Orgulho e Preconceito e Zumbis – uma opinião

Depois de publicar aqui no blog sobre o futuro lançamento de Orgulho e Preconceito e Zumbis pela Editora Intrínseca, acho interessante fazer um post sobre uma das muitas avaliações do livro.

Eu ganhei o livro de presente da Leila! Obrigada!
Detalhes das ilustrações

O texto abaixo é da Camila D. do Liquid Dreams of… – que gentilmente nos cedeu sua opinião. Obrigada Camila!

Não sei bem como começou este fenómeno dos remakes no campo da literatura. Talvez seja uma evolução natural do fenómeno das sequelas ou talvez seja uma profissionalização da moda de escrever fanfiction, mas o facto é que me parece que os remakes literários – e vou chamar-lhes assim porque passa a mensagem e me parece que ainda ninguém criou uma nomenclatura melhor – vieram para ficar.

A ideia é clara e simples, e passa um pouco pela fórmula que é usada para a música e o cinema: pegamos numa obra que já existe e damos-lhe uma roupagem diferente, mantendo a estrutura básica para que a obra seja reconhecida e apreciada pelo público conhecedor do original ao mesmo tempo que tenta utilizar as diferenças para captar um novo público.

Parece-me que é quase um dado adquirido que remakear – new word! – uma obra mais conhecida tem uma probabilidade bem maior de atingir um publico mais vasto, ou seja ter um maior número de vendas, do que remakear uma qualquer obra obscura de um autor maldito.


Este fenómeno é de tal forma evidente que muito autores estão já a fazer remakes das próprias obras, usando o truque sempre bom do contar-exactamente-o-mesmo-mas-de-outra-forma-ou-seja-as-mesmas-personagens-nas-mesmas-situações-com-os-mesmos-diálogos-mas-do-ponto-de-vista-de-uma-personagem-diferente. Um dos exemplos mais flagrantes é o caso da Stephanie Meyer (parece que falo sempre no mesmo, mas a culpa não é minha) que prepara uma nova versão de Twilight, mas contando agora a história do primeiro tomo da série do ponto de vista do vampiro.


Tenho uma estranha sensação nestes casos. No fundo, é como se os autores estivessem a fazer fanfiction das suas próprias obras!… (shudder!)

Estes remakes conseguem por vezes fugir um pouco à fórmula anterior, apresentando takes efectivamente diferentes, mudando o enfoque da história e criando situações diferentes; o que pode ter um efeito colateral complicado porque pode levar o autor a recriar as personagens e atribuir-lhes comportamentos e atitudes que os fãs não lhes reconhecem, alienando assim o público do trabalho original.


Cheguei a ver comentários na Amazon neste sentido, onde fãs irados tratavam as personagens como pessoas reais, que eles conheciam detalhadamente, afirmando: “Ela nunca faria isso! Ela nunca diria isso!”. Há, no entanto, algumas obras curiosas que apesar de serem remakes literários conseguem acrescentar dimensões interessantes às histórias originais e isso dá-lhes mérito próprio. Lembro-me do caso de Mary Riley de Valerie Martin que me pareceu bastante interessante. Antes ainda de abordar o livro que me levar a criar este post, resta-me recordar o leitor mais distraído que sou uma assumida fã de Jane Austen e uma coleccionadora edições de Pride and Prejudice: diferentes formatos, diferentes línguas, continuações e remakes.

Tenho-o até em Holandês e Dinamarquês, em BD e em texto dramático; confesso que tenho os “diários” de Mr. Darcy em diversas versões por diferentes autores, a versão digest e o companion da série da BBC de 1995 com fotografias dos locais de filmagem e até uns livros onde o casal Darcy se transforma numa espécie de parelha Poirot . Deuses, até tenho uma coisa verdadeiramente assustadora – sim, mais do que as enumeradas anteriormente – que é uma versão christian novel do romance, muito mais pudica – se é que conseguem imaginar – e passada nos dias de “hoje”.

Assim, quando descobri que iria sair um novo remake, desta vez uma edição virada para o horror, fiquei atentamente à espera que estivesse disponível uma versão softcover para comprar.

Já comprei e já li (dentro do possível). Deixem que vos diga que este trabalho é mau e que o pior é que ele é essencialmente preguiçoso. Seth Grahame-Smith, autor (de apenas algumas linhas), agarrou no texto de Austen, provavelmente downloadando uma versão digital do Project Gutenberg ou qualquer coisa semelhante, fez um copy-paste para dentro de um documento Word e foi colocando umas frases pelo meio, sempre tudo relacionado com zombies e a estranha praga que grassa pelas terras de sua majestade… e voilá!  Está feito um fabuloso “New York Times Best Seller” como diz o sticker na capa da minha edição. De facto, pensado bem, devia ter percebido isso imediatamente no momento em que o nome de Jane Austen é colocado na capa num tom de quase “parceira” do projecto, como se o livro tivesse sido escrito a quatro mãos.

Como é que é possível que tenham deixado publicar uma coisa destas! Chega ao ponto dos acrescentos de Grahame-Smith nem sequer fazerem sentido!  Tentei mesmo dar uma hipótese ao livro (caramba, se eu li a versão em christian novel e esta era mesmo mázinha…) e cheguei a usar duas abordagens diferentes no que toca à sua leitura. Numa primeira linha, tentei ver o livro como um remake de uma história que já conhecia e partir daí: foi terrível, tudo soava tão oco e absurdo (in a bad way) que tive de desistir.

Voltei ao livro algumas leituras depois, abordando o produto como sendo uma coisa absolutamente nova e séria, numa mistura efectiva da vida na época da Regência com zombies, numa espécie de história alternativa. Ainda foi pior. O facto de manter todo o texto original e, ao longo de várias páginas seguidas, alterar apenas algumas palavras e contextos, como limitar-se a transformar os dotes de piano e costura das meninas das várias famílias em treinos de judo com mestres orientais e habilidades com catanas, quebra o texto e a história.  Aposto que, mesmo quem nunca tenha lido nada de Jane Austen, consegue facilmente distinguir a sua prosa da de Grahame-Smith! É mesmo assim tão obvio, garanto!  Ver uma Lizzie a queixar-se que 50 milhas é muito longe tendo em atenção que aos 21 anos já foi duas vezes ao Oriente é um pouco, como direi?… deslocado? pouco consistente?
Não sei quem serão os leitores de uma obra destas: não estou a ver os fãs de livros de zombies com paciência para a linguagem e os enredos de Austen a cru, nem estou a ver os fãs de Austen a ter muita vontade de encontrar o Mr. Darcy a cortar cabeças aos zombies da vizinhança enquanto regressa à sua adorada Pemberley.  O que mais de deixa aborrecida é sentir-me enganada: achei que ia encontrar aqui uma coisa original e engraçada. Talvez a culpa seja minha e seja eu quem não tem o sentido de humor necessário para “perceber” o alcance e a dimensão do livro e da ideia do autor. A ideia é gira, mas era preciso que o autor tivesse tido trabalhado e ter, de facto, criado uma versão alternativa onde os mesmos personagens vivem uma história de amor semelhante, mas com esta dimensão, que é uma dimensão de peso, com implicações maiores do que trocar as aulas de piano por aulas de artes marciais.
Este é, na minha opinião, mais um caso de uma ideia boa com uma execução duvidosa. Podemos juntá-lo ao “30 Days Of Night” sem bem que é quase ofensivo: pelo menos este teve originalidade! O meu veredicto é que o livro é mau. É preguiçoso e um descarado roubo do trabalho de Austen, uma artimanha de baixo nível para ganhar uns trocos em direitos de autor. Gostava de saber quanto é que este “autor” recebeu por este “trabalho” que lhe deve ter demorado, no máximo, umas duas ou três tardes a concluir! Ah! mas entretanto, preparem-se porque há mais gente a achar que este é um bom filão: “The War of the Worlds Plus Blood, Guts and Zombies” de H.G.Wells e Eric S. Brown também anda aí. Pelo título e utilização do nome do autor original, cheira-me que o processo foi o mesmo. PS: e contrariamente ao que andam a dizer, o livro não é uma paródia ao original; é mesmo só um rippoff descarado.

Resultado do sorteio

Peço à todos desculpas pelo atraso! Finalmente fiz o sorteio do livro: A Abadia de Northanger e a sortuda foi Tatiana Maria (número 29). Fiz o sorteio em um site que gera um número aleatório a partir dos dados que inserimos. Tatiana, você poderia entrar em cotato comigo, por favor?

Não se esqueçam que começamos neste final de semana as discussões sobre o livro no Jasbra Clube de Leitura!

"Orgulho e Preconceito e Zumbis" em português

Texto retirado integralmente da página da Folha Online:

Livro de Jane Austen “Orgulho e Preconceito”, de 1813, é considerado um dos grandes romances da língua inglesa, um exemplo primoroso da utilização literária do discurso indireto que revela os costumes ingleses da época ao narrar a epopéia de moças em busca de amor e casamentos vantajosos. Já “Orgulho e Preconceito e Zumbis” tem como objetivo “transformar este clássico da literatura mundial em algo que você gostaria de ler”.
Sátira modifica pouco do texto original para incluir zumbis no clássico de Jane Austen
A editora Intrínseca anunciou que irá lançar em 2010 essa sátira que mantém cerca de 85% do texto original da autora britânica, modificado apenas o bastante para que a história se passe em meio a uma violenta praga de mortos-vivos pela Inglaterra. O livro chegou a figurar na terceira posição da lista de mais vendidos do NY Times no primeiro semestre deste ano e ficou entre as melhores capas do ano escolhidas pelos leitores da livraria virtual Amazon.
Na história, o Sr. Bennet insistiu que todas as suas filhas fossem treinadas nas artes marciais por monges Shaolin, o que causa certo atrito com a família do Sr. Darcy, que prefere a tradição japonesa de combate às forças do mal. A obra se utiliza do original a todo o momento. Se na história original Lady Catherine esnoba a falta de criados da família de Elizabeth durante o jantar, nesta versão a nobre diz a Elizabeth, retratada como uma espécie de Buffy do século 19, que acha estranha as meninas serem criadas sem um contingente de ninjas para ajudar nas batalhas.
O “co-autor” da obra, junto de Jane Austen, é o norte-americano Seth Grahame-Smith, que já adaptou outro livro da autora para o universo trash, “Razão e Sensibilidade e Monstros Marinhos”, além de “Abraham Lincoln: O Caçador de Vampiros”, obra de humor que diz provar, através de documentos e fotos históricas, que Abraham Lincoln lutou contra vampiros em sua época. A editora Intrínseca afirmou que eles também serão lançados no Brasil, na mesma coleção de “Orgulho e Preconceito e Zumbis”.

O cotidiano de Emma

O COTIDIANO EM EMMA

Alan Daniel Freire de Lacerda*
É Jane Austen uma socióloga disfarçada de escritora? A indagação surge muito a propósito após a leitura de Emma, um dos romances que reputo geniais da inglesa. Costuma-se dizer que o personagem principal do mais conhecido romance de Aluísio de Azevedo é o próprio cortiço retratado na obra e motivo do título. Highbury, a interiorana vila onde se dá todo o enredo de Emma, não chega a tirar da heroína a condição de personagem principal, mas figura imponente no texto apesar de sua pequenez.
A sociologia no texto austeniano não está tanto em grandes temas como distribuição de renda e classes sociais. Está, sobretudo, na atribuição de voz à comunidade de Highbury e na dissecação de assuntos do dia-a-dia da comunidade. Como Adela Pinch judiciosamente nota em sua introdução à edição de Emma da Oxford World’s Classics, Austen inventa novas maneiras de representar as vozes e pensamentos dos personagens. Frequentemente ela usa o termo every body para denotar impressões e fofocas que estão circulando na vila, sem lhes dar um autor. Por exemplo, é um fato reconhecido por “todos” que a loja de Ford é a melhor da vila e o objeto de compras quase diárias por parte de todos os personagens. Bailes e opiniões são propostos também como objeto de consenso sem que tenham partido de um personagem em particular.
Usando magistralmente várias técnicas narrativas, entre elas o discurso livre indireto, Jane Austen consegue dar esse sentimento de autenticidade e de proximidade que tanto a faz popular entre leitores e críticos. O discurso livre indireto permite que o autor exiba falas e pensamentos dos personagens em terceira pessoa como se eles próprios estivessem falando e pensando diretamente ao leitor. No caso de Emma, a técnica é usada tanto para personagens específicos como para os rumores de Highbury.
Uma passagem famosa com essa técnica, e relacionada à dinâmica social de Highbury, está no capítulo 9 do volume 2. Emma observa a parte mais movimentada da vila enquanto espera Harriet que está a fazer compras na loja de Ford. Sem esperar muito a respeito do que irá ver, Emma imagina em sua mente o previsível cotidiano: o Sr. Perry andando apressadamente, o Sr. Cox entrando em seu escritório, os cavalos do Sr. Cole retornando do exercício ou um rapaz carteiro em cima de uma mula teimosa. Esses pensamentos são sucedidos pelo que de fato chega à visão da personagem principal: um açougueiro com sua bandeja, uma velha senhora bem vestida voltando para casa com a cesta cheia de produtos, dois cachorros brigando por um osso sujo, e crianças levadas olhando com gula os produtos do padeiro. Mesmo Highbury, com toda a sua hierarquia social e coesão interna, oferece pedaços do imprevisível em seu cotidiano comezinho. Emma consegue inclusive divertir-se com o que vê.
Muito se comenta sobre o quão restrita é a vida de Emma, uma garota obviamente vivaz e culta, além de rica, em uma vila aparentemente tão tacanha quanto Highbury. Sua desastrada carreira como casamenteira seria uma espécie de válvula de escape para ela. Minha própria opinião é que todos os seus esforços, por mais que sejam mal-orientados em alguns momentos, são evidência de mérito. Eles mostram que Emma consegue definir objetivos para sua vida e encarar a própria vila com divertimento apesar de tudo. Esses esforços, combinados ao aprendizado de Emma sobre seus próprios limites, justificam o destino final conferido por Austen a sua heroína.
 ______________________
* Alan Lacerda é potiguar, doutor em ciência política e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e co-fundador do Jasbra. Seu interesse por literatura em língua inglesa aumentou nos últimos quatro anos, especialmente em função do contato com os seis romances de Jane Austen. Seus passatempos literários incluem também ficção científica e Henry James. O cinema é outra forma de arte que o atrai profundamente desde a década passada e as adaptações de Austen tanto para a tela grande quanto para a TV têm sido objeto de sua atenção e fonte perene de divertimento.

Entrevista com Susannah Carson

Há alguns dias fiz um post sobre o lançamento do livro de Susannah Carson aqui no blog, hoje apresento uma entrevista com a autora.

“A Truth Universally Acknowledged: 33 Great Writers on Why We Read Jane Austen” (“Uma Verdade Universalmente Conhecida: 33 Grandes Escritores falam sobre Porque Lemos Jane Austen”), editado por Susannah Carson: Uma Entrevista

por Vic (Jane Austen World)*

Eu li essas palavras na orelha da excelente nova compilação “A Truth Universally Acknowledged: 33 Great Writers on Why We Read Jane Austen”, editada por Susannah Carson, com prefácio de Harold Bloom, “Para muitos de nós, um romance de Jane Austen é muito mais do que o epítome de uma grande leitura. É um prazer e um conforto, um desafio e uma recompensa, e talvez até uma obsessão.” Que verdade. Susannah Carson selecionou ensaios dos últimos cem anos de críticas e justapôs algumas peças de ensaístas e romancistas atuais em um livro que eu descobri ser mais satisfatório do que uma aula de mestrado sobre Jane Austen. Considero essa entrevista com Susannah uma das melhores postagens desse blog (Jane Austen World). Aproveitem!
P: Quais eram os seus critérios na escolha dos ensaios? Poderia nos dar um exemplo de um escritor cujo ensaio você tenha considerado, a princípio, mas depois decidido não incluir na coleção?
R: Foram escritos tantos ensaios excelentes sobre Jane Austen! A maioria se empenha em esclarecer algum aspecto dos romances – o que, quando, como, etc. – e esses podem ser extraordinariamente úteis. Mas também há outros ensaios que lidam com o que é, na minha opinião, a maior questão: o porquê. Não, por exemplo, como podemos entender o relacionamento de Darcy e Elizabeth nos termos de relações entre gêneros, técnica narrativa e instituições culturais, mas por que o amor deles continua a nos comover tanto? David Lodge escreveu um ensaio intitulado “Jane Austen’s Novels: Form and Structure” (Romances de Jane Austen: Forma e Estrutura). Esse é talvez o relato mais agudo e elegante sobre como os romances funcionam. Mas ele responde a questão do “como” e então eu decidi incluir seu ensaio “Reading and Rereading Emma” (“Lendo e Relendo Emma”) no lugar do primeiro, pois nesse ele trata do essencial “porquê”.
P: Você tinha uma ordem em mente quando pôs os ensaios em ordem e por quê?
R: Alguns dos ensaios são sobre um romance, alguns são sobre um casal ou um pouco dos trabalhos dela e alguns são sobre tudo o que ela escreveu desde a juvenilia até seus romances inacabados e suas cartas. No final, nós decidimos organizá-los livremente: ensaios sobre um só romance aparecem em série e são separados por dois ou três ensaios mais gerais que são reunidos por tema (como moralidade, filmes). Quando eu os reli nessa ordem, fiquei contente em descobrir que os mesmos pensamentos iriam surgir e desaparecer em pequenas ondas ao longo de todo o livro. O vitalismo de Austen, por exemplo: no início, Eudora Welty escreve que os romances de Jane Austen são sobre “a própria vida”; no meio, mais tarde, Amy Heckerling aponta que todo mundo está “OCUPADO” e Eva Brann observa que as heroínas são cheias de “vivacidade” e, no penúltimo ensaio, Virginia Woolf escuta “o som de risos”.
P: Você concorda com a observação de Benjamin Nugent de que um romance de Jane Austen é a “a suprema tagarelice de um filme francês” porque em essência nada acontece exceto uma série de conversas entre as personagens?
R: Eu concordo. O uso de diálogos por Austen é complexo – ela os utiliza para esboçar a personalidade, mas (como Diane Johnson aponta em seu ensaio) ela raramente os usa para desenvolver o enredo. E ainda assim, ao mesmo tempo, a maior parte das cenas de clímax são apenas sobre palavras – seu uso e abuso. Em Orgulho e Preconceito, é a hilária proposta mal formulada de Darcy; em Mansfield Park, é o drama relativo ao teatro, ou o debate sobre encenar ou não Votos de Amantes; em Emma, é o menosprezo de Emma pela Srta. Bates durante o piquenique em Box Hill; em Persuasão é a carta de Wentworth escrita em contraponto à conversa que ele escuta entre Anne e Harville. Então as palavras estão no centro de qualquer que seja a sua interpretação errada ou correta, qualquer que seja a lição a ser aprendida durante o romance. Descobrir como as palavras funcionam em um ambiente social é, como Ben tão astutamente aponta, parte de um eterno processo de amadurecimento.
P: James Collins fez várias declarações fortes, dizendo que Jane Austen o ajudou a esclarecer escolhas éticas e descobrir uma forma de viver sua vida com integridade. Uma das razões pelas quais ela tem credibilidade aos olhos dele é a sua total falta de sentimentalidade. C. S. Lewis comenta sobre a moralidade radical de Austen e Amy Bloom pinta uma imagem de uma mulher que vê o mundo a sua volta através de uma transparente placa de vidro. Esses autores me ajudaram a esclarecer por que eu sou tão atraída por Jane Austen. Na sua introdução você espera que o leitor formule uma resposta para a questão: por que você lê Jane Austen? Eu vou reformular a sua pergunta: qual foi a sua razão para montar esse livro e por que você é atraída por Jane Austen?
R: Parece haver uma suspeita sussurrada em nossa cultura de que a Leitura está morta – de que nós dificilmente lemos alguma coisa e, quando o fazemos, não estamos realmente lendo. Felizmente isso não é verdade, mas o sublime Robertson Davies estava certamente atormentado por esse medo quando ele emitiu seu apelo: “O que peço é uma multidão de células revolucionárias, cada uma composta por um ser humano inteligente e um livro de valor substancial, iniciando o imensamente sério trabalho da exploração pessoal através do prazer pessoal.”
Essa coleção de ensaios visa ajudar as pessoas a descobrir como apreciar de verdade a leitura. Existem diferentes tipos de leitura. Temos a leve leitura de um spin-off de Jane Austen e isso proporciona uma certa diversão. E então temos a rica leitura de um romance de Jane Austen e isso proporciona não apenas um prazer imediato, mas uma compreensão profunda de como nossos corações e mentes funcionam. Pensamos freqüentemente na leitura como algo separado do ato de viver, mas com a melhor literatura – com os romances de Austen – a leitura se torna tão grandiosa, se não mais grandiosa, do que as outras partes e atos da vida. Então eu leio, e eu leio Austen, não apenas porque isso me ensina a pensar, imaginar e narrar, mas também porque é uma busca criticamente importante e profundamente indulgente.
P: Conte-nos um pouco sobre você! A sua breve biografia na orelha do livro me intriga. Diferente da Jane provinciana, cuja vida foi bastante circunscrita, você é verdadeiramente uma mulher do mundo.
R: Sim! Isso mostra que a obra de Austen continua a ter alguma coisa a dizer às mulheres modernas que são tão diferentes dela em todo tipo de detalhe cotidiano. Eu comecei praticamente no mesmo lugar, entretanto; minhas primeiras memórias datam dos anos em que minha família viveu em Hockwold-cum-Wilton, um pequeno vilarejo em East Anglia. Nós voltamos para o Napa Valley quando eu ainda era pequena e eu cresci no meio rural onde eu podia caminhar pelo campo para visitar amigos. A situação mudou quando eu fui embora para a faculdade, pois me vi cada vez mais viciada em livros: primeiro filosofia, depois literatura. Enquanto eu estava escrevendo uma tese para a San Francisco State University sobre Madame de Lafayette’s La Princesse de Clèves, eu fiquei completamente apaixonada por romances franceses do século XVII. Para ler esses romances raros com todo o seu mofo original, eu me mudei para a França. Depois de um mestrado em Lyon II, eu fiz um D.E.A (ou M.Phil) em Paris III. Em Paris, eu vivi em um apartamento sobre uma chocolateria na Ile St. Louis e passei pela Notre Dame todos os dias no meu caminho para a aula na Sorbonne. Então eu me mudei para New Haven para buscar um doutorado em Yale e acabei de voltar a São Francisco para finalizar uma dissertação sobre o perigo nos romances franceses do Antigo Regime.
Como teria sido a vida de Jane Austen se ela tivesse vivido, lido e escrito nos dias de hoje? Teria ela viajado pelo mundo por sua arte ou teria ficado contente com estacionários vôos da imaginação? Teria se desenvolvido e mergulhado em estudo “sério” ou teria permanecido com suas representações de três ou quatro famílias em um pequeno vilarejo? Não importa como levamos nossas vidas, acho que é inevitável que literatas modernas de alguma forma se associem com Austen: ela foi uma pioneira tão importante e é difícil dizer onde estaríamos hoje se ela nunca tivesse escrito.
Obrigada por suas reflexões, Susannah! Foi um prazer falar com você. Para todos os leitores desse blog, postarei a minha resenha do livro logo.
Mais informações sobre Susannah no site da Random House: Susannah Carson é uma candidata ao doutorado em francês na Universidade de Yale. Seus títulos anteriores incluem um M.Phil da Sorbonne Paris III, assim como Mas da Université Lyon II e San Francisco State University. Ela ministrou palestras sobre vários tópicos da literatura inglesa e francesa em Oxford, na Universidade de Glasgow, em Yale, Harvard, Concordia e na Universidade de Boston.
O link para o site de Susannah: Why Jane Austen

*****
Entrevista traduzida e gentilmente cedida por Mariana Fonseca
Vic do Jane Austen World também permitiu a tradução e publicação aqui no blog.
Vic from Jane Austen World gave us permission to translate the interview and publish it here.
****
Post relacionado

Jane Austen arruinou minha vida

Jane Austen ruined my life – Beth Pattillo
Texto de Helena Sanada (co-fundadora do Jasbra)
Sinopse
O livro tem uma leitura leve e agradável ao estilo de uma comédia romântica. O Inglês é de fácil compreensão mesmo para quem não está acostumado a ler neste idioma.
Conta a estória de Emma Grant, uma professora universitária americana, filha de um pastor, que sempre pautou sua vida nos ensinamentos paternos de boa conduta. Casada com um professor universitário teve uma reviravolta em sua vida quando se viu traída pelo marido com uma colega de trabalho.
Emma parte para a Inglaterra para curar seu coração ferido e para encontrar as cartas perdidas de Jane Austen que se ela soube se encontram em poder de uma velha viúva reclusa. Logo em sua chegada à Inglaterra ela reencontra um amigo que irá ajudá-la a percorrer os caminhos de Austen – de Steventon para Bath e Lymes Regis, cumprindo uma série de tarefas que lhe são dadas pela viúva
Sobre a autora:
O amor de Beth Pattillo por Jane Austen nasceu quando ela estudou na Universidade de London, Westfield College, por um glorioso semestre. Sua paixão rapidamente se tornou uma obsessão, nos vinte anos seguintes ela fez viagens regulares à Inglaterra. Quando não está sonhando com a vida “do outro lado do Atlântico”, Pattillo vive em Nashville, Tennessee, com seu marido e dois filhos.

Detalhes:
288 páginas
10,19 dólares
à venda na Amazon

___________________

* Helena procurou não colocar spoilers para não estragar a leitura de ninguém.

Mansfield Park e as Múmias

Acabo de ver no site da Amazon o lançamento do livro Mansfield Park and mummies. Eu já havia mencionado esse livro antes, inclusive a Vic do Jane Austen Today não sabia do livro e me agradeceu pela dica! Thanks Dear!
O título completo do livro é: MANSFIELD PARK AND MUMMIES: Monster Mayhem, Matrimony, Ancient Curses, True Love, and Other Dire Delights. Autora: Vera Nazarian
O livro custa 16,95 dólares, 568 páginas e há até uma crítica positiva no site da Amazon!
Curiosamente esse é um livro que eu gostaria de ler pois tenho muito interesse por tudo o que está relacionado ao antigo Egito. A capa está bem interessante! Bem diferente daquelas dos zumbis e dos monstros marinhos. 🙂

Post relacionado:

Mansfield Park and mummies

Como você resolve um problema como Jane Austen?

Crédito: Theo Westenberg
Como você resolve um problema como Jane Austen?
Por Deirdre Foley-Mendelssohn
(publicado no site do The New Yorker em 23 de novembro de 2009)
Ela é a perfeita garota na classe: empertigada, mas popular; recatada nos modos, mas amada pelos outros; possuidora de uma inteligência secreta. Ela me deixa verde de inveja. Ela é Jane Austen.
Como qualquer Abelha Rainha, ela tem o seu séquito de admiradores, que a imitam com devoção servil (Veja o desfile de imitadores em seu rastro, como “The Jane Austen Companion to Life”, que será lançado em breve, ou “Captain Wentworth’s Persuasion” ou o vindouro e insinuante “Pride/Prejudice: A Novel of Mr. Darcy, Elizabeth Bennet, and Their Other Loves”, que, como uma confiável fofoca de colégio, insinua escandalosamente que algumas personagens podem ter andado fazendo algumas coisas indecentes atrás das arquibancadas).
Quando eu vi pela primeira vez o sucesso de vendas “Pride and Prejudice and Zombies”, a combinação me pareceu divertidamente contraditória. Mas eu comecei a ver como ela se encaixa profundamente: o marco parece imortal. Na verdade, eles a estão ressuscitando agora mesmo numa exposição sobre Jane Austen na Morgan Library and Museum, que vai até 14 de março.
Será o seu particular equilíbrio; sua impecável retidão moral; seu decente, porém sensual vestuário cheio de laços? O que explica essa paixão, essa obsessão permanente? Bem, existem livros para isso também. Talvez o mais sério seja “A Truth Universally Acknowledged: 33 Great Writers on Why We Read Jane Austen” lançado esse mês e que traz Amy Heckerling de “As Patricinhas de Beverly Hills” ao lado de Eudora Welty, e inclui a classificação de Jay McInerney das heroínas de Austen pelo nível de atratividade, como se elas tivessem saído de “Meninas Malvadas”.
Posso dizer alguma coisa a meu favor? Infelizmente, não. Pertencendo às massas admiradoras, posso apenas repetir as palavras de E. M. Forster, que bradou “Eu sou um fã de Jane Austen e, portanto, levemente imbecil diante de tudo relacionado a Jane Austen… Eu leio e releio, com a boca aberta e a mente fechada.”
 
*****
 
Tradução de Mariana Fonseca para o Jasbra.

O que Jane Austen faria?

Parece título de livro, mas não… é um texto que a Mariana Fonseca (membro do JASBRA) traduziu de um artigo do Wall Street Journal.

O Que Jane Faria?

Como uma solteirona do século XIX serve como guia moral no mundo de hoje
por James Collins
(publicado no site do Wall Street Journal em 14 de novembro de 2009)
Jane Austen é muito divertida. Suas personagens são vívidas. O equilíbrio de suas sentenças é perfeito. Seus enredos são bastante bons – pelo menos, eles mantêm você lendo. No entanto, escrever romances brilhantes não era o objetivo principal de Jane Austen: O que era mais importante para ela era fornecer instrução moral.
Em sua essência, os livros de Austen são trabalhos morais. “Abadia de Northanger” é na verdade sobre a educação moral de Catherine Morland: Ela aprende que o mundo não funciona de acordo com os princípios de um romance gótico. Como o título indica, “Razão e Sensibilidade” é um conto moral: É a história do autocontrole de Elinor e do comodismo de Marianne. O evento central tanto em “Orgulho e Preconceito” quanto em “Emma” é a descoberta de cada heroína sobre sua própria fraqueza moral. “Mansfield Park” trata de todo tipo de questão moral, da decência no envolvimento com o teatro amador até as conseqüências do abandono do marido por um outro homem. A premissa de “Persuasão” é a de que Anne Elliot um dia sacrificou sua felicidade por cumprir o seu dever e obedecer a orientação de sua guia moral, Lady Russell. Assuntos relativos à moral não são apenas refletidos nos maiores temas dos livros, entretanto: Eles são universais. Até mesmo o menor ato ou o mais breve diálogo ou a mera descrição da maneira de vestir de uma personagem é carregado de conteúdo moral.
Os leitores de hoje tendem a apreciar Austen apesar de seu didatismo e, não, por causa dele. Ela pode ser positivamente pedante e isso é um obstáculo. O leitor contemporâneo que ama Jane Austen quase pula as partes moralistas e diz a si mesmo que elas não contam realmente. É possível ignorar esse aspecto de seu trabalho, assim como é possível discutir uma pintura religiosa sem qualquer referência à intenção religiosa do artista. Mas isso parece absurdo: Ignorar a preocupação central de uma escritora é uma estranha forma de tentar apreciá-la e entendê-la.
A questão é, então, como conciliar o moralismo de Austen com a sensibilidade moderna. Para discursar sobre esse problema, seria conveniente se pudéssemos encontrar alguém com essa sensibilidade moderna que realmente lê Austen por sua instrução moral (em adição ao prazer literário que ela proporciona). Que conveniente termos à nossa disposição alguém que se encaixa nessa descrição: eu.
Eu acho que ler Jane Austen me ajuda a elucidar escolhas éticas, a descobrir um meio de viver com integridade no mundo corrupto e até a adotar o tom e a maneira adequados ao lidar com os outros. Seu moralismo e a mentalidade moderna não estão, de fato, em oposição direta, como é tão freqüentemente suposto.
Dizer que alguém valoriza a instrução moral de Austen pode provocar ceticismo porque, afinal, ela era uma solteirona vivendo na Inglaterra provinciana há 200 anos. Mas nossos mundos não são tão diferentes. Nós vemos as personagens de Austen – vaidosas, egoístas, ingênuas, compassivas – em nossas vidas todos os dias. O tempo e a localização dela são, na verdade, uma vantagem. Em seu mundo circunscrito, os problemas da vida podem ser examinados com uma precisão mais aguçada.
Austen viveu na divisão das eras augustana do século XVIII e romântica do século XIX. No nosso tempo, quase toda canção, propaganda ou filme é baseado em princípios românticos. Não importa o quanto apreciemos as “felicidades da vida doméstica”, como Austen coloca em “Persuasão”, ainda sentimos o enorme impulso romântico para fazer alguma coisa mais heróica ou intensa. Ao invés de estarmos aproveitando um bom jantar enquanto conversamos com amigos, nós deveríamos estar lá fora forjando a consciência de nossa raça na oficina de nossa alma, ou algo assim. Eu realmente não quero forjar a consciência da minha raça, mas, ao mesmo tempo, não quero perder tudo o que o Romantismo oferece. É aí que entra Austen, pois ela é uma augustana familiarizada com o Romantismo, o que a torna mais útil do que um escritor moderno para nos ajudar a encarar o desafio romântico. Só ela pode, com credibilidade, mostrar a nós que é possível ter moderação e sentimentos profundos, bons jantares e boa poesia.
Quais são, então, os valores que Austen nos ensinaria? Palavras e frases carregadas de valor aparecem a todo momento em sua obra, freqüentemente aos montes: auto-conhecimento, generosidade, humildade, elegância, decência, constância, contentamento, bom entendimento, opinião correta, conhecimento de mundo, coração cálido, estabilidade, observação, moderação, candura, sensibilidade ao que é cordial e amável.
A instrução moral de Austen aponta para uma vida mais moral – em que “moral” se refere não apenas a princípios corretos, mas à conduta em geral. O sistema de valores de Austen pode ser tido como uma esfera com camadas. O centro poderia ser chamado de “moralidade”, a camada seguinte seria a “emoção” e, finalmente, a superfície, “conduta”. Moralidade consiste nos princípios fundamentais: auto-conhecimento, generosidade, humildade, compaixão, integridade.
A ênfase que Austen dá à ordem e ao decoro pode parecer seca e rígida. Mas qualquer um que leia “Mansfield Park” sentirá o mesmo alívio de Fanny diante da mudança da estrondosa desordem da casa de sua família em Portsmouth para a ordem da mansão. Da mesma forma, a consideração de Austen pelo autocontrole, especialmente expressa em “Razão e Sensibilidade”, pode parecer dura, mas é preciso lembrar como a autora claramente vê o sentimentalismo de Marianne com grande compaixão. Austen não está defendendo a supressão dos sentimentos – apesar de seu irrepreensível comportamento, Elinor é submetida a grandes sofrimentos e sente cada um deles profundamente. O que Austen está dizendo, como um psicólogo moderno pode recomendar, é que se deve evitar a desintegração da própria personalidade. Emoções são construídas sobre a fundação de nossa moralidade: um coração adorável, sensibilidade a tudo o que é amável. A conduta, por outro lado, tem a ver com comportamento, com o modo como trabalhamos no mundo: boa educação, maneiras suaves. Certamente ainda é necessário ter modelos de bom senso e conduta honrada expostos a nós.
Como a moralidade, a emoção e a conduta podem ajudar alguém a viver no mundo? Como deveriam ser as relações entre as pessoas e o mundo? Deve-se rejeitar o mundo inteiramente como corrupto e mercenário e hipócrita e superficial? Ou há um outro caminho, em que se podem manter a integridade e a sensibilidade, mas viver no mundo também? W. H. Auden colocou bem o problema quando escreveu:
“Será que a vida só oferece duas alternativas: ‘Você pode ser feliz, saudável, atraente, sociável, um bom amante e um bom pai, mas com a condição de que não seja curioso demais sobre a vida. Por outro lado, você pode ser sensível, consciente do que está acontecendo ao seu redor, mas, nesse caso, você não deve esperar ser feliz, ou bem sucedido no amor ou em casa com qualquer companhia. Existem dois mundos e você não pode pertencer a ambos.’”
De fato, Austen está perguntando se a vida oferece apenas as duas alternativas de “Razão e Sensibilidade” e podemos simpatizar com seu grito de desespero, pois quando o dilema é colocado da maneira como ele o faz, as duas parecem inconciliáveis.
Austen vem a nosso resgate, entretanto, visto que ela consegue se ajustar entre “Razão e Sensibilidade”, rejeitando os excessos de ambas. Sua postura agrada porque a combinação de moralidade, emoção e conduta proporciona um modo de vida que permite estar no mundo e desfrutar dos benefícios da sensibilidade também. Austen não escreve sobre boêmios e rebeldes; ela não quer mudar seu mundo – “ela não mudaria um fio de cabelo na cabeça de ninguém ou moveria um tijolo” como Virginia Woolf escreveu. Suas simpáticas personagens participam plenamente de sua sociedade e aceitam as convenções dela, e ainda têm corações e mentes perfeitamente bons. Bom senso não precisa estar em guerra com a sensibilidade.
Ironia não é apenas o modo de expressão característico de Austen: É seu modo característico de pensamento. A ironia de Austen reflete um perfeito entendimento de todos os meios pelos quais o mundo é ordinário e a crença de que, apesar de não podermos lutar contra isso, podemos, pelo menos, separamo-nos disso. Em suas sentenças irônicas, há movimento com estabilidade. Ela se move em direção ao objeto de suas críticas, e então se afasta dele, e aí proporciona um bom retrato no final. Essa movimentação rítmica serve como um ideal tanto para a aceitação quanto para a rejeição dos meios do mundo ordinário enquanto se mantém o equilíbrio.
A ironia das personagens de Austen também fornece àqueles de nós que acreditam no decoro uma forma de lidar com os hipócritas. Elinor Dashwood de “Razão e Sensibilidade” é raramente irônica, mas ela nos serve como um bom exemplo. Lembre da conversa quando o odioso John Dashwood, que havia traído a promessa feita no leito de morte patriarcal de ajudar suas meias-irmãs, sugere a Elinor que a Sra. Jennings lhes deixará uma herança. Elinor responde, “De fato, irmão, sua preocupação pelo nosso bem-estar e prosperidade o levam muito longe”. Faltam a John Dashwood generosidade e integridade. Elinor o insulta, mas ela o faz da maneira mais cortês possível.
Se alguém quiser argumentar que a moralidade de Austen é útil para uma pessoa que vive nos dias de hoje, precisará lidar com três casos difíceis. Primeiro, há a objeção de Fanny ao teatro amador em “Mansfield Park”. Então, em “Razão e Sensibilidade” há a recusa de Elinor a lutar pelo homem que ela ama, Edward Ferrars, quando ela sabe que ele está oficialmente comprometido com Lucy Steele, uma mulher que “unia a insinceridade à ignorância”. Finalmente, há o reconhecimento de Anne Eliot em “Persuasão” de que ela fez a coisa certa seguindo os ditames de Lady Russel para recusar o Capitão Wentworth, mesmo que isso tenha levado a anos de penúria sem amor para ambos. Nos três casos, Austen defende uma moralidade que parece quase absurda em sua rigidez. Qual é o grande problema com o teatro? Sustentar o princípio de honra vale a pena quando ele resulta em relacionamentos ruins e arrependimento? E que tipo de sistema de valores coloca a obediência antes do amor?
Tavez a rigidez de Austen seja muito antiquada, mas qualquer um pode encontrar mérito nos conceitos de honra, dever e obediência. Essas cordas ficaram tão frouxas que não há nada errado em apertá-las com uma leitura indulgente desse aspecto de Austen; elas afrouxarão novamente logo.
Para encerrar rapidamente os casos de Elinor e Anne, direi apenas que suas ações devem ser vistas no contexto de suas próprias crenças sinceras. A lição é de que às vezes é certo sacrificar alguma coisa que queremos pelo bem de nossa consciência.
Com Fanny Price quase parece que Austen decidiu criar uma personagem que não tem nem boas maneiras nem personalidade, mas é simplesmente moralidade crua. Ela é famosa por desagradar os leitores, mas suas ações e atitudes podem ser justificadas. Apesar de toda sua timidez, ela tem coragem de verdade. Ela se opõe aos outros quando eles querem que ela participe da peça e ela até resiste ao terrível ataque de fúria de Sir Thomas quando ela recusa a proposta de casamento de Crawford. É raramente reconhecido que Fanny está correta. O perigo da encenação é que ela deixa jovens homens e mulheres juntos em um ambiente com grande carga sexual e, de fato, eles realmente acabam levados ao resultado que Fanny temia: Henry Crawford e Maria Rushworth escapam juntos. Então Fanny não está simplesmente aderindo a uma regra arbitrária e tola sobre a decência ou não do teatro amador, ela está tentando evitar uma condição que realmente termina causando dor de verdade.
Os princípios de Jane Austen são de valor transcendente, eles não são “pedantes” e seus romances ilustram e defendem um modo de viver no mundo que é ético, sensível e prático. O melhor representante para o mérito da aproximação de Austen da vida é, entretanto, a própria Austen. O reflexo da primeira sentença de “Orgulho e Preconceito” pode ser vislumbrado sob ela. “É uma verdade universalmente reconhecida que uma mulher solteira com pouco dinheiro deve estar à procura de um marido.” Não há nada irônico nisso: No tempo de Austen essa realmente era uma verdade universal. A condição de Austen como uma mulher solteira sem dinheiro e já não tão jovem era, como ela coloca na descrição da Srta. Bates em “Emma”, estar “na pior situação do mundo para ter a simpatia das pessoas”. Como essa frase indica, entretanto, Austen era capaz de olhar para a própria situação friamente, claramente e sem auto-comiseração. Os romances carregam a estabilidade, o equilíbrio, a indulgência e o humor de sua criadora. Ao lê-los, a pessoa é envolvida na personalidade dela, a personalidade que podemos desejar adotar para nós mesmos, pois parece esclarecer muitos dos costumes, problemas e outras coisas da vida

____________________________
James Collins é escritor e editor, cujo primeiro romance, “Beginner’s Greek”, foi lançado esse ano. Esse texto foi adaptado de “A Truth Universally Acknowledged”, uma antologia de ensaios sobre o porquê de lermos Jane Austen, publicada no início dessa semana pela Random House.

Sorteio de A Abadia de Northanger

Pessoal, para incentivar a participação de todos no clube de leitura do Jasbra, faremos um sorteio do livro A Abadia de Northanger para aqueles que não possuem o livro.

Dessa vez, o sorteio será mais simples: é só deixar o nome completo na seção de comentários abaixo. Farei o sorteio manualmente no sábado 28/11/2009. Boa Sorte!! Só tem uma condição: participar das discussões do Jasbra Groups.

Fiquem atentos às datas:

DEZEMBRO
06 – Capítulos 01 a 04
13 – Capítulos 05 a 08
20 – Capítulos 09 a 12
27 – Capítulos 13 a 16
JANEIRO
03 – Capítulos 17 a 20
10 – Capítulos 21 a 24
17 – Capítulos 25 a 28
24 – Capítulos 29 a 31
31 – Discussão final

Post relacionado:

Jasbra Clube de Leitura