205 anos da morte de Jane Austen

Nesta segunda-feira, dia 18 de julho, completam-se 205 anos da morte de Jane Austen, escritora britânica que se tornou uma estrela da literatura. Dois séculos depois de seu tempo, a autora é conhecida e admirada em todo o mundo, tendo, inclusive, sua imagem estampada nas notas de 10 libras na Grã-Bretanha, mas tem uma biografia repleta de mistérios. Os poucos registros que existem da vida cotidiana de Austen são cartas enviadas por ela aos parentes. Ela viveu num período em que as mulheres levavam uma vida reclusa e cheia de limitações e a sobrevivência feminina quase sempre dependia de pais, irmãos e maridos. Nesse contexto, o casamento era uma questão de muita relevância e foi muito retratada nos livros da britânica. Autora de sucessos como Razão e Sensibilidade, Persuasão e Orgulho e Preconceito, considerado o mais bem sucedido, Jane Austen começou a escrever aos 19 anos. Em todos os romances, as heroínas, sujeitas aos costumes patriarcais da época, lutam contra a ideia de precisar encontrar estabilidade financeira e status social no casamento. Mais recentemente, estudiosos têm encontrado novas leituras sobre as críticas presentes nessas obras, como é o caso da pesquisadora Helena Kelly, autora de Jane Austen, the secret radical. Ela questiona visões pré-estabelecidas sobre os textos da escritora e explora neles a presença de temas como a abolição da escravidão, o feminismo e a crítica à Igreja.

Neste aniversário de morte de Jane Austen, o programa Universo Literário conversou sobre essas novas visões da obra da autora com a professora Adriana Salles, doutora em Estudos Linguísticos pela UFMG, tradutora, especialista em Jane Austen e presidente da Jane Austen Sociedade do Brasil.

Ouça a conversa com a produtora Enaile Almeida:

Clique aqui para escutar a entrevista.

Ainda nesta segunda-feira, 18, a professora Adriana Salles, participa da Homenagem ao Legado de Jane Austen, promovido pela Jane Austen Sociedade do Brasil em parceria com a Academia Mineira de Letras. O evento é gratuito e não é necessário inscrição. Serão realizadas três palestras sobre a trajetória literária da autora e a  professora doutora Adriana Salles aborda o tema “A permanência de Jane Austen”. A Homenagem ao Legado de Jane Austen é às 19h30, na sede da Academia Mineira de Letras – Rua da Bahia, número 1466, Centro. Mais informações no site

(Produção: Enaile Almeida e Félix de Alcântara, sob orientação de Alessandra Dantas e Luiza Glória)

O que realmente matou Jane Austen?

Texto traduzido e gentilmente cedido por Valéria Fernandes do Shoujo-Cafe

O que realmente matou Jane Austen?
Por Richard Allen Greene, CNN
Londres, Inglaterra (CNN) – É uma verdade universalmente reconhecida – ou quase – que Jane Austen, a autora de “Orgulho e Preconceito,” morreu de uma rara doença chamada mal de Addison, que tira do corpo a capacidade de produzir hormônios fundamentais. Katherine White não acredita nisso.
White, ela mesma portadora do mal de Addison, estudou as próprias cartas de Austen e as de seus parentes e amigos, e concluiu que os sintomas chave não batem com aqueles conhecidos da doença. A doença – uma falência das supra-renais – era desconhecida nos dias de Austen, tendo primeiro sido identificada quarenta anos depois da sua morte aos 41 anos em 1817.
Foi um médico chamado Zachary Cope quem primeiro propôs que o mal de Addison tinha matado Austen – uma novelista muito amada e cujas comédias de costumes continuam vendendo vigorosamente e inspirando filmes como aqueles com Keira Knightley, Donald Sutherland, Kate Winslet e Hugh Grant. (Para não mencionar as homenagens como a inspirada em Bollywood “Bride and Prejudice” e o inesperado bestseller deste ano “Pride and Prejudice ans Zombies”.)
O artigo de Cope, publicado no British Medical Journal de 1964, atraiu a atenção de White cerca de dois anos atrás. “Quando eu li o sumário que Zachary Cope tinha feito dos sintomas, eu pensei, bem, não está correto,” White contou para a CNN.
Ela concentrou sua atenção em um comentário que Austen fez em uma carta para um amigo menos de dois meses antes de sua morte: “Minha cabeça está sempre clara, e eu raramente sinto alguma dor.” Isto não é o que as vítimas do mal de Addison costumam dizer normalmente, White diz. “As pessoas costumam ter dores de cabeça intensas e sentem-se como se estivessem com uma ressaca infernal,” ela diz.
Santa Elizabeth da Trindade, que morreu de Addison em 1906, comparou seu próprio sofrimento com o da crucificação, White observou. Pacientes também costumam ter dificuldade em lembrar palavras, e costumam ter dificuldades para falar, insônia e confusão mental. Austen, ao contrário, ditou um poema cômico de 24 linhas para sua irmã menos de 48 horas antes de morrer.
White não é a primeira a questionar a teoria de que o mal de Addison teria matado Austen. A biógrafa britânica Claire Tomalin sugeriu em 1997 que um linfoma era o culpado. White também considera esta teoria improvável. Ela suspeita que a resposta é muito mais simples: tuberculose.
Tomalin “estava ainda pensando em doenças do primeiro mundo. Ela sugeriu linfoma por conselho dos médicos,” White argumenta. “Se você pensa sobre a tuberculose, que era comum nos dias de Jane Austen, estatisticamente falando, a causa da morte mais razoável era a tuberculose contraída através de leite não pausterizado do que uma condição obscura como o linfoma,” White diz.
O biógrafo de Austen, John Halperin, não tem certeza do que matou Austen – mas o que quer que seja, ela afetou sua escrita conforme sua vida foi chegando ao fim, ele diz. Seu último romance completo, “Persuasão,” é “bem mais triste e madura do que qualquer uma das outras,” ele diz. “Nós temos a sensação de que decisões adiadas nunca retornam. Este sentimento é muito claro em “Persuação”.” O tom é muito triste, mesmo que a heroína se case com o homem que ela ama no final,” Halperin diz. Na verdade, as anotações de Austen mostram que ela considerou um outro final, no qual a heroína não se casava com o homem amado.
Halperin acredita que Austen morreu do mal de Addison, ele disse, embora ele aponte que sua biografia, “The Life of Jane Austen,” foi publicada em 1984, e que desde então houve muito avanço nas pesquisas sobre a doença. White, que é cientista social, não médica, é a coordenadora do Addison’s Disease Self-Help Group um grupo de apoio clínico no Reino Unido. Ela publicou um artigo esta semana no jornal de Medical Humanities expondo o seu caso.
O artigo, “Jane Austen and Addison’s Disease: an unconvincing diagnosis,” admite que alguns dos sintomas de Austen eram consistentes com insuficiência adrenal, e salienta que não pode conhecer todas as dores de Austen, porque sua irmã Cassandra editou ou destruiu muitas das cartas de Jane. Mas Kenneth Burman, um especialista em endocrinologia no Washington Hospital Center em Washington, acha que os argumentos de White são plausíveis.
Assim como White, ele especula que Austen pode ter sofrido por anos de alguma doença que afetou suas supra-renais, mas que a causa da morte era outra. “É possível que ela sofresse de uma insuficiência crônica nas supra-renais e que a causa de sua morte foi uma infecção secundária como a tuberculose,” ele diz.
Ele também duvida que Austen tinha um linfoma, que tende a produzir aumento dos gânglios linfáticos no pescoço, inchaço no estômago por causa do aumento do fígado e baço, e as ânsias de sal – nenhum dos quais foram documentados em dias de final de Austen. “Eu concordo completamente” que é simplesmente estatisticamente mais provável que a romancista tenha tido tuberculose do que linfoma, ele disse. Mas, ele é cauteloso, nós nunca saberemos ao certo.
“Diagnóstico retrospectivo é sempre muito especulativo,” ele disse. “É impossível saber com certeza.” Ou como a própria Austen escreveu, “Raramente, muito raramente, a verdade completa se dá a conhecer a qualquer ser humano, é raro que alguma coisa não esteja um pouco disfarçada, ou equivocada.”

Biógrafos de Jane Austen seguem com dúvidas

A notícia já tinha saído Jornal de Guardian e hoje foi traduzida pelo Jornal Estadão:

Novos dados levam a crer que a autora de Orgulho e Preconceito tenha morrido com um linfoma, e não de problemas renais decorrentes do Mal de Addison
Em suas tramas sedutoramente cômicas, Jane Austen costumava ridicularizar os personagens que viviam preocupados com sua saúde. Portanto, a romancista ficaria perplexa – mas talvez achasse divertido – ao descobrir que, quase 200 anos após a sua morte, a natureza exata da misteriosa doença que a acometeu no final acabou se tornando objeto de uma fascinação literária permanente.Uma recente análise dos sintomas que ela apresentou, divulgada neste início de dezembro, sugeriu que a autora de Orgulho e Preconceito pode ter morrido prematuramente de tuberculose transmitida pelo gado. O que se afirma é que um exame da correspondência e das lembranças da sua família provam que ela não foi, como supunham médicos especialistas, vítima do mal de Addison (atrofia da glândula supre-renal). A vida privada de Jane Austen ainda intriga seus leitores modernos, enquanto médicos e biógrafos há mais de 40 anos discutem a causa precisa da sua morte, em 1817. Escrevendo na revista inglesa Medical Humanities, Katherine White, do grupo de autoajuda de doentes que sofrem do mal de Addison, ofereceu algumas evidências com o fim de liquidar com uma das mais amplamente aceitas teorias médicas sobre a morte de Jane Austen. “Jane Austen morreu aos 41 anos, deixando seu sétimo romance, Sanditon, inacabado”, diz ela. “Embora Jane tenha sobrevivido a muitos dos seus pares na Inglaterra no período da Regência (quatro das suas cunhadas morreram por causa de complicações pós-parto), a causa da morte de Jane continua aberta a especulações póstumas.”Na sua juventude e em grande parte da vida adulta, Jane Austen tinha uma constituição relativamente robusta. Ainda adolescente, escreveu seu primeiro romance cômico, satírico, Love and Friendship (Amor e Amizade), em que os protagonistas zombam constantemente da sua compassiva debilidade emocional. Em maio de 1817, Jane foi para Winchester, Hampshire, sul da Inglaterra, em busca de auxilio médico, mas morreu na cidade dois meses depois. Como lembra um dos muitos websites literários dedicados à sua vida e obra, “Jane Austen morreu na madrugada de sexta-feira de 18 de julho de 1817, a cabeça recostada num travesseiro no regaço de Cassandra; sua irmã manteve-se de vigília ao seu lado durante toda a noite.”Katherine White escreve que “em 1964, o médico Sir Zachary Cope propôs que o mal de Addison tuberculoso poderia explicar sua deterioração, que a deixava prostrada no leito, o seu tom da pele insólito, seus ataques de bílis, as dores reumáticas e a ausência de sinais mais específicos da doença”. Por outro lado, em 1997, Claire Tomalin, que faz parte do grupo mais recente de biógrafos de Jane Austen, sugeriu que um linfoma se ajustaria mais aos sintomas reportados da romancista. Katherine White concorda que o diagnóstico do médico Zachary Cope pode estar correto mas observa que “muitas pessoas que sofrem do mal de Addison costumam ficar mentalmente confusas, sentem dores generalizadas, perdem peso e apetite. Nenhum desses sintomas aparecem nas cartas de Jane Austen”. Tradução de Terezinha Martino