Entrevista com Susannah Carson

Há alguns dias fiz um post sobre o lançamento do livro de Susannah Carson aqui no blog, hoje apresento uma entrevista com a autora.

“A Truth Universally Acknowledged: 33 Great Writers on Why We Read Jane Austen” (“Uma Verdade Universalmente Conhecida: 33 Grandes Escritores falam sobre Porque Lemos Jane Austen”), editado por Susannah Carson: Uma Entrevista

por Vic (Jane Austen World)*

Eu li essas palavras na orelha da excelente nova compilação “A Truth Universally Acknowledged: 33 Great Writers on Why We Read Jane Austen”, editada por Susannah Carson, com prefácio de Harold Bloom, “Para muitos de nós, um romance de Jane Austen é muito mais do que o epítome de uma grande leitura. É um prazer e um conforto, um desafio e uma recompensa, e talvez até uma obsessão.” Que verdade. Susannah Carson selecionou ensaios dos últimos cem anos de críticas e justapôs algumas peças de ensaístas e romancistas atuais em um livro que eu descobri ser mais satisfatório do que uma aula de mestrado sobre Jane Austen. Considero essa entrevista com Susannah uma das melhores postagens desse blog (Jane Austen World). Aproveitem!
P: Quais eram os seus critérios na escolha dos ensaios? Poderia nos dar um exemplo de um escritor cujo ensaio você tenha considerado, a princípio, mas depois decidido não incluir na coleção?
R: Foram escritos tantos ensaios excelentes sobre Jane Austen! A maioria se empenha em esclarecer algum aspecto dos romances – o que, quando, como, etc. – e esses podem ser extraordinariamente úteis. Mas também há outros ensaios que lidam com o que é, na minha opinião, a maior questão: o porquê. Não, por exemplo, como podemos entender o relacionamento de Darcy e Elizabeth nos termos de relações entre gêneros, técnica narrativa e instituições culturais, mas por que o amor deles continua a nos comover tanto? David Lodge escreveu um ensaio intitulado “Jane Austen’s Novels: Form and Structure” (Romances de Jane Austen: Forma e Estrutura). Esse é talvez o relato mais agudo e elegante sobre como os romances funcionam. Mas ele responde a questão do “como” e então eu decidi incluir seu ensaio “Reading and Rereading Emma” (“Lendo e Relendo Emma”) no lugar do primeiro, pois nesse ele trata do essencial “porquê”.
P: Você tinha uma ordem em mente quando pôs os ensaios em ordem e por quê?
R: Alguns dos ensaios são sobre um romance, alguns são sobre um casal ou um pouco dos trabalhos dela e alguns são sobre tudo o que ela escreveu desde a juvenilia até seus romances inacabados e suas cartas. No final, nós decidimos organizá-los livremente: ensaios sobre um só romance aparecem em série e são separados por dois ou três ensaios mais gerais que são reunidos por tema (como moralidade, filmes). Quando eu os reli nessa ordem, fiquei contente em descobrir que os mesmos pensamentos iriam surgir e desaparecer em pequenas ondas ao longo de todo o livro. O vitalismo de Austen, por exemplo: no início, Eudora Welty escreve que os romances de Jane Austen são sobre “a própria vida”; no meio, mais tarde, Amy Heckerling aponta que todo mundo está “OCUPADO” e Eva Brann observa que as heroínas são cheias de “vivacidade” e, no penúltimo ensaio, Virginia Woolf escuta “o som de risos”.
P: Você concorda com a observação de Benjamin Nugent de que um romance de Jane Austen é a “a suprema tagarelice de um filme francês” porque em essência nada acontece exceto uma série de conversas entre as personagens?
R: Eu concordo. O uso de diálogos por Austen é complexo – ela os utiliza para esboçar a personalidade, mas (como Diane Johnson aponta em seu ensaio) ela raramente os usa para desenvolver o enredo. E ainda assim, ao mesmo tempo, a maior parte das cenas de clímax são apenas sobre palavras – seu uso e abuso. Em Orgulho e Preconceito, é a hilária proposta mal formulada de Darcy; em Mansfield Park, é o drama relativo ao teatro, ou o debate sobre encenar ou não Votos de Amantes; em Emma, é o menosprezo de Emma pela Srta. Bates durante o piquenique em Box Hill; em Persuasão é a carta de Wentworth escrita em contraponto à conversa que ele escuta entre Anne e Harville. Então as palavras estão no centro de qualquer que seja a sua interpretação errada ou correta, qualquer que seja a lição a ser aprendida durante o romance. Descobrir como as palavras funcionam em um ambiente social é, como Ben tão astutamente aponta, parte de um eterno processo de amadurecimento.
P: James Collins fez várias declarações fortes, dizendo que Jane Austen o ajudou a esclarecer escolhas éticas e descobrir uma forma de viver sua vida com integridade. Uma das razões pelas quais ela tem credibilidade aos olhos dele é a sua total falta de sentimentalidade. C. S. Lewis comenta sobre a moralidade radical de Austen e Amy Bloom pinta uma imagem de uma mulher que vê o mundo a sua volta através de uma transparente placa de vidro. Esses autores me ajudaram a esclarecer por que eu sou tão atraída por Jane Austen. Na sua introdução você espera que o leitor formule uma resposta para a questão: por que você lê Jane Austen? Eu vou reformular a sua pergunta: qual foi a sua razão para montar esse livro e por que você é atraída por Jane Austen?
R: Parece haver uma suspeita sussurrada em nossa cultura de que a Leitura está morta – de que nós dificilmente lemos alguma coisa e, quando o fazemos, não estamos realmente lendo. Felizmente isso não é verdade, mas o sublime Robertson Davies estava certamente atormentado por esse medo quando ele emitiu seu apelo: “O que peço é uma multidão de células revolucionárias, cada uma composta por um ser humano inteligente e um livro de valor substancial, iniciando o imensamente sério trabalho da exploração pessoal através do prazer pessoal.”
Essa coleção de ensaios visa ajudar as pessoas a descobrir como apreciar de verdade a leitura. Existem diferentes tipos de leitura. Temos a leve leitura de um spin-off de Jane Austen e isso proporciona uma certa diversão. E então temos a rica leitura de um romance de Jane Austen e isso proporciona não apenas um prazer imediato, mas uma compreensão profunda de como nossos corações e mentes funcionam. Pensamos freqüentemente na leitura como algo separado do ato de viver, mas com a melhor literatura – com os romances de Austen – a leitura se torna tão grandiosa, se não mais grandiosa, do que as outras partes e atos da vida. Então eu leio, e eu leio Austen, não apenas porque isso me ensina a pensar, imaginar e narrar, mas também porque é uma busca criticamente importante e profundamente indulgente.
P: Conte-nos um pouco sobre você! A sua breve biografia na orelha do livro me intriga. Diferente da Jane provinciana, cuja vida foi bastante circunscrita, você é verdadeiramente uma mulher do mundo.
R: Sim! Isso mostra que a obra de Austen continua a ter alguma coisa a dizer às mulheres modernas que são tão diferentes dela em todo tipo de detalhe cotidiano. Eu comecei praticamente no mesmo lugar, entretanto; minhas primeiras memórias datam dos anos em que minha família viveu em Hockwold-cum-Wilton, um pequeno vilarejo em East Anglia. Nós voltamos para o Napa Valley quando eu ainda era pequena e eu cresci no meio rural onde eu podia caminhar pelo campo para visitar amigos. A situação mudou quando eu fui embora para a faculdade, pois me vi cada vez mais viciada em livros: primeiro filosofia, depois literatura. Enquanto eu estava escrevendo uma tese para a San Francisco State University sobre Madame de Lafayette’s La Princesse de Clèves, eu fiquei completamente apaixonada por romances franceses do século XVII. Para ler esses romances raros com todo o seu mofo original, eu me mudei para a França. Depois de um mestrado em Lyon II, eu fiz um D.E.A (ou M.Phil) em Paris III. Em Paris, eu vivi em um apartamento sobre uma chocolateria na Ile St. Louis e passei pela Notre Dame todos os dias no meu caminho para a aula na Sorbonne. Então eu me mudei para New Haven para buscar um doutorado em Yale e acabei de voltar a São Francisco para finalizar uma dissertação sobre o perigo nos romances franceses do Antigo Regime.
Como teria sido a vida de Jane Austen se ela tivesse vivido, lido e escrito nos dias de hoje? Teria ela viajado pelo mundo por sua arte ou teria ficado contente com estacionários vôos da imaginação? Teria se desenvolvido e mergulhado em estudo “sério” ou teria permanecido com suas representações de três ou quatro famílias em um pequeno vilarejo? Não importa como levamos nossas vidas, acho que é inevitável que literatas modernas de alguma forma se associem com Austen: ela foi uma pioneira tão importante e é difícil dizer onde estaríamos hoje se ela nunca tivesse escrito.
Obrigada por suas reflexões, Susannah! Foi um prazer falar com você. Para todos os leitores desse blog, postarei a minha resenha do livro logo.
Mais informações sobre Susannah no site da Random House: Susannah Carson é uma candidata ao doutorado em francês na Universidade de Yale. Seus títulos anteriores incluem um M.Phil da Sorbonne Paris III, assim como Mas da Université Lyon II e San Francisco State University. Ela ministrou palestras sobre vários tópicos da literatura inglesa e francesa em Oxford, na Universidade de Glasgow, em Yale, Harvard, Concordia e na Universidade de Boston.
O link para o site de Susannah: Why Jane Austen

*****
Entrevista traduzida e gentilmente cedida por Mariana Fonseca
Vic do Jane Austen World também permitiu a tradução e publicação aqui no blog.
Vic from Jane Austen World gave us permission to translate the interview and publish it here.
****
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4 thoughts on “Entrevista com Susannah Carson

  1. Danielle 26/11/2009 / 11:48 AM

    David Logde… Li “Terapia”, dele, e achei engraçadíssimo!

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  2. Cyn 26/11/2009 / 6:27 PM

    Quero muito ler esse livro, estou esperando chegar na Livraria Cultura porque não tenho cartão internacional pra comprar na Amazon 😦

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  3. Karlinha 27/11/2009 / 4:30 PM

    Há, Adriana…eu amei.
    A entrevista vio?
    Olha eu queria muito ler…esse livro mais meu inglês não é tão otímo assim.
    Há adriana, nessa foto ela pareceu a Elaine Dawsood…em Razão e Sesibilidade. 2007

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  4. Tathy 30/11/2009 / 11:13 AM

    Estou esperando o correio entregar o meu Mansfield Park para começar a ler.
    Estou fazendo uma promoção no meu blog, seria legal se você participasse! bjs

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