Autor: Adriana Sales
Mary Bennet – a esquecida
Northanger Abbey – Edição de luxo
Refletindo sobre musselinas
“Sua obsessão, agora, era escolher o vestido e o penteado para a grande ocasião. Não se tratava de um escrúpulo inocente. O zelo em relação ao traje é por vezes sinal de frivolidade, e a dedicação excessiva frequentemente aniquila as melhores intenções. Catherine sabia tudo isso muito bem; pouco tempo antes, no Natal, sua tia-avó a recriminara neste tema. No entanto, ela permaneceu acordada na cama por dez minutos naquela noite de quarta-feira, tentando decidir se seria melhor usar musselina estampada ou bordada, e somente a escassez de tempo impediu-a de comprar um vestido novo para o baile. Ela incorria num erro comum de julgamento, grave porém comum, do qual poderia ser prevenida por alguém do sexo oposto (mais do que por uma mulher) ou por um irmão (mais do que por uma tia-avó), pois apenas um homem pode ter ideia de como o homem é insensível diante de um vestido novo. Muitas damas cairiam em grande mortificação se chegassem a entender o quão pouco o coração de um homem é afetado por peças dispendiosas ou novas nas vestes femininas; o quão pouco é influenciado pela textura de uma musselina, e como é impassível e incapaz de fazer distinção entre tecidos finos ou de algodão, estampados ou bordados. A mulher se veste bem para satisfazer apenas a si mesma. Nenhum homem terá mais admiração por ela, nenhuma mulher lhe dedicará mais apreço. O asseio e a elegância bastam ao primeiro, e um aspecto andrajoso ou inadequado será bastante apreciado pela segunda. Mas nenhuma destas sérias reflexões transtornou a alma de Catherine.”
Jane Austen, A abadia de Northanger. L&PM, 2011, p. 81.
I Encontro Jasbra – PB… Lembranças
Antes, ficávamos imaginando em como realizar este encontro. Os horários desencontrados, o que iríamos de fato discutir na hora do encontro, o que sortear, etc… Afinal, não é fácil ter a iniciativa de movimentar as discussões, saber quando estamos falando demais para deixar o outro falar, kkkk…. Enfim, descobrimos no dia como fazer. E a experiência não poderia ter sido melhor.
Para um primeiro encontro, contamos com a agradável presença de pessoas que gostariam de ter a experiência de realizar uma reunião cujo o objetivo foi ter a satisfação de falar sobre literatura e claro, sobre como Jane Austen adentrou em nossas vidas com a sua obra tão formidável! E que nos deixa tão felizes…
Tivemos bons momentos de discussões, principalmente sobre Emma e a sua inesgotável imaginação (e influência) sobre todas as pessoas desta obra maravilhosa.
Agradecemos imensamente as presenças de todos vocês que vieram ao nosso encontro… Algumas fotos da nossa tarde feliz!
Lília *-*
Resultado do sorteio: chaveiros e marcador da Inverse
Gazeta de Longbourn apresenta: Death Comes to Pemberley
“Neither man spoke of the past. Darcy could not rid himself of its power but Wickham lived for the moment, was sanguine about the future and reinvented the past to suit his audience, and Darcy could almost believe that, for the present, he had put the worst of it completely out of his mind.”
Este mês no Coruja (que está fazendo três anos de existência) vai ao ar um grande especial sobre o detetive mais famoso de todos os tempos, Mr. Sherlock Holmes. No espírito das comemorações, decidi ler para a coluna da Gazeta de Longbourn um romance policial – e não precisei esquentar muito a cabeça para me decidir em Death Comes to Pemberley, que chamou a atenção desde antes de ser lançado.
Ele também acabou entrando em minha cota de ‘livros a ler para o bicentenário de Orgulho e Preconceito’ e ‘audiobooks para ocupar o tempo no trânsito’. Três coelhos com uma só cajadada!
Antes de mais nada, vamos colocar as coisas nesses termos: se você está atrás de romance e ‘oh, Mr. Darcy’, Death Comes to Pemberley não é exatamente seu cupcake (hum… que fome…). Não há cenas de alcova, nem mesmo beijos apaixonados. Em compensação, há uma confortável familiaridade entre Lizzie e Darcy, tranqüila e rotineira. O final é um pouco mais doce e, pelo menos para mim, agradou bastante, bem no espírito da Austen.
Embora haja vários momentos em que acompanhamos Lizzie em seus esforços para trazer um pouco da paz roubada de Pemberley com a chegada de Lydia, é Darcy a voz dominante da história. A verdade, contudo, é que o livro não se concentra no casamento dos Darcy. O interesse aqui é entender o que aconteceu no bosque que cerca a propriedade e que culminou no assassinato de Mr. Denny, possivelmente pelas mãos de seu amigo, Mr. Wickham.
A narrativa abre às vésperas de um grande baile em Pemberley, em memória de Lady Anne, a mãe de Darcy. No meio da noite, uma carruagem quase desgovernada chega contendo uma Lydia histérica.
Wickham e Lydia tinham planejado para que ela pudesse comparecer ao baile dos Darcy a despeito do fato de que nenhum dos dois é particularmente bem-vindo. O cavalheiro em questão largaria a esposa na mansão no meio da noite – de forma que não houvesse outra alternativa para Lizzie além de receber a irmã – e depois seguiria com Denny para Londres, a fim de procurar sua própria diversão. No meio do caminho, contudo, Denny e Wickham discutem, deixam a carruagem para terminar a conversa, se escuta um tiro no meio da noite… e quando são encontrados de novo, Denny está morto e Wickham está aos prantos, completamente bêbado, dizendo que matou ‘seu único amigo’.
A cena é surreal para Darcy, que não apenas tem de lidar com o escândalo às portas de Pemberley, como participar da investigação – uma vez que é um dos magistrados locais. Contudo, a despeito de suas reservas para com Wickham, ele não acredita realmente que esse fosse capaz de assassinato – especialmente de um amigo tão próximo quanto Denny.
Wickham é preso – suas palavras à cena do crime servindo praticamente como uma confissão – e até seu julgamento final haverá outras desconfianças e segredos para desenterrar.
Death Comes to Pemberley foi particularmente fascinante para mim em seus debates sobre a questão da justiça. Descobri pela história que, à época, não existia corte de apelação e se ocorresse um erro judiciário, não haveria como entrar com um recurso. Tudo o que você podia fazer era esperar por um perdão real – e nada garante que este viria ou mesmo que chegaria a tempo de salvar um homem inocente.
Confesso, contudo, que esperava um pouco mais do mistério. Passei metade do livro torcendo o nariz e querendo dar um chute no Coronel Fitzwilliam, ao mesmo tempo em que torcia pela Georgiana e tentava entender o que tinha acontecido. Eu estava absolutamente inclinada a me surpreender com a revelação do final, uma vez que meus próprios talentos de detetive nem de longe tinham me levado a alguma conclusão, mas quando afinal disseram quem tinha sido o assassino, fiquei… não sei dizer exatamente. Desapontada? Descontente? Ligeiramente desconfiada?
Talvez o problema tenha sido exatamente esse: eu estava esperando demais desse livro, alguma reviravolta emocionante, totalmente extraordinária e quando ela aconteceu, veio temperada de enganos inocentes e soluções quase ingênuas.
Gostei do livro pelas cenas familiares, pela forma como é mostrada a intimidade dos Darcy e dos Bingley (porque Bingley me dá vontade de agir como a tia que aperta as bochechas?), como a Georgiana se reafirma em muitos momentos, superando aquela timidez quase doentia de seus tempos de adolescente e especialmente pela aparição de Mr. Bennet. Adorei que o Darcy demonstre confiança e até alívio com a presença do sogro no meio daquele pesadelo.
Não vai virar um favorito, mas é uma boa pedida.
* Lu Darce (JASBRA-PE) presentemente está fazendo bolhas com seu cachimbo e pensando nos misteriosos caminhos que o crime nos pode levar. Essas e outras divagações, vocês podem encontrar em Coruja em Teto de Zinco Quente.
Downton Abbey chega ao Brasil
A série estréia no dia 19 de maio às 22:00 no canal GloboSat HD.
Para aqueles que não conhecem a série, leia um pouco mais aqui e aqui. Confira aqui uma série de reportagens da Veja sobre esta série de TV.
A série tem atores ingleses fantásticos! Além disso, muitos deles fizeram papéis em outras séries baseadas na obra de Jane Austen e Elizabeth Gaskel. Vale à pena conferir!
Veja abaixo o teaser:
Entrevista com Fernanda Abreu – tradutora de Persuasão e duas outras estórias
O estilo Austen é capaz de passar vários parágrafos descrevendo a simples entrada de alguém em um recinto, enumerando cada detalhe, cada sensação, cada movimento. Isso torna o seu texto muito rico, mas também um pouco prolixo, dependendo do trecho: é tudo exaustivamente descrito, explicado, dissecado, e ainda com uma pontuação que muitas vezes parece estranha aos olhos do leitor contemporâneo. Como transpor para o português o máximo desse estilo sem comprometer a fluidez da tradução, considerando que inglês e português são línguas com ritmos tão diferentes? Esse foi o maior desafio. A recriação do contexto da época, inclusive nos diálogos, também foi uma preocupação constante. Além da edição em inglês que serviu de original, da Penguin, a tradução francesa de André Belamich ajudou bastante a encontrar a melhor solução para os trechos mais delicados.
E em relação às notas? Que detalhes foram destacados?
“Persuasão” é um romance bem “limpo”, intimista, sem muitas referências a fatos reais ou personagens históricos. Consequentemente, poucas notas se fizeram necessárias. Tomei cuidado para não ultrapassar a tênue fronteira entre notas e explicação de texto. O critério foi incluir notas que auxiliassem na compreensão do texto pelo leitor e enriquecessem a leitura, ou seja, para explicar referências específicas à cultura e aos costumes ingleses da época, bem como referências históricas e geográficas. Usei como referência as edições anotadas de língua inglesa e francesa.
A obra é seguida de duas novelas inéditas em português, o que destacaria nesses dois textos?
Gostei imensamente de “Lady Susan”. Austen se aventura no romance epistolar (ou melhor, no “conto epistolar”) com muita ironia e uma narrativa bem amarrada, que prende a atenção do leitor. Sua protagonista não fica nada a dever à Mme. de Merteuil de Laclos, e no final eu já não sabia por quem torcer, se por ela, pelas pobres “vítimas” da sua perfídia, ou pelos íntegros personagens que passam o conto inteiro tentando desmascará-la. Terminadas a leitura e tradução do conto, logo depois de “Persuasão”, fiquei com a impressão de que Austen tinha pego o sr. Elliot e a sra. Clay de “Persuasão”, misturado bem, e obtido como resultado Lady Susan (mas sei que não foi assim, pois o conto é possivelmente anterior ao romance). “Jack e Alice” também é bastante irônico, além um tanto fantasioso. Foi interessante descobrir uma história tão farcesca escrita por uma autora cujos romances principais são tão realistas, e também constatar que, mesmo muito jovem, ela já era dona de um olhar arguto e de um fino humor para descrever as interações sociais inglesas de sua época.
Em casa com os Austen
Site o blog do museu, escrito por minha amiga Julie Wakefield, a vida em Chawton era muito tranquila o que permitiu Austen rever e escrever seus seis livros. Segundo Julie, o foco do museu é mostrar a vida cotidiana das Austen, com destaque para assuntos relacionados à moda, costura, alimentação, visitas e saúde.
Para aqueles que não podem visitar a exposição este ano, fica o convite de Julie para a observarem com bastante cuidado as fotos publicados em seu blog. Vale à pena conferir!
Leia aqui a versão original em inglês, e clique aqui para ler em português traduzido pela ferramenta da Google.















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