Raquel de Queiróz e a tradução de Mansfield Park

O texto abaixo é uma contribuição de Ana Maria Almeida – co-fundadora do Jane Austen Sociedade do Brasil e é baseado no artigo acadêmico a respeito das traduções realizadas por Raquel de Queiróz.

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Jane Austen é merecidamente reconhecida como uma das mais célebres escritoras inglesas. Sua obra foi traduzida em vários países ao redor do mundo e recebeu diversas adaptações para o cinema, o teatro e a TV, tornando a escritora ainda mais famosa. Pessoas das mais diversas culturas, línguas e credos reverenciam seus livros e mantém aceso o interesse por tudo o que lhes dizem respeito.
Os fãs brasileiros de Jane Austen podem contar com traduções feitas para o português de suas seis principais obras. Contudo, há tempos que alguns destes livros andam ausentes das prateleiras de livrarias e sebos brasileiros. Recentemente, algumas editoras brasileiras vêm se ocupando com novas publicações da obra de Jane Austen. Resta-nos esperar que também se faça uma tradução para os livros da fase “Juvenilha”, ainda inéditos em publicações no Brasil. Este torna-se, portanto, um momento propício para uma reflexão sobre o árduo ofício da tradução.
Existe uma famosa frase que diz ser a História “filha de seu tempo”, ou seja, a escrita da história é um produto da vivência daqueles que a escrevem e do período no qual estes estão inseridos. O mesmo pode ser dito em relação às traduções literárias. Estas também são “filhas de seu tempo”. É uma ilusão acreditar que as traduções literárias são, puramente, versões literais de uma dada obra, reescritas em outros idiomas. Traduções literais podem parecer, à primeira vista, a forma ideal para uma tradução. Contudo, isso não é possível. Cada idioma possui suas peculiaridades, e, por vezes, estas são incompreensíveis quando transportadas para outros idiomas. Além disso, existem expressões idiomáticas que são culturalmente entendidas por uma dada sociedade, mas se tornam incompreensíveis quando traduzidas para outra língua, o que implica também em culturas diversas, ou seja, estrangeiras. Outro aspecto importante não pode ser relevado ao tratarmos de traduções: as escolhas particulares realizadas pelo tradutor diante do texto original.
Em trabalho acadêmico realizado por estudantes do bacharelado em Letras da Faculdade Federal de Juiz de Fora (UFJF) foi analisada a tradução de Raquel de Queiroz para o livro Mansfield Park, da escritora Jane Austen. Além de seu próprio trabalho como escritora, Raquel de Queiroz realizou diversas traduções. Mansfield Park, publicado no Brasil no ano de 1942, foi seu 4º. trabalho de tradução (sendo 47 no total). De acordo com o artigo “Raquel de Queiroz e a tradução na década de 40 do século XX”, escrito por Priscilla Pellegrino de Oliveira e Maria Clara Castellões de Oliveira, a tradução de Mansfied Park, possui implicações próprias da época em que foi produzida, e escolhas estilísticas que, de certo modo, interferem no texto original escrito pela escritora inglesa.
Tal tradução se deu no âmbito do Estado Novo, período autoritário do Governo Vargas, em que os meios de comunicação – entre eles, o meio editorial – eram fortemente controlados pelo Estado. Entre as diversas traduções realizadas por Queiroz observa-se a preponderância de obras com temática feminina, além de muitas obras escritas por mulheres. Algo que não deixa de refletir o momento de conquistas femininas no governo Vargas, com destaque para o direito da mulher ao voto. Não obstante, Fanny Price, a protagonista de Mansfield Park, ser considerada a mais submissa das protagonistas austeanas.
Segundo Priscilla Pellegrino e Maria Clara Castellões, ao trazer o romance de Austen para a língua portuguesa, Raquel de Queiroz utilizou-se de “estrangeirismos”, ou seja, conservou determinados termos de língua inglesa, como os títulos Sir, Mr e Gentleman, assim como também deixou, em alguns momentos, trechos inteiros sem tradução, sem sequer criar notas de rodapé. Todavia, na maior parte do texto, Queiroz optou por uma tradução que fizesse com que o texto parecesse ter sido produzido originalmente em língua portuguesa. Esta escolha implicou, por vezes, na substituição de expressões próprias da língua inglesa por expressões próprias da língua portuguesa, no intuito de proporcionar maior fluência aos leitores brasileiros. Em outros momentos, frases inteiras foram suprimidas na tradução. Um bom exemplo é a frase she could not to be thankful (algo como ela não poderia fazer coisa alguma senão agradecer), que foi traduzida simplesmente por: ficou agradecida.
A conclusão é que Raquel de Queiroz optou por fazer uma tradução mais idiomática do que literal. Nas palavras das autoras do artigo aqui comentado, Queiroz “forneceu ao público-leitor uma visão do estilo da autora britânica que não condiz com aquele que é percebido quando o texto é lido em seu original em língua inglesa”. Entretanto, nada disso diminui os méritos que de tal tradução, que ajudou milhares de leitores não familiarizados com a língua inglesa a terem acesso a mais uma das obras de Jane Austen. Se as adaptações feitas por Raquel de Queiroz alteraram o sentido de algumas frases, elas de modo algum alteram o sentido original da obra. A essência do texto manteve-se inalterada, sem maiores prejuízos para o leitor brasileiro.
Voltando às nossas considerações iniciais, podemos dizer que o tradutor se torna, também, um pouco pai do texto traduzido, deixando sua própria marca em algo que, apesar de não lhe pertencer originalmente, possui muito de si próprio.
(Para conferir o artigo “Raquel de Queiroz e a tradução na década de 40 do século XX” de autoria de Priscilla Pellegrino de Oliviera e Maria Clara Castellões de Oliveira ver o artigo completo)
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Faz-se necessário observar que os comentários aqui publicados em nenhum momento tiveram a intenção de denegrir a imagem da nossa querida Raquel de Queiróz, nossa intenção é incentivar a discussão em torno de Austen e suas obras.
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8 thoughts on “Raquel de Queiróz e a tradução de Mansfield Park

  1. Daiane Santo 21/11/2009 / 3:19 PM

    Pelo que compreendi a tradução de Raquel de Queiroz teve uma preocupação maior com a adaptação idiomática do que com a própria ideia de Jane, mas em nehum momento,como você mesmo citou, há a depreciação de seu trabalho.Acho natural e necessária essa preocupação, afinal,o livro teve leitores brasileiros,mas acredito que seja importante a fidelidade com o estilo do autor.Bom, como não entendo nada de tradução,não sei qual a dificuldade em unir esses fatores.Ótimo texto!
    Daiane

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  2. Lord Daniel 21/11/2009 / 6:17 PM

    Uma tradução que omite trechos inteiros de uma obra me parece essencialmente frágil, não importa quanto nome ou mérito a pessoa que a fez tenha…

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  3. Adriana Zardini 22/11/2009 / 7:26 PM

    Daiane, verter um texto em outra língua para nossa língua materna é e será sempre um desafio. Existem muitas questões que o tradutor tem que levar em conta, como o estilo do autor, o contexto do livro, o contexto do leitor… enfim, questões que levaríamos horas discutindo.

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  4. Stephen Fry Brasil 24/11/2009 / 6:51 PM

    Pergunta que não quer calar: foi ela que não quis colocar as notas de rodapé ou foi a editora que, por algum motivo, não permitiu?

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  5. Adriana Zardini 24/11/2009 / 9:19 PM

    Elaine, essa é uma pergunta interessante, infelizmente só podemos afirmar algum se existirem os originais da tradução de Raquel. Como os direitos dessa tradução foram comprados, e o comprador se recusa a publicar a obra, fica bastante difícil.

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  6. Lord Daniel 25/11/2009 / 12:22 AM

    Deixem os acadêmicos da área lidarem com essa tradução. Já há outra no mercado em seu país. Ainda vou examiná-la com carinho quando a Câmara dos Lordes entrar em recesso. Será que vou considerá-la “essencialmente frágil”? Espero que não…

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