Eu tive o prazer de conceder uma entrevista sobre as adaptações de Jane Austen ao jornalista Ticiano Osório (Jornal Zero Hora – RS). O artigo também contou com a entrevista do tradutor e acadêmico Rodrigo Breunig. Publicação 26/10/2026
Quem ama também tem boletos: por que ver o novo “Razão e Sensibilidade”
Filme com Daisy Edgar-Jones que adapta clássico de Jane Austen (1775-1817) entra em cartaz na quinta-feira (29).
Leia entrevista com Adriana Sales e Rodrigo Breunig, especialistas na obra da escritora

Daisy Edgar-Jones estrela “Razão e Sensibilidade” (2026), filme dirigido por Georgia Oakley. Universal Pictures / Divulgação
Jane Austen (1775-1817) deixou ao mundo apenas seis romances, mas sua obra já rendeu mais de 80 adaptações, modernizações ou reinvenções no cinema, na TV e no streaming. A lista inclui filmes indicados ao Oscar, como Razão e Sensibilidade (1995) e Orgulho e Preconceito (2005), a comédia romântica adolescente As Patricinhas de Beverly Hills (1995), que faz uma releitura contemporânea de Emma (1815), e o bizarro Orgulho e Preconceito e Zumbis (2016), além da série Sanditon (2019-2023), baseada em um livro inacabado da autora inglesa.
Nesta quinta-feira (29), estreia nos cinemas brasileiros a mais recente versão de um romance de Austen: Razão e Sensibilidade (Sense and Sensibility, 2026), dirigido pela inglesa Georgia Oakley, a mesma de Blue Jean (2022). Com roteiro de Diana Reid, a trama acompanha a decadência financeira da família Dashwood logo após a morte repentina do patriarca, que deixa toda a herança e as propriedades para o filho do seu primeiro casamento, John (papel de Tom Brooke, o agente Coe do seriado Slow Horses).
Desamparadas, a viúva Sra. Dashwood (encarnada por Caitríona Balfe, protagonista da série Outlander) e suas três filhas são forçadas a abandonar a luxuosa propriedade em Sussex para viver de forma muito modesta em um chalé distante no condado de Devonshire, cedido caridosamente por um parente.

Esmé Creed-Miles interpreta Marianne Dashwood no novo “Razão e Sensibilidade”. Universal Pictures / Divulgação
As três filhas são Elinor, que tem 19 anos no início da história, Marianne, 17, e Margaret, 13. Vista em Fresh (2022), Twisters (2024) e na minissérie Normal People (2020), Daisy Edgar-Jones interpreta a mais velha. Esmé Creed-Miles, que protagonizou a série Hanna (2019-2021), faz a irmã do meio. E Bodhi Rae Breathnach dá vida à caçula.
No contexto descrito por Jane Austen, o casamento não é apenas uma escolha romântica, mas a única salvação financeira para mulheres como Elinor e Marianne, que precisam lidar com as complexidades do cortejo na Inglaterra do início do século 19. A falta de dote e de uma fortuna familiar diminui drasticamente as chances de matrimônio das duas, transformando a busca pelo amor em um desafio de sobrevivência social.

Universal Pictures / Divulgação
O conflito dramático se dá na oposição entre Elinor, que representa a racionalidade, e Marianne, a sensibilidade. A primeira é tão pragmática e prudente que trai seus próprios sentimentos em relação a Edward Ferrars, personagem de George MacKay, de 1917 (2019) e Munique: No Limite da Guerra (2021).
A segunda se entrega completamente às emoções quando conhece Willoughby (papel de Frank Dillane), sujeito visto com maus olhos pelo Coronel Brandon (interpretado por Herbert Nordrum, de A Pior Pessoa do Mundo), que tem afeição genuína pela vivacidade de Marianne.

Novo “Razão e Sensibilidade” prioriza a iluminação natural mesmo nos interiores. Universal Pictures / Divulgação
A diretora Georgia Oakley reconta essa história conhecida com um olhar melancólico que prioriza, na direção de fotografia de Arnaud Potier, a iluminação natural das paisagens e dos interiores. O tom mais realista acentua os aspectos cruéis da jornada empreendida pelas irmãs Dashwood.
Ao mesmo passo, ainda que não faltem diálogos saborosos mesmo quando amargos, a prosa espirituosa e irônica de Jane Austen abre espaço à introspecção, ao sensorial, ao silêncio. Os não ditos pesam mais do que as palavras, e para tanto é fundamental a contenção emocional da atuação de Daisy Edgar-Jones. Não raro, a câmera se dedica a observar as microexpressões do rosto da atriz. A montagem assinada por Izabella Curry permite constituir pequenos quadros em movimento que são emoldurados pela trilha sonora minimalista composta por Roger Goula.
“Cada geração encontra algo diferente em Austen”

Elinor (papel de Daisy Edgar-Jones) e Marianne (Esmé Creed-Miles) em “Razão e Sensibilidade”. Universal Pictures / Divulgação
Para falar com mais propriedade sobre Jane Austen e Razão e Sensibilidade, entrevistei dois especialistas: a mineira Adriana Sales e o gaúcho Rodrigo Breunig.
Doutora em Estudos Linguísticos pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Adriana especializou-se em Austen pela Universidade de Oxford, na Inglaterra, e está fazendo pós-doutorado na UFRGS, com foco na recepção das obras da escritora inglesa no Brasil. Traduziu três romances — Mansfield Park, Razão e Sensibilidade e Emma — e é a fundadora da Jane Austen Sociedade do Brasil.
Breunig é mestre em literatura brasileira pela UFRGS e já traduziu para a L&PM sete livros de Jane Austen: Razão e Sentimento (título adotado pela editora), A Abadia de Northanger, Emma, Mansfield Park, Amor e Amizade & Outras Histórias, Lady Susan e os inacabados Os Watson e Sanditon. Também assina a tradução da biografia A Verdadeira Jane Austen, de Paula Byrne, e escreveu O Livro dos Leitores Imaginários, no qual “adapta” — as aspas são dele próprio — um trecho de A Abadia de Northanger para o cinema.
1) Em algum lugar do mundo, tem sempre alguém adaptando Jane Austen para o cinema, a TV ou o streaming. O que explica a permanência da sua obra?
Adriana Sales: Acho que, antes de tudo, Jane Austen continua sendo lida e adaptada porque sabia contar boas histórias e criar personagens com os quais temos alguma afinidade. Embora seus livros tenham sido escritos há mais de 200 anos, ela aborda questões que continuam presentes: o amor, o dinheiro, as relações familiares, as expectativas sociais e a dificuldade de conciliar o que desejamos com aquilo que esperam de nós. Além disso, Austen era uma observadora extraordinária do comportamento humano. Com humor, ironia e muita sensibilidade, ela mostrava as contradições das pessoas e da sociedade em que viviam. Seus romances não falam apenas de casamentos e histórias de amor, mas também das poucas possibilidades de escolha que as mulheres tinham naquela época. Cada geração encontra algo diferente em seus livros. E é isso que torna as adaptações tão interessantes: elas não precisam simplesmente reproduzir o que Austen escreveu, mas podem mostrar como essas histórias conversam com o mundo de hoje. A obra permanece viva justamente porque permite novas leituras, sem perder sua força original.
Rodrigo Breunig: Adoro Jane Austen pela voz inconfundível, pelas frases longas, pelo discernimento da observação do mundo e pela ironia incrivelmente inteligente. Ela permanece porque seus romances são catedrais literárias que pedem releitura. Só não relê quem se contenta em saber quem casou com quem. Claro, existem catedrais literárias que não permanecem como Jane Austen, mas é difícil construir uma catedral engraçada e leve. Acho que o cinema e a TV não se cansam nunca dela por causa do quem-casou-com-quem, dos finais felizes e da engrenagem mágica dos diálogos, que são os melhores da história do romance inglês.
Austen não está dizendo que uma está certa e a outra, errada. Uma das grandes questões do livro é: precisamos escolher entre razão e emoção? Ou precisamos aprender a conviver com as duas coisas?
ADRIANA SALES
Fundadora da Jane Austen Sociedade do Brasil
2) O que Razão e Sensibilidade tem a dizer para nossos tempos e a sociedade de hoje?
Adriana Sales: Bem, creio que muito mais do que pode parecer à primeira vista! O romance acompanha duas irmãs, Elinor e Marianne Dashwood, que lidam de maneiras diferentes com os sentimentos, o amor e as dificuldades da vida. Elinor procura agir com prudência e controlar as emoções; Marianne é mais impulsiva e acredita intensamente naquilo que sente. Mas Austen não está simplesmente dizendo que uma está certa e a outra, errada. Para mim, uma das grandes questões do livro é justamente essa: precisamos escolher entre razão e emoção? Ou precisamos aprender a conviver com as duas coisas? O romance também continua atual porque mostra como o dinheiro e a posição social interferem nas relações pessoais. As mulheres da família Dashwood enfrentam uma situação de vulnerabilidade econômica e têm poucas possibilidades de construir uma vida independente. O casamento, naquele contexto, não era apenas uma questão de amor, já que podia determinar o futuro financeiro e social de uma mulher. Essa dimensão continua interessante para o leitor de hoje, porque nos faz pensar sobre a autonomia feminina, a dependência econômica e as pressões sociais que influenciam nossas escolhas. As circunstâncias mudaram, evidentemente, mas ainda precisamos negociar nossos desejos com as expectativas dos outros. E Austen tem muito a nos dizer sobre isso.
Rodrigo Breunig: Entre outras coisas, Razão e Sensibilidade nos diz que dinheiro não traz felicidade, mas traz conforto, que é mais importante do que felicidade. O primeiro diálogo do livro, no segundo capítulo, é uma longa conversa sobre dinheiro. Digamos que você fosse a filha única de um homem rico: você não podia contar com a herança, que passava ao herdeiro homem mais próximo, por mais distante que fosse. Era casar bem ou passar mal. Nesse universo do livro, os homens em maior ou menor destaque são todos rentistas, e os únicos que trabalham pra ganhar a vida são os criados, que naturalmente ganham mal. E as criadas inglesas ganhavam até cinco vezes menos que os criados. Criadas chegavam a ganhar cinco libras por ano (algo como R$ 300 por mês). No penúltimo capítulo, o dinheiro traz o final feliz: lemos que “nenhum dos dois estava tão apaixonado a ponto de pensar que 350 libras por ano (algo como R$ 20 mil por mês) lhes propiciariam os confortos da vida”.
Razão e Sensibilidade nos diz que dinheiro não traz felicidade, mas traz conforto, que é mais importante do que felicidade.
RODRIGO BREUNIG
Tradutor de sete livros de Jane Austen
3) O que não pode faltar em uma adaptação de Razão e Sensibilidade? E que mudanças ou omissões poderiam ser problemáticas?
Adriana Sales: Espero que a adaptação compreenda a complexidade das personagens e não transforme o romance apenas em uma história de amor com figurinos bonitos e cenários de época. A ambientação é importante, claro, mas não pode ser mais importante do que aquilo que a história tem a dizer. Adaptar Jane Austen não significa apenas conquistar novas gerações que ainda não leram seus livros. É fundamental estabelecer um diálogo entre o texto original, a linguagem da adaptação e o público a que ela se destina, respeitando a obra, mas também encontrando maneiras de torná-la significativa para os espectadores de hoje. Elinor e Marianne precisam ser retratadas como mulheres complexas, com suas contradições, fragilidades e qualidades. Seria um equívoco apresentar Elinor como uma mulher fria, que não sente, e Marianne como alguém que simplesmente não sabe controlar as próprias emoções. As duas têm muito a aprender, e nenhuma delas representa, sozinha, a maneira correta de viver. Também considero importante a crítica social presente no romance, especialmente a relação entre dinheiro, casamento e liberdade de escolha das mulheres. Se esses elementos forem deixados de lado, corremos o risco de transformar uma narrativa que questiona as convenções sociais em uma história que apenas celebra o romance e o final feliz. Isso não significa que uma adaptação precise ser fiel em todos os detalhes. O cinema e a televisão têm suas próprias linguagens, sendo as mudanças quase que inevitáveis e muitas vezes enriquecedoras.
Rodrigo Breunig: Espero alguma infidelidade. Para o meu gosto, as melhores adaptações de grandes obras literárias costumam ser as infiéis. Então acho que só não podem faltar as duas maneiras de amar: uma irmã expõe o peito ao sofrimento, a outra se protege.

Columbia / Divulgação
Emma Thompson e Kate Winslet em “Razão e Sensibilidade” (1995), de Ang Lee. Columbia / Divulgação
4) Qual é a sua adaptação favorita de algum livro de Jane Austen e por quê?
Adriana Sales: Tenho um carinho especial pelo filme Razão e Sensibilidade, de 1995, por ter sido a primeira adaptação de Jane Austen a que assisti. A forma como o diretor Ang Lee e a atriz e roteirista Emma Thompson conseguiram transformar o romance em cinema sem simplificar suas personagens é um diferencial. É uma adaptação que posso rever e continuar descobrindo detalhes sobre as relações familiares, os sentimentos e as convenções sociais que orientam as escolhas das protagonistas. É um filme que consegue equilibrar o respeito ao romance original com escolhas próprias da linguagem cinematográfica. Gosto particularmente da maneira como o filme constrói a relação entre as duas irmãs. Ele não reduz Elinor à razão nem Marianne à emoção, mostra que, por trás das diferenças, existe um vínculo afetivo muito forte. A interpretação de Emma Thompson dá espaço aos sentimentos de Elinor, mesmo quando ela tenta escondê-los, e Kate Winslet transmite a intensidade e o idealismo de Marianne. Outro aspecto interessante é a maneira como o filme apresenta os personagens masculinos. Edward Ferrars (Hugh Grant) e o Coronel Brandon (Alan Rickman) ganham uma sensibilidade que nem sempre é tão evidente no romance. Eles demonstram afeto, insegurança e vulnerabilidade, o que amplia nossa compreensão dessas personagens. Mas também gosto muito da minissérie Razão e Sensibilidade, produzida pela BBC em 2008. Por ter mais tempo para desenvolver a narrativa, ela explora com cuidado as dificuldades enfrentadas pelas irmãs Dashwood, inclusive a precariedade econômica em que passam a viver. Os figurinos e os espaços domésticos ajudam a perceber que a situação financeira da família não é apenas um detalhe da trama: interfere diretamente nas possibilidades de vida das personagens. Acho interessante comparar as duas versões porque elas mostram que uma mesma obra pode gerar interpretações diferentes, sem que uma necessariamente invalide a outra. E não posso deixar de mencionar, Orgulho e Preconceito (2005), dirigido por Joe Wright, com Keira Knightley e Matthew Macfadyen. Mesmo 20 anos após seu lançamento, o filme continua conquistando públicos de diferentes gerações, o que demonstra a força da história e sua capacidade de se renovar aos olhos dos espectadores.
Rodrigo Breunig: Palácio das Ilusões (1999), versão da diretora Patricia Rozema para Mansfield Park. É um filme infiel. Aparece o sangue da escravidão. No romance, a protagonista é frágil, incapaz de levantar a voz, resignada com seu próprio suplício. O crítico Lionel Trilling escreveu certa vez: “Ninguém, creio eu, jamais julgou ser possível gostar da heroína de Mansfield Park”. No filme, é tão impossível não gostar de Fanny Price (papel de Frances O’Connor) quanto é impossível não gostar de Jane Austen.