Luciana Darce
Resenha – Conversas Sobre Jane Austen em Bagdá
“Fiquei chocada em saber que você e o Ali cresceram sendo acordados com o canto dos pássaros e agora estão cercados por carros bomba e sirenes. As lembranças são tão delicadas que deveriam ser trazidas à tona sempre, especialmente quando elas têm significados para vocês.”
O título do livro é talvez algo enganoso, uma vez que não há assim tantas referências a Austen, mas não se preocupe: se você teve sensibilidade para a ficção de Austen, essa obra – bastante real – certamente te conquistará. Conversas sobre Jane Austen em Bagdá reúne a correspondência por email de uma jornalista britânica, Bee Rowlatt e uma professora iraquiana, May Witwit ao longo de três anos logo após as primeiras eleições no Iraque pós-invasão. Bee primeiro conhece May quando a entrevista para um programa sobre as expectativas em torno da eleição. Logo eles começam a trocar mensagens outras, sobre suas vidas, família, problemas pessoais e, no caso de May, o cotidiano em uma zona de conflito. A amizade que termina por uni-las me faz pensar na proximidade das irmãs Dashwood ou das irmãs Bennet mais velhas. May é uma professora universitária que ensina literatura inglesa (e é aqui que entra Austen, mas apenas de relance) e direitos humanos (o que ela mesma considera uma ironia) numa faculdade para mulheres. De família xiita, casou-se com um sunita e por conta disso acaba sofrendo o preconceito de todos os lados possíveis – não bastasse ser mulher numa sociedade extremamente machista e professora, numa época e lugar em que informação e cultura estão sendo perseguidos, ela ainda recebe o desprezo da própria família e da família do marido, passando a conviver particularmente com o pesadelo das perseguições das milícias aos sunitas. Isso para não falar que ela já foi casada anteriormente, o primeiro marido era um alcoólatra, ela se separou, casou com ele de novo, sofreu o pão que o diabo amassou e terminou viúva. Considerando tudo, é quase surpreendente que May tenha não apenas sobrevivido, mas também tido coragem para contar sua história. Quando seu nome aparece numa lista de morte condenando professores, é a gota d’água para May, que com a ajuda de Bee, tenta enfrentar a burocracia e a corrupção absurdas para conseguir um visto e sair do Iraque. Li esse livro de uma sentada só – e quase teria virado a noite para conseguir terminá-lo. A história de May e Bee é inspiradora, por vezes cheias de um humor, em outras verdadeiramente angustiante: enquanto mais e mais obstáculos surgem no caminho de May, é impossível não partilhar do sentimento de impotência de Bee diante dos fatos. Perseguição, ameaças de morte, erros na embaixada e travessias perigosas contrastam com o prosaico de se preocupar com a falta de energia para secar os cabelos ou problemas mecânicos com o carro. Conversas sobre Jane Austen em Bagdá é um livro emocionante, que fala muito ao nosso senso de solidariedade e humanidade – ele é um livro, sobretudo, humano. E é também um livro sobre uma amizade como poucas – na ficção ou fora dela.
Fotos do Encontro JASBRA-PE
No sábado, dia 23 de fevereiro, a turma do clube do livro de Recife se reuniu para debater A Abadia de Northanger. Como de hábito, houve muita conversa, muitas idéias compartilhadas e muitos risos. E chegamos também a uma importante conclusão nesse encontro: perto do Torpe Thorpe, Mr. Collins é um poço de sabedoria e bom senso, uma criatura muito centrada e correta!
Esse momento Ah, neim!!! da Cláudia Freire foi quando ela pensou em um suposto Mr. Thorpe! 🙂
Divagações sobre Mr. Darcy
Mr. Darcy, a princípio, fora quase com relutância que lhe admitira uma certa beleza; no baile olhara para ela sem admiração, e na vez seguinte olhou-a apenas para criticar, Porém, mal ele se certificara a si e aos amigos da quase inexistência de um traço bonito naquele rosto, quando começou a achá-la invulgarmente inteligente pela bonita expressão de seus olhos negros. Embora seu olho crítico tivesse detectado mais de uma falha de simetria na forma de seu corpo, era forçado a reconhecer-lhe uma figura pura e agradável; e, apesar de considerar seus modos muito aquém dos do mundo elegante, cativaram-no por sua graciosidade simples.
Ao contrário de muitos fãs fanáticos de Austen, Orgulho e Preconceito não é meu romance favorito da autora (eu continuo adorando-o, mas não é meu favorito). Como já discutimos amplamente em algum lugar lá pelo Coruja, meu coração pertence ao Capitão Wentworth… Eu tenho uma certa birra com Darcy por conta daquela primeira declaração. A verdade é que naquele momento, ele não é muito diferente de Mr. Collins – tanto Darcy quanto Collins se aproximam de Elizabeth com a certeza absoluta de que seu pedido será aceito. Afinal, que outras perspectivas ela tem? Não apenas eles tomam o pedido formal como apenas uma norma de etiqueta a ser cumprida como ambos não questionam se Lizzie gosta ou não deles. Sério, prestem atenção na cena em Rosings. Darcy fala…
“Em vão tenho lutado comigo mesmo; nada consegui. Meus sentimentos não podem ser reprimidos e preciso que me permita dizer-lhe que eu a admiro e amo ardentemente”

Ele não se pergunta se Lizzie pode amá-lo. Em vez disso, impõe os seus sentimentos e não duvido que ele não se importaria, nesse momento, se ela tivesse aceitado se casar com ele simplesmente porque ele é um bom partido. Talvez por isso o reencontro dos dois em Pemberley tenha tanto impacto, porque daquela feita é óbvio o quanto ele deseja o afeto e aprovação dela. Ele não tem, a princípio, esperança de que ela de repente decida que está loucamente apaixonada por ele (e creio que mesmo o orgulho e o medo aja aqui um pouco para segurá-lo diante da possibilidade de uma nova rejeição), mas isso não o impede de procurar a boa opinião dela.

E esse é o grande ponto do Darcy, essa mudança pela qual ele passa, não necessariamente para conquistar a garota (mas também por isso), mas porque ele é capaz de enxergar e admitir seus erros e é absurdamente difícil fazer isso. É difícil assumir que você errou, que você não agiu da melhor maneira possível. E ele não apenas assume isso como busca por todos os meios possíveis, se não consertar, ao menos tentar fazê-lo. Mais até do que o que ele faz pela Lizzie, surpreende-me a coragem que ele teve de assumir para Bingley o papel dele na separação do amigo e de Jane Bennet. Aqui ele corre um risco muito grande, de perder a amizade de Bingley (uma coisa real, em contraste com a possibilidade abstrata de algum afeto da parte de Elizabeth) e mesmo assim ele assume sua culpa. Particularmente, eu acho isso fantástico. Aliás, esse é o fator principal para que eu goste tanto do Wentworth – a capacidade de admitir que estava errado e saber pedir desculpas. A diferença entre os dois é que o capitão foi profundamente magoado no passado pela Anne, enquanto Darcy começa achando que é o rei da cocada preta (o que ele é, mas não precisa ser um cretino sobre isso). Enfim… mesmo quando é um cretino, Mr. Darcy é ainda incrivelmente passional e talvez por isso a gente acabe… ‘ignorando’ certas atitudes dele. E, claro, uma vez que você pense como vai ser a relação dele com a Lizzie após o final do livro – quando você imagina o cuidado, o carinho e também a paixão que ele dedica à mulher, é difícil dizer que estando no lugar dela, teríamos também dito não àquele primeiro pedido. Eu acredito que eu diria não, mas quando você está lendo pela segunda, terceira, décima vez o romance e sabe exatamente o que o homem será capaz de fazer por ela mais tarde, talvez não seja possível dissociar as imagens de Darcy pré e pós Rosings. E vocês? Quais são suas divagações sobre Mr. Darcy?
Gazeta de Longbourn: Celebrating Pride and Prejudice
2013 marks the 200th anniversary of the first publication of Pride and Prejudice, Jane Austen’s best-loved novel. To mark this special occasion Hazel Jones and Maggie Lane have written this beautifully illustrated 64-page book looking at the history of the work that Jane Austen called her “darling child”. To celebrate the bicentenary of the book’s first publication in 1813, Hazel and Maggie investigate the reasons for its popularity and describe the extraordinary history, reception and afterlife of the phenomenon that is Pride and Prejudice.
Todo mundo por aqui já deve saber a essas alturas que 2013 marca o bicentenário de publicação do clássico Orgulho e Preconceito de Jane Austen. Celebrating Pride and Prejudice é uma das inúmeras iniciativas de fãs por todo o mundo para marcar a data. É um belo guia de referência, ricamente ilustrado, com referências históricas, literárias e cinematográficas: textos claros e bem humorados, e uma autêntica apreciação por tudo aquilo que leva o “selo de qualidade” Jane Austen. O único defeito, para mim, foi que o achei demasiadamente curto. Considerando a qualidade do projeto – das informações apresentadas ao projeto gráfico – eu não faria questão de pagar mais por um livro com ainda mais artigos e análises. Adoro ler tudo (ou quase tudo) que escrevem sobre Austen (não à toa estou todo mês batendo ponto aqui) e considerando o claro apuro e carinho com que Celebrating Pride and Prejudice foi feito, só consigo pensar ‘quero mais, mais, mais…’. Eu queria muito que alguma editora brasileira se interessasse por trás esse trabalho na nossa língua, especialmente a se considerar a data histórica que acabamos de passar. Não apenas essa pequena pérola, mas também os diários da Amanda Grange e a fantástica série de Pamela Aidan, Fitzwilliam Darcy, Gentleman (na minha opinião, o livro que melhor encarnou a voz do personagem) – acho que teria sido muito mais digno lançarem esses títulos em vez de 50 Tons do Sr. Darcy (não pretendo ler este, antes que perguntem por uma resenha). Enfim, saí completamente do assunto… O que vocês precisam saber sobre Celebrating Pride and Prejudice é que ele agrada tanto iniciados quanto recém-chegados à obra de Austen, um delicioso aperitivo antes do prato principal: didático sem ser chato, e um verdadeiro colírio para os olhos em termos de edição. Uma boa obra para se ter na coleção.
Gazeta de Longbourn Apresenta: All Roads Lead to Austen
With a suitcase full of Jane Austen novels en espanol, Amy Elizabeth Smith set off on a yearlong Latin American adventure: a traveling book club with Jane. In six unique, unforgettable countries, she gathered book-loving new friends– taxi drivers and teachers, poets and politicians– to read Emma, Sense and Sensibility, and Pride and Prejudice.
Whether sharing rooster beer with Guatemalans, joining the crowd at a Mexican boxing match, feeding a horde of tame iguanas with Ecuadorean children, or tangling with argumentative booksellers in Argentina, Amy came to learn what Austen knew all along: that we’re not always speaking the same language– even when we’re speaking the same language.
But with true Austen instinct, she could recognize when, unexpectedly, she’d found her own Senor Darcy.
All Roads Lead to Austen celebrates the best of what we love about books and revels in the pleasure of sharing a good book– with good friends.
Gostaria de ter descoberto esse livro antes de ter viajado – provavelmente teria tentado fazer algo parecido com a experiência da autora em minhas próprias jornadas (se bem que nada tenho a reclamar da minha experiência, que foi absolutamente fantástica…). O tempo todo que eu estava lendo, imaginava como seria participar de um projeto tão bacana sobre Austen.
Bem que a Amy podia vir ao Brasil num volume dois, não? Considerando nossa dimensão quase continental, experimentar um Clube do Livro em cada região do nosso país seria um bom equivalente ao roteiro que ela fez ao longo da América Latina.
Ok, estou me adiantando de novo. Vamos à história.
All Roads Lead to Austen é o relato da autora ao longo de um ano de Estrada pela América Latina – Guatemala, México, Equador, Chile, Paraguai e Argentina – aprendendo espanhol, conhecendo novas culturas e lendo Austen. Lendo Austen em espanhol e, mais importantes, na companhia de pessoas de cada um desses países, formando clubes de leitura a cada parada.
A idéia era ver como cada uma dessas regiões “traduzia” Austen – se eles eram capazes de se identificar com os personagens, de reconhecer temas e situações que se aplicassem ao seu cotidiano.
Não é surpresa que a maior parte dos participantes dos encontros que Amy promoveu tenham sido capazes de se identificar com as histórias que leram – nessa viagem, Orgulho e Preconceito, Razão e Sensibilidade e Emma. Se seus enredos se passam em um espaço físico e temporal bem delimitado e particular – o interior da Inglaterra no período da Regência – os temas continuam atuais: família, casamento, amor, dinheiro, preconceito, fofoca de cidade pequena…
A surpresa fica pelas experiências de Amy, por aquilo que ela aprende no caminho e o que ela encontra ao final de sua jornada – e posso garantir que ela encontra muito mais do que barganhou.
Um dos melhores livros que tive o prazer de ler esse ano. Para ter na estante, ler, reler e voltar a visitar junto com todas as obras da tia Austen.
Gazeta de Longbourn: Compulsively Mr. Darcy
For anyone obsessed with Pride & Prejudice, it’s Darcy and Elizabeth like you’ve never see them before! This modern take introduces us to the wealthy philanthropist Fitzwilliam Darcy, a handsome and brooding bachelor who yearns for love but doubts any woman could handle his obsessive tendencies. Meanwhile, Dr. Elizabeth Bennet has her own intimacy issues that ensure her terrible luck with men. When the two meet up in the emergency room after Darcy’s best friend, Charles Bingley, gets into an accident, Elizabeth thinks the two men are a couple. As Darcy and Elizabeth unravel their misconceptions about each other, they have to decide just how far they’re willing to go to accept each other’s quirky ways…
Li esse livro assim que ele chegou aqui em casa. Passei um mês esperando ansiosamente por ele – um mês é o tempo médio que normalmente leva para chegarem minhas encomendas internacionais – e coloquei-o na frente de tudo que tinha por ler na ocasião.
Diverti-me imensamente com a primeira parte da história. As descrições do Vietnã – onde Lizzie e Darcy primeiro se encontram – são fascinantes. Benneton pinta sua exótica locação com cores e perfumes fortes. Lizzie, como uma médica voluntária (e voluntariosa), ao lado da irmã Jane, que dirige um orfanato na região, está perfeitamente à vontade. Em casa. Ela se adapta tão bem ao ambiente que você não tem dificuldades em aceitar que seja absolutamente natural para as duas Bennet mais velhas estarem ali.
Entra Darcy, presidente de uma poderosa companhia, viajando com os Bingley e os Hurst para auxiliar esses últimos a adotarem uma criança vietnamita (oi?). Aí você tem um Darcy com TOC que desmaia ao sinal de sangue; Bingley tendo de tomar remédios para sua hiperatividade, acidentes com bicicletas, hospitais e emergências lotadas e Darcy e Lizzie se batem… e ela pensa que ele é pobre, gay e que Bingley é o parceiro dele.
Pausa para Lulu cair da cama rindo.
São tantos os desentendimentos para te deixar tonto tentando descobrir para onde está indo a história – e o efeito cômico geral é muito bom – que você nem se dá conta dos furos do roteiro.
É lá pela segunda parte do livro que as coisas desandam – ao menos se seu interesse no livro era ver uma versão moderna de Orgulho e Preconceito. É um pouco estranho ver Lizzie se sentindo tão confortável com Darcy (por causa de suas confusões iniciais), a ponto de tratá-lo como ‘melhor amigo’… E não são apenas os personagens que saem do que esperamos fosse sua personalidade de acordo com a obra original.
Algumas das situações-chave da obra de Austen são alterados para evitar grandes conflitos no romance entre Lizzie e Darcy. Wickham aparece por talvez uns cinco minutos, não convence ninguém, e podia ser completamente dispensado. Anne de Bourgh é aparentemente uma psicopata. Lydia se torna uma heroína. Darcy tem uma cobertura com espelhos no teto do quarto. E Lizzie em algum momento torna-se a princesa inerte à espera de seu cavaleiro de armadura brilhante, presa numa torre de marfim.
Acredito que Compulsively Mr. Darcy funcionaria melhor desvinculado de Orgulho e Preconceito. A história é divertida, tem algumas excelentes tiradas, mas esvazia completamente algumas importantes questões que são discutidas em Austen.
Mas, bem, não se pode ter tudo… e, ao menos, os Hurst não (traumatizam) adotam nenhuma criança. Amém por pequenas graças…
Gazeta de Longbourn Apresenta: Emma and the Vampires
What better place than pale England to hide a secret society of gentlemen vampires?
Blithely unaware of their presence, Emma, who imagines she has a special gift for matchmaking, attempts to arrange the affairs of her social circle with delightfully disastrous results. But when her dear friend Harriet Smith declares her love for Mr. Knightley, Emma realizes she’s the one who wants to stay up all night with him. Fortunately, Mr. Knightley has been hiding a secret deep within his unbeating heart-his (literal) undying love for her…
Uma vez que estamos em outubro, mês do Halloween, decidi dar uma chance a um desses mash-ups tão em moda ultimamente entre clássicos e criaturas sobrenaturais. No caso, vampiros. E o escolhido foi esse título aqui.
É raro, muito raro, que ao terminar um primeiro capítulo eu já esteja querendo fechar o livro. Sempre tento dar segundas e terceiras chances a uma história que não me prende desde a primeira linha. Dei todas as chances possíveis para Emma and the Vampires, mas vou dizer que passei a leitura inteira revirando os olhos e enfiando a cara nas mãos por conta da minha vergonha alheia. O que é uma pena, porque eu estava antecipando dar pelo menos umas boas gargalhadas com ele.
Emma aqui continua sendo a mesma, petulante, mimada e imperiosa, com o bônus de andar com uma estaca de madeira presa sob o vestido com fitas sempre na última moda. Eu estava esperando algo no estilo Buffy, mas não a ponto de ter Mr. Knightley como um vampiro.
E tudo bem, a idéia de Knightley como um vampiro era interessante… mas aí o autor insulta a inteligência da Emma (e nossa por tabela) ao fazê-la aprender a lutar vampiros – e capaz de decapitá-los com um sabre – mas não de reconhecer que a quase inteireza da população masculina de Highbury comuna de mais que o gosto pela vida no campo.
Pelo que entendi da coisa toda, o único homem que não é vampiro em toda a vizinhança é o coitado do Mr. Woodehouse, que morre de medo dos sangue-sugas e não faz a menor idéia de que recebe pelo menos um deles para jantar todos os dias; para não contar que casou a filha mais velha com um deles também.
É óbvio para qualquer um com dois olhos e um mínimo de conhecimento da mitologia vampírica quem é vampiro e quem não é, mas de novo, a Emma e vários outros personagens que necessariamente deveriam saber diferenciar humanos de vampiros parecem não fazer idéia de coisa alguma e os vampiros se dividem entre os bonzinhos, que se restringem a beber dos pescoços de suas esposas (ou Knightley, que diz que só vai beber de sangue aristocrático…) e os selvagens, que atacam virgenzinhas e aparentemente têm uma especial fixação com a coitada da Harriet.
Aliás, gostaria de observar que Knightley parece ter sofrido algum tipo de lavagem cerebral. Deve ser a sede muito provavelmente…
As ações se sucedem de forma abrupta, não existe muita explicação para nada – ou elas são insuficientes ou tão ridículas e frágeis que suscitaram aqueles meus momentos de vergonha alheia.
É uma pena, porque, como já disse, eu antecipava para esse livro um razoável potencial cômico… mas ele termina por não dizer a que veio, te deixando com a sensação incômoda de inconclusão.
Clube do Livro JASBRA/PE – Mansfield Park
Mas estou aqui agora e vamos tratar do que interessa, não é mesmo?
Nos encontramos no dia 16 de setembro, na Saraiva, para debater Mansfield Park. Como sempre, foi uma reunião bem animada, mas dessa vez, outros talentos se revelaram em nosso meio. Para abri o encontro, nosso amigo Michel declamou todo seu amor pela personagem Fanny Price.
E essa declaração foi devidamente filmada.
Com a permissão do Michel, vou postar o poema à parte, com todo o destaque que merece, mais tarde (os papéis estão em casa e em casa estou sem conexão…). Seja como for, depois de um início tão emocionante, começamos os trabalhos…
E que bom debate! Confesso que fiz as vezes de advogada do diabo (ou Mrs. Norris, como disseram ao final…), mas foi bom ver o pessoal defendendo tão veementemente a senhorita Price. Mansfield Park não costuma ser um favorito entre os leitores de Austen, mas o fato é que rendeu uma ótima e rica discussão, com muitos excelentes pontos levantados, tanto do caráter do elenco de personagens do livro até o contexto de muitas das situações levantadas ao longo da história – incluindo aí a sempre polêmica menção ao regime escravocrata, inclusive na forma como essa pequena passagem do livro ganhou realce na adaptação Palácio das Ilusões.
Agora, aqui que estão me pedindo desde sempre… FOTOS!
Nossa próxima reunião do Clube deve ser em dezembro. A data ainda não está fechada, mas por escolha da maioria presente, ficou decidido que vamos ler Muito Barulho por Nada, de Shakespeare (e eu que nem queria há tempos fazer um debate do bardo!). Ano que vem a agenda terá A Abadia de Northanger e Persuasão, nessa ordem (e um terceiro livro ainda a decidir, mas deixemos isso para ano que vem, né?)
Sendo assim… já podem começar a ler e se preparar para nossa próxima farra!
Janeites ao Redor do Mundo
Receber e conhecer a Terry foi um enorme prazer. E, aparentemente, me deu também um gosto por ser relações públicas, porque quando estava terminando de providenciar tudo o que precisava para a viagem, escrevi para a Adriana e perguntei se ela conhecia alguém da comunidade francesa de janeites.
Ela me colocou em contato com a Claire, do Jane Austen Lost in France, e começamos a trocar algumas mensagens e assim fechei meu primeiro compromisso oficial em Paris: encontrar a Claire, passear, e no entretempo trocar informações sobre nossos respectivos grupos e idolatrar a querida Jane.
O encontro foi marcado para o dia seguinte à nossa chegada, na frente da livraria Shakespeare and Co. e vamos todos concordar que a coisa já começou muito bem a partir desse preciso ponto.

A Claire estava lá nos esperando com uma sacola imensa de presentes e bastante preparada para passar a tarde batendo perna conosco. Dizer que nosso passeio foi uma delícia é redundante. Que a conversa – num misto de inglês, francês e português – foi ininterrupta e que voltei pra casa ligeiramente rouca também é quase um pleonasmo. Eu já nem sou tagarela, imagine quando encontro alguém predisposto a dividir as mesmas paixões que eu?
Após apresentações, abraços, trocas de presentes e demonstrações de boa vontade, pegamos um ônibus para nos enfiar pelos bairros mais afastados e menos turísticos de Paris, atrás de nosso objetivo do dia: uma rua chamada Darcy.
Pois é, existe em Paris uma rua chamada Darcy.
A Claire também não conhecia esse ponto tão peculiar de sua cidade e nos usou como desculpa para ir até lá. Uma excelente desculpa, vamos concordar…
Conversa vai, conversa vem, qual a sua heroína favorita, por qual mocinho você se derrete, quando-onde-porque Austen, outros vícios literários, volta para Austen, clube do livro, debate, assim e assado, chegamos ao nosso destino.

Não existe nada demais na rue Darcy, a não ser que você conte a Companhia de Água. É uma rua pela qual você passa quase despercebida que ela está lá, pequena, numa área residencial. Como a Claire bem observou, pessoal que nos viu tirando fotos deve ter ficado espantado – fomos, muito provavelmente, as primeiras pessoas que foram lá para fazer isso.
E tirar fotos nós fizemos… com todas as placas de ambos os lados da rua. Eu até me abracei com um dos postes no caminho, com cara de maluca, ao mesmo tempo que ríamos como se não houvesse amanhã.

Depois disso, a Claire nos convidou para a casa dela, onde tivemos o prazer de conhecer outras duas pessoas do grupo, a Anne e a Lila. A essa altura eu acho que nem tínhamos mais muita consciência de que em que língua estávamos nos comunicando – o importante é que havia comunicação e muitos risos e também conversa séria. Foi um intercâmbio – e um dia – absolutamente maravilhoso.

Para terminar, vamos agora dar um pulinho em Lisboa.
Ao chegarmos em Portugal, também já estávamos de encontro marcado com a Paula, do Jane Austen Portugal. Ficamos de nos encontrar perto do hotel onde estávamos hospedadas, logo de manhã cedo, porque, segundo nossa cicerone, teríamos um dia inteiro de passeio pela frente.
Não fazíamos idéia, contudo, do que realmente a Paula nos estava aprontando.
Primeira surpresa foi quando ela nos colocou no carro – porque pensei que íamos pegar o metrô ou mesmo ir andando para onde quer que ela queria nos levar – afinal, estávamos no centro histórico de Lisboa. Mas, tudo bem, sem problemas, toca pra frente.
Começamos uma conversa animada (e que conversa dessas não foi animada?), e eu ia silenciosamente tentando adivinhar para onde estávamos indo. Subimos e descemos Lisboa. E, oi? Saímos da cidade? Hum, talvez haja um desvio, ou um retorno que ela tenha de pegar e… peraí, estamos na auto-estrada!
A essa altura eu já chegara à conclusão de que estava sendo seqüestrada e nem podia avisar nada para a Carol, que estava sentada do lado de trás, sem me fazer perceber por nossa seqüestradora… então continuei a conversa (que estava muito boa e eu não via razão para interromper) e comecei a prestar atenção nas placas.
Depois da terceira placa com o mesmo nome, eu finalmente perguntei à Paula: “estamos indo para Sintra, não é?”.
Sim, esse era exatamente nosso destino. De acordo com nossa seqüestradora/cicerone/guia turística, Sintra era um vilarejo romântico, tanto na arquitetura como na sensação passada a seus visitantes, tendo encantado diversos escritores britânicos – incluindo aí o sedutor Lorde Byron – sendo assim o local perfeito para fazermos nosso encontro.

Eu gostaria de ser seqüestrada mais vezes se fosse para ter um dia como o que tivemos em Sintra… O vilarejo é realmente encantador – fizemos uma bela caminhada até o Palácio da Pena, um lugar tão diferente e tão lindo que, não sei, dá uma sensação de paz, de absoluto contentamento com o resto do mundo.

O Parque e Palácio da Pena foram obra do rei D. Fernando II, marido de D. Maria II, filha do nosso Dom Pedro I. Servia como residência de verão para a família real e tudo o que poderia haver de belo, de agradável aos olhos – vitrais, pinturas, meu deus, as paredes de cada sala que entramos… – tem lá. É muito diferente dos palácios que visitamos na França, como Versalhes e Fontainebleau, onde o amor à ostentação é quase opressivo. O Palácio da Pena é estranhamente… aconchegante. Tanto que a certa altura da visita eu já estava perguntando quando podia me mudar…
O quê? Sonhar não custa nada, oras!
Do Palácio da Pena seguimos para o Castelo dos Mouros, uma fortaleza medieval do período de dominação árabe da Península Ibérica. Após andarmos um pouco pelas muralhas, voltamos a descer para a cidade e depois de um almoço delicioso de bacalhau (a semana que passamos em Portugal fizemos uma dieta de bacalhau…), fizemos um passeio de charrete pelas ruelas de Sintra, subindo e descendo entre casas e jardins maravilhosos.

Nessa brincadeira a Paula ainda nos apresentou a um manjar divino: uma sobremesa típica das bandas de lá chamada ‘travesseiro’, que eu tanto elogiei para minha mãe que ela providenciou a receita e está planejando fazê-los essa semana.
Espero que eles fiquem iguais aos que experimentamos em Sintra.
Enfim, depois de toda essa farra, voltamos a Lisboa com ainda mais assunto do que tínhamos conversado na ida (porque nosso assunto aparentemente nunca se acaba…) e passamos pela livraria Bertrand onde se realizam os encontros da turma do Jane Austen Portugal.

Na véspera de voltarmos, a Paula nos pegou de novo para tomar um legítimo chá inglês no centro de Lisboa ^^ Nessa ocasião eu acabei dando uma entrevista para ela, ganhamos mais presentes e fizemos ela prometer que viria em alguma ocasião para o Brasil, quando poderíamos paparicá-la tanto quanto ela nos paparicou.

Aliás, o convite é extensivo a todos, tanto do Jane Austen Lost in France quanto do Jane Austen Portugal quanto para quaisquer outros fãs de Austen pelo mundo que venham parar do meu lado aqui no Brasil: terei o mais prazer em recebê-los todos, com a mesma gentileza e carinho com que nos receberam.
Resta agora apenas agradecer pela oportunidade de ter conhecido esse povo maravilhoso, pelos mimos, presentes, pela companhia, pela paciência e pela conversa sempre maravilhosa. Espero ter oportunidade de reencontrar vocês, meninas! MUITO OBRIGADA!












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