Quando a experiência feminina atravessa os séculos

No dia 2 de setembro, tive a oportunidade de participar de uma reportagem da CBN Cultura dedicada à chegada ao Brasil de Os Diários de Emma M. Lion, série de romances históricos que acompanha a trajetória de uma jovem mulher na Londres vitoriana do século XIX.

A reportagem parte de uma questão particularmente instigante para os estudos literários: por que narrativas ambientadas em outros períodos históricos continuam despertando tanto interesse entre leitores contemporâneos? A meu ver, uma das respostas está justamente na possibilidade de reconhecer, nessas narrativas, experiências femininas que atravessam diferentes contextos históricos.

Emma M. Lion é apresentada como uma jovem independente, espirituosa e determinada, que precisa enfrentar relações de poder, limitações econômicas e expectativas sociais impostas às mulheres. A série utiliza o diário como forma narrativa e acompanha o cotidiano da personagem em uma sociedade profundamente marcada pelas convenções de gênero. Os dois primeiros volumes chegaram às livrarias brasileiras em setembro de 2026, traduzidos por Beatriz S. S. Cunha.

Minha participação na reportagem está relacionada a uma questão que também atravessa minha trajetória acadêmica: o interesse pelas representações da experiência feminina, pela literatura de autoria feminina e pelos processos de circulação, recepção e atualização de narrativas produzidas em diferentes momentos históricos.

Nesse sentido, Os Diários de Emma M. Lion podem ser compreendidos como parte de um fenômeno cultural mais amplo: o diálogo contemporâneo com a literatura e com o imaginário do século XIX. A Londres vitoriana, os bailes, as convenções sociais, as relações familiares e as restrições impostas às mulheres constituem elementos históricos, mas são reorganizados por uma narrativa contemporânea capaz de estabelecer novas conexões com os leitores atuais.

É justamente essa aproximação entre passado e presente que considero particularmente significativa. Ao representar uma jovem mulher do século XIX para leitores do século XXI, a narrativa não apenas recupera um determinado contexto histórico; ela também permite que questões relacionadas à autonomia, à identidade, à independência econômica e às expectativas sociais sobre as mulheres sejam revisitadas sob uma perspectiva contemporânea.

Essa dinâmica encontra um paralelo importante nos estudos de Jane Austen e de outras escritoras do século XIX. A permanência dessas autoras na cultura contemporânea demonstra que a literatura não permanece estática: ela é continuamente reinterpretada, traduzida, adaptada, publicada em novos formatos e apropriada por diferentes comunidades de leitores.

É nesse processo que a experiência feminina atravessa os séculos.

Para Adriana Sales, doutora em Estudos Linguísticos, pesquisadora e tradutora da obra de Jane Austen, a personagem criada por Beth Brower representa a permanência e as novas interpretações de Austen até os dias atuais.

‘Questões como herança, propriedade, dinheiro e casamento constituem, em Austen, dimensões indissociáveis da experiência feminina, e é justamente nesse aspecto que Emma M. Lion encontra uma importante interlocução. A diferença está menos na existência dessas questões do que na maneira como elas podem ser formuladas em um contexto posterior, como o da Londres de 1883, quando novas possibilidades de representação da autonomia feminina já estavam em circulação. Assim, considero mais adequado compreender Emma não como uma ruptura com Austen, mas como uma atualização de questões que sua obra já havia colocado em cena.’

Participar dessa reportagem da CBN foi, portanto, uma oportunidade de refletir não apenas sobre uma nova publicação, mas sobre a própria permanência da literatura de autoria feminina e sobre a capacidade que determinadas narrativas têm de estabelecer conversas entre mulheres de diferentes épocas.

Agradeço à equipe da CBN Cultura pelo convite e pela oportunidade de contribuir para essa discussão sobre literatura, história, mulheres e recepção literária.

Leia a reportagem completa: “A experiência feminina atravessa séculos: Os Diários de Emma M. Lion chegam ao Brasil”, publicada pela CBN em 2 de setembro de 2026.

https://cbn.globo.com/cultura/noticia/2026/09/02/a-experiencia-feminina-atravessa-seculos-os-diarios-de-emma-m-lion-chegam-ao-brasil.ghtml

Senhorita Austen – Miss Austen – Minissérie em 4 episódios

💌 MISS AUSTEN 💌
A nova minissérie da BBC estreia em 2 de fevereiro (UK) e 4 de maio (EUA, via PBS Masterpiece) — e promete emocionar fãs de histórias de época e de Jane Austen.
Baseada no romance de Gill Hornby, Miss Austen traz à luz a história não contada de Cassandra Austen, irmã da nossa amada Jane Austen. Uma trama delicada sobre amor, perdas e os sacrifícios feitos por dever e afeto, em uma sociedade marcada por expectativas rígidas.
✨ Com Keeley Hawes no papel de Cassandra e Patsy Ferran como Jane, a série tem ainda atuações marcantes como a de Rose Leslie (Isabella Fowle), que entrega uma personagem profunda e inesquecível.
📺 Direção de Aisling Walsh
📝 Roteiro de Andrea Gibb, baseado na obra de Gill Hornby
📍 4 episódios
🎞️ Disponível na BBC One e #iPlayer (UK) e na PBS Masterpiece (EUA)
Prepare-se para se emocionar com essa história de irmandade, memórias e legado. Porque por trás de toda grande escritora, há histórias ainda por contar.
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Live 20 – O Mistério dos Diários Varonis

Nossa próxima live, dia 13 de maio às 20:00, será com a Luciana Darce! As lives acontecem sempre no nosso perfil @janeaustenbrasil no Instagram. Luciana fará um passeio pelos diários dos personagens masculinos de Jane Austen! Inclusive, a Luciana já fez resenhas desses livros aqui no blog, confira!

Luciana Darce é autora do blog Coruja em Teto de Zinco Quente, leitora desde que se entende por gente, gosta de fazer conexões inusitadas entre seus assuntos literários favoritos e caçar referências obscuras por aí. Mantém o blog Coruja em Teto de Zinco Quente desde 2009 e é mediadora do Clube do Livro de Bolso, que discute clássicos de vários gêneros (tendo nascido para falar de Austen) desde 2010.

Fashion in the time of Jane Austen

A Natallie do Blog Meu Cantinho Literário acabou de escrever uma resenha do livro “Fashion in the time of Jane Austen“! Confira abaixo:

Título: Fashion in the time of Jane Austen
Autora: Sarah Jane Downing 
Editora Shire, 64p.

A França sempre foi um grande país influenciador da cultura mundial, e no que diz respeito a moda, continua assim até hoje. Mas as coisas mudaram na transição do século XVIII para o XIX, mais precisamente depois da Revolução Francesa. Até as guerras napoleônicas, era costume grandes costureiros entregarem suas encomendas muito desejadas pela Europa inteira. Depois da revolução, as saias rodadas e volumosas de brocado deram lugar a vestidos mais simples, com a chamada cintura imperial (bem abaixo do busto) e com um design mais apertado e restrito. Os livros de Jane Austen foram escritos durante essa época de dominância de vestidos de cinturas altas e mangas curtas. O vestuário masculino também sofreu mudanças. Este livro discute a moda e tudo que nela está incluído.
Desde que eu abordei moda como parte do meu TCC de História e fiz um projeto na faculdade de Biblioteconomia sobre o mesmo assunto, tomei gosto, então todo livro sobre moda que encontro, preciso ler. Foi uma alegria encontrar algum que aborde a moda no tempo de Jane Austen. O livro é bem fino, só 64 páginas, e parece mais uma monografia que outra coisa. As ilustrações são um chamativo que não poderia faltar, lógico, mais fácil de absorver a leitura. Muito indicado.