, tanto por e-mail quanto por telefone. Quando eu receber publico aqui! Veje bem, a promoção parece ter encerrado pois no site da livraria está por R$ 23,90 e o prazo de entrega de 50 dias, já que alguns exemplares com defeito tiveram que ser recolhidos. Mas é bom enviar uma pergunta ao depto. de vendas se a espera é 50 dias mesmo, pois quando comprei os livros da Editora Wordsworth, no site estava com um prazo de 50 dias sendo que eu os encontrei na loja!

PARTE 3

Eu recebi há alguns dias um e-mail da Becca do Jane Austen Centre na cidade de Bath/UK com diversas promoções em sua lojinha virtual, veja abaixo algumas sugestões. Vale à pena lembrar que a libra está por cerca de R$ 3,44.

O que me chamou a atenção nos lencinhos foi que os bordados começam com as minhas iniciais, custam 3,99 libras.

Caderneta de anotações, tamanho A6 – está na promoção por 1,99 Libra.

Para você personalisar os seus livros com esta folha de rosto, o pacote vem com 20 folhas no tamanho 7.5 x 8cm, e custa 2,99 libras.

Cartões postais diversos 0,99.

Jane Austen, Adaptação e Ironia

Queridos Leitores, e eis que em uma bela manhã de sábado eu recebo através dos correios um envelope vindo de João Pessoa/PB!!
Para minha felicidade, a prof. Genilda Azerêdo me enviou seu livro ‘Jane Austen, Adaptação e Ironia: uma introdução’! Fiquei maravilhada, igual criança em noite de Natal! Quando abri o livro ainda fiquei mais surpresa: uma dedicatória de Genilda! Segundo a autora, quem se interessar pelo livro, pode encomendá-lo à Casa doLivro – Editora da UFPB / João Pessoa. Ou se tiver alguma dúvida, deixe seu recado aqui no blog que enviarei à Genilda.
O livro contém :

– Apresentação
– Prefácio
– Capítulo 1: Jane Austen: a razão do meu afeto
– Capítulo 2: Emma: “Uma heroína que não será amada”
– Capítulo 3: Jane Auten, adaptação e ironia: leitura introdutória de Emma
– Capítulo 4: Distinções de classe e ironia: a adaptação inglesa de Emma
– Capítulo 5: Emma e Patricinhas de Bervely Hills: relações irônicas
– Capítulo 6: O diário de Bridget Jones e as Primeiras Impressões de Jane Austen
– Capítulo 7: Jane Auten, quality television and irony: a reading of Emma and Persuasion
Pelo que vocês podem ler acima, tenho muito material para leitura e deleite nos próximos dias!!
Obrigada pelo mimo Genilda!!

Hollywood sem beijo

Por Genilda Azerêdo*

Orgulho e Preconceito – Hollywood sem beijo**

Sempre que uma nova adaptação de Jane Austen aparece – e esta é a oitava de 1995 para cá – somos induzidos a (mais uma vez) questionar o que há em seus romances, publicados entre 1811 e 1817, que ainda pode atrair a atenção do espectador do século XXI. No caso desta mais recente adaptação, Orgulho e Preconceito, baseada no romance homônimo, a expectativa talvez ainda tenha sido maior, uma vez que se trata do romance mais lido e amado da autora.A própria Jane Austen referiu-se a Elizabeth Bennet, a protagonista do romance, como “uma criatura adorável, como jamais aparecera na literatura (…)”. E confessou: “Não sei como serei capaz de tolerar aqueles que não gostem dela”. De fato, Elizabeth é a mais famosa das protagonistas de Austen, uma personagem que combina inteligência e senso de humor, sensibilidade, vivacidade e rebeldia. Como se sabe, todas as narrativas de Austen constituem pretextos para que suas protagonistas amadureçam emocionalmente, passem de um estado de ignorância a um estado de consciência e conhecimento. No caso de Orgulho e Preconceito, no entanto, tem-se, de início, a impressão (o que não se concretiza), que Lizzy já é madura o suficiente, tornando tal processo esvaziado de função. De modo geral, é o personagem masculino central aquele que contribui para este crescimento emocional e afetivo da heroína. Porém, neste romance, é interessante ver como o processo de conscientização e amadurecimento se dá de forma dupla: ambos Lizzy e Darcy não só vivenciam um processo de aprendizagem, mas gradualmente ensinam um ao outro. Talvez este aspecto seja responsável por fazer deste o mais famoso par amoroso de Austen. E não fosse por outros aspectos do romance, que faz um registro dos costumes e valores da sociedade pré-vitoriana, e uma crítica social contundente à dependência que aquela mulher tinha do casamento, como único meio de sobrevivência (material e emocional), bem como aos efeitos decorrentes dos conflitos entre classes sociais, da hipocrisia e da aparência, só a história de Lizzy e Darcy já justificaria uma adaptação.O título do romance já se oferece como primeira possibilidade de compreensão da narrativa: se Darcy é imediatamente considerado por todos como orgulhoso e arrogante, Lizzy (embora se considere lúcida) não se contém em seus pré-julgamentos em relação a ele. Mas a associação não se dá deste modo único: Lizzy também tem seu orgulho abalado (lembremo-nos de uma fala sua, quando diz, “eu poderia até perdoar sua vaidade, se ele não tivesse ferido a minha”); por outro lado, o pré-conceito inicial que Darcy tem em relação à família de Lizzy vai aos poucos se materializando, de modo que o “orgulho” e o “preconceito” do título não ocupam posições estáveis, mas ambíguas. Na verdade, estabilidade é uma palavra que não combina com Jane Austen. Embora suas narrativas sejam “limitadas” a um universo principalmente feminino e doméstico, e suas temáticas focalizem a importância do casamento como único meio de sobrevivência e estabilidade para a mulher, a questão é tratada de forma tensa, a ponto de fazer com que Lizzy recuse a proposta de casamento de Mr. Collins e a primeira proposta de Darcy, algo até certo ponto inconcebível, quando pensamos na realidade de penúria que a espera. Ou seja, ao mesmo tempo em que a narrativa revela a centralidade do casamento e a importância de uma vida familiar estável naquele tipo de sociedade, ela também mostra representações variadas de casamento, além de sugerir que algo maior – além da conveniência e sobrevivência material – deve fundamentar a escolha e a decisão, ao menos, dos pares centrais.Orgulho e Preconceito já foi adaptado anteriormente, inclusive mais de uma vez. Como filme, há uma versão de 1940. Como série da BBC/A&E, foi adaptado em 1979 e em 1995 (esta, embora série, foi filmada em película). Esta mais recente adaptação (2005; dir. Joe Wright, com roteiro de Deborah Moggach) traz uma diferença bastante significativa em relação às outras adaptações de Austen: uma ênfase maior na visualidade do meio rural (animais e trabalhadores rurais são mostrados), com o propósito de não apenas situar a história no countryside inglês pré-industrial, mas de indiciar esse meio como contexto comercial e econômico daquele grupo social.No início do filme, acompanhamos Elizabeth (que caminha com um livro na mão) pelos arredores da casa, e depois pelo seu interior. À medida que nos familiarizamos com sua casa e sua família, já nos damos conta da cumplicidade existente entre ela e Jane, de um lado, e entre ela e o pai, de outro. Esta cumplicidade é relevante para traçar limites entre duas formas de se relacionar com o mundo: uma altamente pragmática, que visa uma sobrevivência imediata (representada principalmente pela mãe e pelas filhas mais novas); outra mais racional e equilibrada, porque também fundamentada na sensibilidade.A cumplicidade entre essas duas irmãs mais velhas será dramatizada no decorrer do filme, como, por exemplo, numa cena no quarto, mais especificamente na cama, antes de dormirem, em que apenas seus rostos ficam à mostra, e elas conversam como confidentes e grandes companheiras. Essa amizade de irmãs, neste filme, se coaduna com o tratamento da questão não só em Razão e Sensibilidade (uma narrativa essencialmente de irmãs), mas também na adaptação de Mansfield Park (com o título, no Brasil, de Palácio das Ilusões).

Ao contrário de outras adaptações de Austen, em Orgulho e Preconceito as músicas e as danças são festivas e alegres, algo que se alinha com certa leveza da narrativa (em oposição, por exemplo, às narrativas de Razão e Sensibilidade, Persuasão ou Palácio das Ilusões). O ritmo da música (e, conseqüentemente, da dança), no entanto, muda quando Lizzy e Darcy dançam. O contraste com as danças anteriores fica explícito. O ritmo mais lento possibilita que conversem; a câmera se demora nos dois, já que precisam ser revelados (não só um ao outro, mas ao espectador). Por um momento, inclusive, cria-se a ilusão de que apenas os dois rodopiam no salão, o que mostra a função da dança como ritual erótico.De modo geral, ainda que em determinados momentos haja exagero (Mr. Collins, por exemplo, soa caricatural), o filme consegue refletir temáticas relevantes da narrativa de Austen; consegue, ainda, em determinadas cenas, uma tonalidade de humor e ironia característica da autora.

No entanto, na tentativa de atrair um público ávido por histórias de amor (e a narrativa romântica é mais facilmente adaptável – ou transferível para a tela – que a crítica social, principalmente quando consideramos o estilo altamente irônico de Austen), esta adaptação também acaba por se definir como “hollywoodiana”, principalmente no tratamento que dá à relação entre Lizzy e Darcy.Para ilustrar a ênfase na relação romântica, tomemos como exemplo as duas cenas em que Darcy se declara a Lizzy. Em Austen, é comum o narrador fazer uso de narração sumária, ou do discurso indireto, exatamente como estratégias para a criação de um distanciamento, para a quebra ou diluição da emoção, em momentos de grande densidade dramática. É o caso no que diz respeito ao desenvolvimento gradual da relação afetiva entre Lizzy e Darcy. Mas não só isso. No romance, na primeira vez em que Darcy declara seu amor a Lizzy, eles estão dentro de casa. No filme, como era de se esperar, há não só a dramatização do diálogo (“showing” em vez de “telling”) e o deslocamento espacial, na medida em que a cena acontece ao ar livre, mas também a utilização de um contexto de trovões e chuva forte, além de uma música que adensa a carga (melo)dramática da situação, o que acaba culminando num imenso clichê romântico.A segunda cena, quando os mal-entendidos entre eles já foram esclarecidos, e Darcy novamente renova seu sentimento por Lizzy, também chama a atenção em termos de construção visual. Aqui, como no romance, o encontro se dá ao ar livre. No entanto, diferentemente do romance, o encontro entre eles se dá de madrugada, algo impensável para aquele contexto pré-vitoriano, principalmente quando consideramos os personagens envolvidos (protagonistas, e, portanto, guiados por certas regras de conduta e racionalidade). É claro que, mais uma vez, a utilização desse espaço acentua a carga dramática (tornando-a romântica) da situação e cria um deslocamento em relação ao contexto de Austen.

A fotografia nesta cena – marcadamente escura, nebulosa, uma escuridão inclusive acentuada pelas vestimentas escuras de ambos – acaba por remeter a um contexto posterior, vitoriano, sendo bem mais adequada aos arroubos e romantismo das irmãs Brontës, por exemplo, que a contenção de Austen. Esses recortes servem para mostrar a escolha ideológica por trás da adaptação. Se, como diz Dudley Andrew, “adaptação é apropriação de significado de um texto anterior” (e um texto pode ter significados variados, ficando a critério do cineasta e roteirista dar maior visibilidade a um ou a outro), fica evidente que a escolha empreendida, neste caso, tentou conciliar a crítica social de Austen à história pessoal de Lizzy e Darcy; porém, ao romantizar (principalmente em termos visuais) a narrativa privada, o filme perdeu a chance de, por exemplo, aprofundar as relações inseparáveis entre o público e o privado em Austen. No entanto, talvez como certo consolo, o final do filme acaba por resgatar, mais uma vez, a tonalidade contida de Austen, através da ausência do beijo e da conclusão do filme sem a cena do(s) casamento(s). De modo que talvez a melhor definição para esta adaptação seja “Hollywood sem beijo”.
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* A prof. Dra. Genilda Azerêdo é professora do Departamento de Letras Estrangeiras Modernas da Universidade Federal da Paraíba, onde atua nos cursos de Graduação e Pós-Graduação em Letras. É mestre em Literatura Anglo Americana (Dissertação sobre Virginia Wolf) e Doutroa em Literaturas de Língua Inglesa (com tese sobre as relações entre literatura e cinema, especificamente as adaptações de Obras de Jane Auten).

** Este artigo foi gentilmente cedido pela amiga Genilda Azerêdo, tendo sido publicado inicialmente em revista acadêmica e no blog Correio das Artes. Originalmente, o artigo não possui as imagens acima, sendo de minha responsabilidade adição das mesmas.
*** Posteriormente publicarei mais sobre as pesquisas e trabalho de Genilda Azerêdo, aguardem!