Gazeta de Longbourn Apresenta: A Truth Universally Acknowledged

A erudite collection of essays considers Jane Austen’s lasting influence and popularity in literary circles as well as her work’s reflection of humanity, in an anthology that includes pieces by such writers as Virginia Woolf, C. S. Lewis and E. M. Forster.

Fazia tempo que eu andava atrás desse livro, acho que praticamente desde de sua publicação, ainda que eu tenha demorado um bocado para consegui-lo… A sinopse pode ser resumida pelo subtítulo: trinta e três ensaios de autores consagrados e outros menos conhecidos (pelo menos aqui no Brasil) falando sobre Jane Austen e sua obra.

Gosto muito de crítica literária e tenho vários livros de ensaio nesse estilo – e não apenas sobre Jane Austen. Nem sempre, contudo, são volumes que acrescentam alguma coisa ao nosso conhecimento – há muitos volumes que servem mais como curiosidade biográfica. A Truth Universally Acknowledged foi assim uma grata surpresa, não apenas pela qualidade dos debates a que se propõem os autores, mas também pela regularidade dos ensaios, que são todos muito bons ou excelentes.

Há nomes que são conhecidos da crítica, como Harold Bloom e Virginia Woolf e outros que me pegaram desprevenida, como C. S. Lewis, o autor de As Crônicas de Nárnia. Há reflexões e novas interpretações de personagens e situações presentes em todos romances (o que é também algo surpreendente, visto que na maioria das vezes povo só se concentra em Orgulho e Preconceito), e também relatos autobiográficos que revelam a importância de Austen na vida desses autores. Fala-se dos livros, mas também dos filmes e séries, e dos leitores e fãs.

Eu já conhecia alguns dos ensaios presentes na coletânea de outras leituras – o capítulo de Bloom sobre Persuasão, por exemplo, está em O Cânone Ocidental. Creio que com alguma paciência seja possível encontrar a maioria dos ensaios em outros livros ou até na própria internet. A idéia de compilá-los, contudo, num único lugar, certamente ajuda na hora de buscar um volume de referência. E A Truth Universally Acknowledged é uma obra de referência por excelência, que todo janeite tem de ter na biblioteca para ler e reler sempre que possível.


A Coruja

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Sobre Razão e Sensibilidade

O texto a seguir faz parte do ensaio intitulado On Sense and Sensibility, do crítico inglês Ian Watt (1917-1999), que também foi professor da Universidade da Califórnia e da Universidade de Stanford, ambas nos EUA. O ensaio pode ser lido na íntegra no livro A Truth Universally Acknowledged – 33 Great Writers on Why We Read Jane Austen, organizado por Susannah Carson.



Sobre Razão e Sensibilidade



O principal conflito em Razão e Sensibilidade é, sem sombra de dúvida, tão distante de nós quanto a sociedade em que é retratado. Muitas admiradoras de Jane Austen leem seus romances como uma maneira de fugir para uma espécie de nirvana inglês, mas encontram essa fuga em suas páginas somente porque, como E.M. Forster escreveu, a devota “Janeite” “como todas as frequentadoras de igrejas… dificilmente entende o que está sendo dito”.


Uma apreciação do que Jane Austen está realmente dizendo obviamente envolve, em primeiro lugar, algum conhecimento das convenções sociais, literárias e linguísticas de sua época.


Não podemos, por exemplo, enxergar os personagens claramente até fazermos um reconhecimento da ordem social onde estão enraizados. Até mesmo depois de terem decaído socialmente as Dashwoods continuam a manter duas criadas e um empregado; e quando Jane Austen se refere ao “trabalho” de Elinor e Marianne, ela se refere apenas à costura. Mas não devemos presumir que as irmãs Dashwood sentiam pena de si mesmas por serem pobres – e elas realmente eram segundo os padrões de sua classe – o que hoje em dia nós poderíamos julgar como indolência ou frivolidade fazia parte, naquela época, de um código de lazer universalmente aceito. Da mesma forma seria um equívoco considerar Edward Ferrars como um parasita irresponsável; no reinado de George III, jovens cavalheiros com expectativas de receber heranças vultosas não precisavam trabalhar. Quando escolhiam uma profissão, tratava-se apenas de uma convenção social ou de prestígio; assim, o interesse de Ferrars com relação a sua vocação mereceria maior crédito do que teria hoje em dia. Edward Ferrars também não pode ser considerado hipócrita por ter decidido pela vida religiosa: seu baixo grau de comprometimento religioso era, certamente, tão grande, se é que não era maior, do que normalmente era encontrado no clero anglicano daquele período.


Mesmo o código de boas maneiras no período da Regência tem ligação com a nossa interpretação dos personagens e do enredo. Quando Elinor é apresentada como Senhorita Dashwood, por exemplo, não é porque o narrador está sendo formal ao omitir seu primeiro nome, mas somente porque “Senhorita” juntamente com o sobrenome era a maneira correta de denominar a irmã mais velha. Nem Elinor deve ser considerada uma falsa puritana por presumir que, pelo fato de Willoughby ter “se dirigido à sua irmã pelo nome de batismo”, ambos estariam comprometidos. Isto era uma dedução correta na Inglaterra formal de Jane Austen, e a falha da Sra. Dashwood para esclarecer a situação foi, ela iria admitir mais tarde, uma séria falta em seus deveres de mãe.


A forma de Razão e Sensibilidade não é particularmente remota para nós, visto que a comédia doméstica é um gênero literário caracteristicamente inglês, embora um tanto quanto fora de moda atualmente. O perigo aqui consiste no estilo suave do romance que pode nos levar a subestimar a sua verdadeira intenção. Jane Austen restringiu o seu método conscientemente. Ela sempre “manteve seu próprio estilo”, um estilo que, como ela mesma certa vez descreveu, “lidava com pinturas da vida doméstica nas aldeias do campo”; e cada uma dessas pinturas eram realizadas “em um pequeno pedaço (duas polegadas de largura) de marfim onde trabalho com um pincel fino, que produz um pequeno efeito depois de muito labor”. Mas o efeito definitivamente não é tão pequeno, ao menos não para o tipo de leitor que ela divertidamente imaginou em uma rima (uma paródia de Sir Walter Scott): “I do not write for such dull elves/As have not a great deal of ingenuity themselves”. No entanto, não precisamos ser muito ingênuos para perceber que todas, ou quase todas, as grandes questões da vida humana aparecem no palco restrito de Jane Austen. Na verdade, é tão somente o palco de trivialidades domésticas; mas esse, apesar de tudo, é o único palco onde muitos de nós provavelmente irá encontrá-las.


O palco de Jane Austen é, portanto, restrito; é, também, dedicado ao entretenimento. Podemos nos equivocar ao tentar identificar as grandes questões da vida em suas vestes humorísticas, a menos que estejamos preparados para ver o aspecto cômico como entretenimento, que pode ser sério tanto no âmbito intelectual como no moral. A comédia de Jane Austen pertence à categoria geral que, no ensaio On the Artificial Comedy of the Past Century (1822), Charles Lamb chamou “Comédia de Costumes”, referindo-se à comédia da época da Restauração e seus sucessores. Razão e Sensibilidade é certamente uma forma narrativa que Meredith chamou de “Alta Comédia” – o tipo de comédia que provoca uma “risada reflexiva” a respeito da fraqueza, estupidez e afetação humanas, geralmente apresentadas em suas formas mais sofisticadas. Nossa atitude com relação a tal comédia deve ser apropriadamente sofisticada e reflexiva; devemos tentar ver todos os personagens de maneira suficientemente objetiva para sermos capazes de construir, a partir de suas estupidezes e erros, um padrão de normas positivas das quais os personagens se desviaram.


Atualmente não estamos muito acostumados a perceber normas universais naquilo que nós lemos: em parte porque há pouca concordância sobre padrões intelectuais, morais e sociais, e em parte porque tendemos a ver a vida e, por conseguinte, a literatura, meramente em termos de experiência pessoal. Os próprios padrões de Jane Austen – sempre presentes em seu uso de termos abstratos como “razão”, “civilidade”, “respeitabilidade” e “gosto” – eram, como aqueles de sua era, muito mais absolutos; e, como uma romancista, ela apresentou todos os seus personagens em termos de suas relações com um determinado código de valores. Segue-se que nossa atitude com relação aos seus personagens e suas ações estariam bastante separados, tanto emocionalmente como intelectualmente. Não devemos nos prender muito ao destino das duas heroínas de Jane Austen a ponto de ficarmos cegos ao padrão geral de valores presente no romance; se restringirmos toda nossa atenção no que vai acontecer com Elinor e Marianne, boa parte do romance parecerá redundante.


A pista mais evidente dentro do esquema de valores que subjazem em Razão e Sensibilidade é a sua linguagem. Jane Austen nunca superou, e talvez nunca tenha igualado, a força e o brilhantismo das ironias verbais em cenas como as de John Dashwood e sua esposa discutindo os últimos desejos de seu pai no leito de morte, ou o grande jantar onde as Dashwoods divertem os Middletons, e onde “nenhuma pobreza de qualquer espécie, exceto a da conversa, surgiu”. Estas ironias frequentemente dependem do poder dos termos abstratos como, por exemplo, quando Elinor sorri ao ver a Sra. Ferrars e sua filha sendo agradáveis com Lucy Steele “a quem, entre todas as outras, se soubessem o que Elinor sabia, teriam o maior empenho em mortificar; enquanto ela mesma não tinha poder para derrotá-las, era o alvo preferido de ambas”. Mark Schorer observou que “não há senão brutalidades verbais” nos romances de Jane Austen. As brutalidades não são gratuitas; elas são os meios através dos quais Jane Austen usa para nos chocar ao nos depararmos com a disparidade entre normas apropriadas de comportamento e as verdades do comportamento humano que, nesse caso, nos deixam chocados ao ver a crueldade que subjaz o orgulho social.


A maneira de falar dos personagens é um meio não somente de descrição psicológica, mas de situar cada indivíduo no esquema geral de Jane Austen. A pretensa ignorância de Lucy Steele, não é tão grosseira quanto a lamentável vulgaridade de sua irmã; mas elas são, todavia, os meios através dos quais as irmãs Dashwoods e o leitor, podem diagnosticar a manipulação astuta e inescrupulosa de Lucy, e de julgá-la em termos intelectuais, sociais e morais. Igualmente, o claro desprezo de Marianne por clichês é um sinal de sua genuína racionalidade assim como de sua sensibilidade verbal; e devemos, por conseguinte, balancear seus lapsos no contexto das ocasionais extravagâncias convencionais da obra, e do genuíno poder intelectual sugerido pela força de sua linguagem em determinados momentos, como quando depois da deserção de Willoughby, onde Marianne exclama para Elinor: “Os Middletons e os Palmers – como vou enfrentar sua pena?”


As próprias palavras do título da obra pedem alguma explicação. Na aplicação moderna, Razão e Sensibilidade pode ser parafraseado mais ou menos como “Senso Comum e Suscetibilidade”. O primeiro crítico da obra no The British Critic interpretou suficientemente bem: “o objetivo da obra é representar as consequências a partir da maneira como conduzimos a vida, com um discreto bom senso de um lado, e uma suscetibilidade bastante refinada e excessiva de outro”. Entre os dois termos há ainda tradições históricas e literárias complexas que nos ajudam a entender por que Jane Austen considerou o problema importante e por que apresentou o mesmo desta maneira.


Há mais ou menos quarenta anos, T. S. Eliot deu bastante importância para a frase “a dissociação da sensibilidade”, e, através dela, à ideia de que desde o fim da escola metafísica de Donne e Herbert a poesia inglesa sofreu com um crescente divórcio entre sentimento e intelecto. O próprio termo “sensibilidade”, no entanto, é por si só um produto do processo que ele deplora; sendo que esse processo tem muito que ver, não apenas com o background de Razão e Sensibilidade, mas com o desenvolvimento do romance em geral.


No século dezessete, sem dúvida pelo fato de a Renascença ter começado a minar a ordem tradicional do ponto de vista social, intelectual e religioso do homem, os filósofos ficaram mais preocupados em discutir se o homem é um ser completamente auto-centrado e que busca o conhecimento. Hobbes afirmou que sim, e isso pareceu ser uma possível consequência da teoria de Locke sobre a tabula rasa, a noção de que ao nascer o indivíduo não apresenta propensões inatas, e que seu ser moral e social deve ser considerado meramente como o resultado das impressões inscritas pelo ambiente externo na “lousa limpa” de sua mente durante o processo de crescimento. Como consequência, no século dezoito deu-se muita atenção para o problema de como as sensações na mente do homem estavam conectadas com as pessoas e com o mundo exterior; e visto que essas sensações envolviam sentimentos e o intelecto, deu-se muita atenção ao processo de identificação emocional, ou simpatia. Um grupo muito famoso de filósofos, liderado por Lord Shaftesbury e Francis Hutchenson, sustentavam que Hobbes e Locke estavam errados, e que o homem era naturalmente benevolente; que possuía um senso moral inato, no sentido de uma faculdade ética específica, e que essa faculdade guiava espontaneamente o indivíduo a satisfazer seus impulsos de bondade compassiva através de suas relações pessoais.


Esta doutrina da benevolência natural e do senso moral inato foi adotada por muitos escritores do século dezoito. Tal doutrina tinha importantes implicações políticas: se o homem era naturalmente bom, então a sociedade devia ser um erro, e essa ideia levou em direção a Rousseau e à Revolução Francesa. A revolta contra Hobbes teve outras consequências literárias. Os impulsos extravagantes do homem obviamente incluem as sensações de prazer imaginativo e estético; estes também eram sentimentos altruístas e, como resultado, um intenso amor tanto da natureza como da arte, de certa forma, tornaram-se indicadores da superioridade moral do indivíduo em geral. Eventualmente, com o movimento romântico, “sensibilidade” tornou-se um dos termos que refletia a mudança radical na visão da natureza essencial do homem ao incorporar uma ênfase historicamente nova no domínio dos sentimentos e da imaginação, em oposição àquela da razão, da vontade e da realidade.


O principal alvo de Jane Austen era uma das vertentes literárias da doutrina da benevolência – o romance sentimental. A sua ênfase mais característica era a “lágrima compassiva”. Hobbes afirmava que gostamos dos infortúnios dos outros; mas em Man of Feeling (1771), Henry Mackenzie identificou-se tanto com os sentimentos dos outros que passou a vida inteira lamentando por eles – e assim o fizeram quase duas gerações de heróis e heroínas. A palavra “sentimental”, como no título de The Sentimental Journey (1768), de Sterne, era usada em um sentido totalmente favorável; assim como “sensibilidade”, denotava uma forte capacidade para a identificação compassiva; mas desde que a principal forma de ficção durante as últimas décadas do século dezoito começou a relacionar intensas reações emocionais a situações, reações que demonstravam a profundidade da “sensibilidade” dos personagens, os romances partidários da sensibilidade inevitavelmente passaram a ser “sentimentais” no sentido moderno de “mostrar sentimentos em excesso em decorrência das exigências de cada situação”.


Muitos dos escritos da juventude de Jane Austen eram paródias da ficção sentimental popular da época, e Razão e Sensibilidade contém algumas evidências de que foi originalmente influenciado por um impulso primariamente satírico, em oposição ao romance. A qualidade da sensibilidade de Marianne em geral é mostrada pela intensidade de seu sentimento pela poesia e pela paisagem. Ela se regozija ao afirmar que não ama Edward Ferrars, por exemplo, ao escutar sua leitura de Cowper, porque “partiria meu coração se tivesse que amá-lo, ouvi-lo ler com tão pouca sensibilidade”. Mais tarde, Jane Austen claramente faz uma paródia das reações sentimentais da heroína quando vê lugares que a fazem lembrar do amor perdido ao escrever: “em tais momentos de preciosa e inestimável tristeza, [Marianne] regozijou-se com lágrimas de angústia por estar em Cleveland”.


No entanto, na maior parte do tempo, Jane Austen leva Marianne mais a sério, e faz a partir da personagem um estudo de uma pessoa que vive de acordo com os princípios gerais do Senso Moral dos filósofos, com sua ideia de senso ético inato e espontâneo. Quando, por exemplo, Elinor a reprova por aceitar o cavalo de Willoughby, Marianne responde: “se realmente existiu algo impróprio no que eu fiz, eu teria sentido isso na hora, pois sempre sabemos quando estamos agindo errado, e com tal convicção eu não poderia sentir nenhum prazer”.


Jane Austen, é claro, não concorda. Uma escola mais tradicional de moralistas a ensinou que precisamos tomar cuidado com o nosso julgamento moral e com a nossa consciência, visto que os mesmos podem ser influenciados pelos nossos impulsos de auto-respeito; mesmo o orgulho na sensibilidade de alguém pode ser uma forma de egoísmo. A crítica é encontrada em uma de suas primeiras paródias Love and Freindship, onde a heroína Laura orgulhosamente confessa que “uma sensibilidade muito trêmula para cada aflição de meus amigos, minha atenção e cuidado para cada aflição minha, foram minhas únicas faltas, se assim puder ser chamada”. A auto-aprovação diante da suscetibilidade pelas aflições dos outros era visível tanto nos filósofos do Senso Moral quanto em seus análogos literários, os romancistas sentimentais: Sterne, por exemplo, orgulhosamente exclamou: “Louvado seja Deus pela minha sensibilidade!” Jane Austen, por outro lado, chama-nos a atenção para a indulgência egoísta de Marianne pelos seus próprios sofrimentos que faz dela uma insensível para com os sentimentos de Elinor. E a crítica vai mais longe, pois a narrativa mostra tal indulgência resultando em uma exploração parasítica dos outros. Marianne força Elinor a tomar conta de todas as tarefas desagradáveis da vida prática, enquanto ao mesmo tempo desdenha do firme autocontrole da irmã, pois isso demonstraria a inferioridade de sua sensibilidade.


Os sentidos da palavra “razão” na obra são variados e ambíguos. A razão de Elinor, por exemplo, obviamente inclui um cuidado com a realidade econômica; mas logo fica claro que não são todos os tipos de “razão” econômica que são louváveis. Elinor, por exemplo, deu crédito às irmãs Steels pelo fato de apresentarem “uma certa razão ao perceber a constante e ajuizada atenção com que se esforçavam para serem agradáveis para Lady Middleton”. Devemos, no entanto, abandonar qualquer tentativa de enxergar o livro como uma oposição entre razão e sensibilidade; ao invés disso, devemos entender que Jane Austen exige de nós distinções muito mais complexas entre os dois termos.

Why Jane Austen?

Nossa mascotinha querida Mariana Fosenca, nos orgulhou muito ao ter seu relato publicado no site da Susannah Carson, autora do livros: A Truth Universally Acknowledged: 33 Great Writers on Why We Read Jane Austen   e   A truth universally acknowledged – 33 reasons why we can’t stop reading Jane Austen já mencionados aqui no blog!
O depoimento de Mariana chama-se: Why Jane Austen? A Brazilian’s View – By Mariana Fonseca está em inglês.
Como a moça é bastante versátil, disponibilizou uma versão em português em seu blog: My sun kissed trampoline
Parabéns Mariana!

Lançamentos para 2010

Amigos, favor pedir aos familiares para esconderem os cartões de crédito, pois já estão previstos três livros a respeito de Jane para o ano que vem:
A truth universally acknowledged – 33 reasons why we can’t stop reading Jane Austen (320 páginas) – previsão de lançamento: 03 de junho de 2010 (Editora Particular Books). Livro editado por Susannah Carson a mesma editora de A Truth Universally Acknowledged: 33 Great Writers on Why We Read Jane Austen   já mencionado aqui no blog e publiquei também uma tradução da entrevista com Susannah Carson.

The Jane Austen Companion to Life (64 páginas), previsão de lançamento: março de 2010 (Editora Sourcebooks)
I was Jane Austen best friend (320 páginas), previsão de lançamento: 05 de março de 2010. Autor: Cora Harrison. Ilustrações de Susan Hellard. Editora: Children’s Books

Entrevista com Susannah Carson

Há alguns dias fiz um post sobre o lançamento do livro de Susannah Carson aqui no blog, hoje apresento uma entrevista com a autora.

“A Truth Universally Acknowledged: 33 Great Writers on Why We Read Jane Austen” (“Uma Verdade Universalmente Conhecida: 33 Grandes Escritores falam sobre Porque Lemos Jane Austen”), editado por Susannah Carson: Uma Entrevista

por Vic (Jane Austen World)*

Eu li essas palavras na orelha da excelente nova compilação “A Truth Universally Acknowledged: 33 Great Writers on Why We Read Jane Austen”, editada por Susannah Carson, com prefácio de Harold Bloom, “Para muitos de nós, um romance de Jane Austen é muito mais do que o epítome de uma grande leitura. É um prazer e um conforto, um desafio e uma recompensa, e talvez até uma obsessão.” Que verdade. Susannah Carson selecionou ensaios dos últimos cem anos de críticas e justapôs algumas peças de ensaístas e romancistas atuais em um livro que eu descobri ser mais satisfatório do que uma aula de mestrado sobre Jane Austen. Considero essa entrevista com Susannah uma das melhores postagens desse blog (Jane Austen World). Aproveitem!
P: Quais eram os seus critérios na escolha dos ensaios? Poderia nos dar um exemplo de um escritor cujo ensaio você tenha considerado, a princípio, mas depois decidido não incluir na coleção?
R: Foram escritos tantos ensaios excelentes sobre Jane Austen! A maioria se empenha em esclarecer algum aspecto dos romances – o que, quando, como, etc. – e esses podem ser extraordinariamente úteis. Mas também há outros ensaios que lidam com o que é, na minha opinião, a maior questão: o porquê. Não, por exemplo, como podemos entender o relacionamento de Darcy e Elizabeth nos termos de relações entre gêneros, técnica narrativa e instituições culturais, mas por que o amor deles continua a nos comover tanto? David Lodge escreveu um ensaio intitulado “Jane Austen’s Novels: Form and Structure” (Romances de Jane Austen: Forma e Estrutura). Esse é talvez o relato mais agudo e elegante sobre como os romances funcionam. Mas ele responde a questão do “como” e então eu decidi incluir seu ensaio “Reading and Rereading Emma” (“Lendo e Relendo Emma”) no lugar do primeiro, pois nesse ele trata do essencial “porquê”.
P: Você tinha uma ordem em mente quando pôs os ensaios em ordem e por quê?
R: Alguns dos ensaios são sobre um romance, alguns são sobre um casal ou um pouco dos trabalhos dela e alguns são sobre tudo o que ela escreveu desde a juvenilia até seus romances inacabados e suas cartas. No final, nós decidimos organizá-los livremente: ensaios sobre um só romance aparecem em série e são separados por dois ou três ensaios mais gerais que são reunidos por tema (como moralidade, filmes). Quando eu os reli nessa ordem, fiquei contente em descobrir que os mesmos pensamentos iriam surgir e desaparecer em pequenas ondas ao longo de todo o livro. O vitalismo de Austen, por exemplo: no início, Eudora Welty escreve que os romances de Jane Austen são sobre “a própria vida”; no meio, mais tarde, Amy Heckerling aponta que todo mundo está “OCUPADO” e Eva Brann observa que as heroínas são cheias de “vivacidade” e, no penúltimo ensaio, Virginia Woolf escuta “o som de risos”.
P: Você concorda com a observação de Benjamin Nugent de que um romance de Jane Austen é a “a suprema tagarelice de um filme francês” porque em essência nada acontece exceto uma série de conversas entre as personagens?
R: Eu concordo. O uso de diálogos por Austen é complexo – ela os utiliza para esboçar a personalidade, mas (como Diane Johnson aponta em seu ensaio) ela raramente os usa para desenvolver o enredo. E ainda assim, ao mesmo tempo, a maior parte das cenas de clímax são apenas sobre palavras – seu uso e abuso. Em Orgulho e Preconceito, é a hilária proposta mal formulada de Darcy; em Mansfield Park, é o drama relativo ao teatro, ou o debate sobre encenar ou não Votos de Amantes; em Emma, é o menosprezo de Emma pela Srta. Bates durante o piquenique em Box Hill; em Persuasão é a carta de Wentworth escrita em contraponto à conversa que ele escuta entre Anne e Harville. Então as palavras estão no centro de qualquer que seja a sua interpretação errada ou correta, qualquer que seja a lição a ser aprendida durante o romance. Descobrir como as palavras funcionam em um ambiente social é, como Ben tão astutamente aponta, parte de um eterno processo de amadurecimento.
P: James Collins fez várias declarações fortes, dizendo que Jane Austen o ajudou a esclarecer escolhas éticas e descobrir uma forma de viver sua vida com integridade. Uma das razões pelas quais ela tem credibilidade aos olhos dele é a sua total falta de sentimentalidade. C. S. Lewis comenta sobre a moralidade radical de Austen e Amy Bloom pinta uma imagem de uma mulher que vê o mundo a sua volta através de uma transparente placa de vidro. Esses autores me ajudaram a esclarecer por que eu sou tão atraída por Jane Austen. Na sua introdução você espera que o leitor formule uma resposta para a questão: por que você lê Jane Austen? Eu vou reformular a sua pergunta: qual foi a sua razão para montar esse livro e por que você é atraída por Jane Austen?
R: Parece haver uma suspeita sussurrada em nossa cultura de que a Leitura está morta – de que nós dificilmente lemos alguma coisa e, quando o fazemos, não estamos realmente lendo. Felizmente isso não é verdade, mas o sublime Robertson Davies estava certamente atormentado por esse medo quando ele emitiu seu apelo: “O que peço é uma multidão de células revolucionárias, cada uma composta por um ser humano inteligente e um livro de valor substancial, iniciando o imensamente sério trabalho da exploração pessoal através do prazer pessoal.”
Essa coleção de ensaios visa ajudar as pessoas a descobrir como apreciar de verdade a leitura. Existem diferentes tipos de leitura. Temos a leve leitura de um spin-off de Jane Austen e isso proporciona uma certa diversão. E então temos a rica leitura de um romance de Jane Austen e isso proporciona não apenas um prazer imediato, mas uma compreensão profunda de como nossos corações e mentes funcionam. Pensamos freqüentemente na leitura como algo separado do ato de viver, mas com a melhor literatura – com os romances de Austen – a leitura se torna tão grandiosa, se não mais grandiosa, do que as outras partes e atos da vida. Então eu leio, e eu leio Austen, não apenas porque isso me ensina a pensar, imaginar e narrar, mas também porque é uma busca criticamente importante e profundamente indulgente.
P: Conte-nos um pouco sobre você! A sua breve biografia na orelha do livro me intriga. Diferente da Jane provinciana, cuja vida foi bastante circunscrita, você é verdadeiramente uma mulher do mundo.
R: Sim! Isso mostra que a obra de Austen continua a ter alguma coisa a dizer às mulheres modernas que são tão diferentes dela em todo tipo de detalhe cotidiano. Eu comecei praticamente no mesmo lugar, entretanto; minhas primeiras memórias datam dos anos em que minha família viveu em Hockwold-cum-Wilton, um pequeno vilarejo em East Anglia. Nós voltamos para o Napa Valley quando eu ainda era pequena e eu cresci no meio rural onde eu podia caminhar pelo campo para visitar amigos. A situação mudou quando eu fui embora para a faculdade, pois me vi cada vez mais viciada em livros: primeiro filosofia, depois literatura. Enquanto eu estava escrevendo uma tese para a San Francisco State University sobre Madame de Lafayette’s La Princesse de Clèves, eu fiquei completamente apaixonada por romances franceses do século XVII. Para ler esses romances raros com todo o seu mofo original, eu me mudei para a França. Depois de um mestrado em Lyon II, eu fiz um D.E.A (ou M.Phil) em Paris III. Em Paris, eu vivi em um apartamento sobre uma chocolateria na Ile St. Louis e passei pela Notre Dame todos os dias no meu caminho para a aula na Sorbonne. Então eu me mudei para New Haven para buscar um doutorado em Yale e acabei de voltar a São Francisco para finalizar uma dissertação sobre o perigo nos romances franceses do Antigo Regime.
Como teria sido a vida de Jane Austen se ela tivesse vivido, lido e escrito nos dias de hoje? Teria ela viajado pelo mundo por sua arte ou teria ficado contente com estacionários vôos da imaginação? Teria se desenvolvido e mergulhado em estudo “sério” ou teria permanecido com suas representações de três ou quatro famílias em um pequeno vilarejo? Não importa como levamos nossas vidas, acho que é inevitável que literatas modernas de alguma forma se associem com Austen: ela foi uma pioneira tão importante e é difícil dizer onde estaríamos hoje se ela nunca tivesse escrito.
Obrigada por suas reflexões, Susannah! Foi um prazer falar com você. Para todos os leitores desse blog, postarei a minha resenha do livro logo.
Mais informações sobre Susannah no site da Random House: Susannah Carson é uma candidata ao doutorado em francês na Universidade de Yale. Seus títulos anteriores incluem um M.Phil da Sorbonne Paris III, assim como Mas da Université Lyon II e San Francisco State University. Ela ministrou palestras sobre vários tópicos da literatura inglesa e francesa em Oxford, na Universidade de Glasgow, em Yale, Harvard, Concordia e na Universidade de Boston.
O link para o site de Susannah: Why Jane Austen

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Entrevista traduzida e gentilmente cedida por Mariana Fonseca
Vic do Jane Austen World também permitiu a tradução e publicação aqui no blog.
Vic from Jane Austen World gave us permission to translate the interview and publish it here.
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