Gazeta de Longbourn Apresenta: Cranford

Em primeiro lugar, Cranford é possessão das Amazonas; todas os detentores de casas acima de um certo aluguel são mulheres. Se um casal vier a se instalar na cidade, de alguma forma o cavalheiro desaparece; ele é ou assustado até a morte por ser o único homem nos saraus de Cranford, ou ele é contado como estando em seu regimento, em seu navio, ou extremamente envolvido com negócios ao longo de toda a semana na grande cidade comercial vizinha de Drumble, distante apenas 20 milhas de trem.

Elizabeth Gaskell – Cranford

Peguei esse livro emprestado com a Lu Campelo (por sinal, obrigada, Lu!) com, sei lá porque cargas d’água, a firme convicção de que o leria em inglês. Já até tinha visto que a Raquel de Queiroz traduzira muitos anos atrás a Gaskell, mas essa lembrança não me veio à mente nem de longe a princípio. Foi assim que quase caí da cadeira ao abrir a capa e descobrir que estava em português. E um português delicioso, cheio de palavras de expressões de ‘antanho’, conferindo ao texto muita personalidade.

Claro que isso não adiantaria de nada se o texto da Gaskell, em si, não fosse também tão gostoso. E ele é, embora a princípio eu tenha estranhado um pouco…

Meu problema foi que meus primeiros contatos com a obra dessa autora se deram através das adaptações para a TV feitas pela BBC, séries essas que receberam um tratamento análogo às inspiradas em Austen, de tal forma que fiquei com a impressão de que Elizabeth Gaskell fazia o mesmo estilo que Jane Austen.

Eu estava, claro, completamente errada, e foi por isso que no início do livro fiquei sem saber se estava ou não gostando – tendo esperado o estilo mais seco, menos descritivo e bem mais sutil de Austen, a riqueza de detalhes e o tom por vezes terno por vezes rasgadamente cômico da Gaskell me confundiram. Aí respirei fundo, esvaziei a cabeça do que eu acreditara antes saber e recomecei a ler.

Não sei ainda se a autora mantém o mesmo estilo em todos os seus livros (Norte e Sul me olha ali da estante e ele será o próximo a ser devorado), mas ao menos em Cranford, fiquei perdidamente apaixonada pela rica tapeçaria de personagens que ela borda num romance quase que absolutamente sem nenhum romance.

Cranford é um pequeno vilarejo completamente dominado por mulheres – e são essas mulheres e suas vidas prosaicas e tranqüilas que são o centro da história. Não existem heróis nem mocinhas, mas senhoras simples, divertidas em suas visões por vezes ultrapassadas da sociedade e que nos cativam intensamente com seus pequenos problemas, suas pequenas manias, seus pequenos gestos de bondade.

É, enfim, um romance de miudezas, auto-centrado e auto-suficiente, quase anedótico em muitas partes – como o episódio da renda que o gato comeu ( e as peripécias para faze-lo ‘descomer’ de tal forma que a renda pudesse ser posteriormente usada e ‘você nem diz que ela já passou pelo estômago de um gato!’) ou da vaca usando pijamas – e em outras melancolicamente delicado – como o triste caso de amor do Mr. Holbrook e Miss Matty ou a história do ‘pobre Peter’.

O livro é composto de capítulos curtos, que em geral parecem episódios soltos dessas senhoras de Cranford, podendo ser lidos até fora de ordem, como contos independentes. Todo narrado em primeira pessoa (e é apenas uma vez, já quase no final do livro, que descobrimos o nome dessa narradora), ele cria um senso de intimidade, de cumplicidade com o leitor que é também, por si, bastante interessante.

A série que citei no início mistura ao texto original desse livro outros contos da autora que continuam a visitar o querido vilarejo – e creio que essa amálgama tenha feito a série ganhar bastante em termos de ritmo e drama. Judi Dench está absolutamente sensacional como Miss Matty e – nunca pensei que diria isso dela, uma vez que estou acostumada em vê-la em papéis bem fortes – te dá uma vontade enorme de abraçá-la e pedir para sentar no colo.

* Lu Darce (JASBRA-PE) está de malas prontas para passar férias em Cranford. Esse e outros roteiros turísticos-literários, você encontra em Coruja em Teto de Zinco Quente.

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Cranford Parte 1 – Biografia de Elizabeth Gaskell

Hoje, daremos início a uma série de posts sobre a escritora inglesa Elizabeth Gaskell. Estamos participando da leitura e blogagem coletiva organizada pela Katherine Cox do Elizabeth Gaskell Blog. Para entender melhor, leia aqui o nosso primeiro post sobre o assunto e veja o cronograma de leitura.

Briografia (adaptada de Olívia Krahenbuhl, 1945)

Elizabeth Gaskell nasceu em 29 de setembro de 1810, no bairro londrino de Chelsea. Perdeu a mãe muito cedo, com apenas um mês de idade, e foi morar com a tia viúva Sra. Lumb. Seu pai, o Ministro William Stevenson, morreu em 1829.
Elizabeth casou-se em 1832, com o Rev. William Gaskell, pastor em Manchester. O interessante é que Mrs. Gaskell relata que suas bodas se realizaram na igreja de Knutsford, cujos paroquianos se reuniram para enfeitá-la de acordo com os costumes da região. Tal decoração consistia em espalhar areia vermelha no chão em frente às casas, e, com areia branca, fazer desenhos ou inscrições  alusivos à solenidade sobre a areia vermelha. Elizabeth ainda menciona que no dia do seu casamento, nenhuma casa fiocu sem decoração e dentre as quadrinhas escritas, as mais frequentes eram as seguintes:
Long may they live,
Happy may they be,
Blest with content
And from misfortune free
Long may they live,
Happy may they be,
And blest with numerous
Pro-ge-ny
Após o casamento Elizabeth e William se dirigiram à casa em Manchester, onde William não apenas era pastor, mas também ocupava o cargo de professor de História e Literatura Inglesas. Nos anos seguintes, embora não tivessem filhos, foram abençoados com um casamento feliz. Os dois tinham os mesmos interesses, e o marido se interessava pelos êxitos literários da mulher. Por outro lado, Elizabeth era muito interessada e colaborava das obras sociais desenvolvidas pelas esposo em sua igreja de Cross Street.
Elizabeth Gaskell

Elizabeth e William tiveram seis filhos, sendo que o único filho, William, morreu quando bebê e uma bebezinha nasceu e mal sobreviveu ao primeiro dia de vida. Tiveram quatro meninas chamadas: Marianne (1834), Margaret Emily conhecida como Meta (1837), Florence Elizabeth (1842) e  Julia Bradford (1846).
Marianne, Meta e Flossy
Visite também:

Vamos ler Cranford?

A Katherine Cox, do Elizabeth Gaskell Blog, convida a todos para participarem da leitura de Cranford.
Você poderá participar também escrevendo um post resumindo o livro. Veja como será:
De 9 de novembro até 14 de dezembro
– 9 de novembro: escrever um post sobre Cranford (publicação e reações dos contemporâneos de Gaskel).
– 16 de novembro todos os participantes deverão ter lidos os capítulos 1 a 3, e se quiserem escrever um post com um resumo, opiniões e trechos que mais gostou.
– e continuará assim até que terminemos a leitura do livro. 
Para quem não conhece a obra de Gaskel, pode ser uma ótima oportunidade para ler um dos livros da autora. Porém, aqui no Brasil, não há edições disponíveis em português, só se você encontrar uma raridade nos sebos. A minha edição de Cranford em português é de 1944! Para saber um pouco mais sobre a escritora, leia aqui o post que escrevi.

Parabéns Elizabeth Gaskell!

Para celebrar o aniversário de 200 anos de nascimento da escritoa Elizabeth Gaskell, a Laurel Ann do AustenProse, decidiu organizar uma postagem coletiva! Achei a ideia fabulosa!
Para quem não conhece a Elizabeth Gaskell (29 September 1810 – 12 November 1865), ela é autora de diversos romances do século 19. Os mais conhecido aqui no Brasil, talvez seja North and South por causa da série de Tv (2004).
Os livros publicados:
Mary Barton (1848)

Cranford (1851–3)
Ruth (1853)
North and South (1854–5)
Sylvia’s Lovers (1863)

Wives and Daughters: An Everyday Story (1865)

Elizabeth Gaskell
– Leia uma resenha da série North and South no Fly High (Maria Grazia).
– Leia uma biografia de Elizabeth Gaskell no Jane Austen’s World (Vic Sanborn).
– Leia uma resenha do livro North and South no AustenProse (Laurel Ann).
– Neste post de Laurel Ann você poderá ver a lista dos blogs participantes e também poderá ler mais resenhas e biografia da escritora.
Os livros de Gaskell podem ser encontrados em formato digital no Projeto Gutenberg.
Mais informações sobre a escritora podem ser obtidas na The Gaskell Society.
Mais informações sobre Northa and South – O Musical, você poderá ler aqui.
North and South (Musical) Mr. Thorton and Miss Hale (Margaret)
***
Minha experiência com Elizabeth Gaskell não é tão vasta quanto a que tenho com Jane Austen. Porém, após assistir a série North and South, eu me apaixonei pela história e fui atrás de obras da escritora. Eu também já assisti a série Wives and Daughters, gostei muito!
No semestre passado, eu adotei North and South (Penguin Readers) com meus alunos do segundo ano do Ensino Médio (CEFET-MG). Foi interessante porque alguns puderam utilizar elementos da história e Gaskell em um trabalho sobre revolução industrial para as aulas de história. O livro adotado no CEFET-MG não é a versão integral da obra, é um versão resumida para alunos de inglês do nível intermediário. Infelizmente no Ensino Médio não há como utilizarmos as obras completas, até mesmo pelo nível de proficiência dos alunos. Mas, considero o meu trabalho como uma desafio pois não é comum jovens da idade dos meus alunos lerem literatura clássica em língua estrangeira.
Eu tenho quatro livros de Gaskell em inglês (3 da editora Wordsworth e 1 da editora Dover): Wives and Daughters, North and South, Cranford and other stories.
Editora Wordsworth
Cranford e outras histórias
Cranford
DVD North and South (BBC)
Em português, eu tenho dois livros apenas e um DVD (Editora Logon):
Livros em português
Edição Portuguesa da Editora Portugália de Margaret Brown (1943)
Edição brasileira de Cranford, Editora José Olympio (1946), traduzido por Raquel de Queiroz.