Quartas – Minha história com Jane Austen: Cíntia Scelza

Prezados leitores, hoje é dia da Coluna das quartas-feiras: Minha história com Jane Austen! 
Com vocês: 
Cíntia Scelza

Meu primeiro livro de Jane Austen foi comprado em 1996, em uma livraria do centro do Rio que era freqüentada pelos estudantes da pós-graduacao em História que eu fazia na época. Lembro perfeitamente do dia em que cheguei lá e dei de cara com a bancada cheia de livrinhos amarelos de bolso que apesar de importados, custavam, cada um, o equivalente a uma libra esterlina – uma bagatela, mesmo em cruzeiros ou cruzados (nao me lembro mais qual era a moeda brasileira na época). Mas era uma bagatela que suportava Dickens, as irmas Bronte, Gaskell, Wilde e uma certa Jane de sobrenome Austen, de quem eu tinha ouvido falar por causa do filme de 1995, de Ang Lee. Enchi (literalmente) minha mochila com esses livrinhos, entre eles dois de Austen: Sense and Sensibility e Persuasion. Mas a rotina de pesquisadora em uma área bem diferente da de Literatura Britânica acabou empurrando para adiante a leitura, e por vários anos os livrinhos ficaram guardados, me observando passar para cá e para lá em frente à minha estante.

Cíntia Scelza

O tempo passou, eu terminei mestrado, comecei a dar aulas, fiz doutorado, me mudei para a Alemanha, casei e tive filho…. Em agosto de 2009 tinha que comprar um presente de aniversário para minha sogra, e escolhi o livro Orgulho e Preconceito., pois afinal, volta meia eu ouvia que é um clássico, e minha sogra gosta de clássicos. Entao ao comprar a traducao em alemao para ela, decidi comprar também a versao original em inglês para mim, pois em se tratando de um livro freqüentemente citado, achei por bem conhecê-lo.
A coincidência foi que na mesma época minha mae me enviou do Brasil o DVD do filme com a Keira Knightley. Eu comecei a ler o livro, logo depois o DVD chegou pelo correio e eu assisti… e foi entao que eu caí.
Claro que os olhos e a voz do Darcy de Matthew MacFadyen tiveram parte nisso, mas o que me fez “cair” de verdade foi a declaracao de amor que ele faz de forma totalmente inesperada, em um momento que (para mim) foi inteiramente inesperado. Aquele Darcy pegou a Elizabeth e a MIM de surpresa.
Eu nao conhecia a história de antemaao, nao tinha a menor idéia de que isso ia acontecer, mas a surpresa veio principalmente porque eu já tinha perdido a fé em declaracoes de amor como essa. Literatura ou nao, Hollywood ou nao, Darcy sacudiu aquele cinismo com relacao ao romance que a gente às vezes vai adquirindo ao longo da vida, depois de tantos relacionamentos que nao vao adiante e que marcam a história da gente com pequenas despedidas às ilusoes, às fantasias.
Engracado que hoje esse Darcy de 2005 se tornou embacado em comparacao com o Darcy de 1995, do Colin Firth, que é para mim a suma traducao para a carne, osso e celulóide do que Jane escreveu há 200 anos. Mas naquele momento, MacFadyen foi a personificacao da minha surpresa. Talvez porque eu intuitivamente tenha me identificado com a Elizabeth desde o início da leitura do livro, quando Darcy veio à vida via filme e fez aquela declaracao, eu acho que vivi a fantasia saudável de que era uma declaracao para mim também! (risos)
ISSO é o que mais amo em literatura…. o quanto é possível viver outras vidas através dela, e de forma tao intensa…. viver outras vidas dentro da nossa própria! Austen funcionou como um dos veículos mas perfeitos que proporcionaram essa experiência para mim!
A partir daí foi uma avalanche de pedidos de livros pela internet, e quanto mais eu lia, mais eu queria ler. Comecei a ler as fan-fictions que viraram livros nao porque realmente gostasse da qualidade delas, mas apenas para poder estar mais tempo na presenca de Elizabeth e Darcy… Depois passei a ler biografias da Jane, livros acadêmicos que discutiam o impacto cultural da obra dela, e nunca me cansei de revisitar cada um dos livros e das personagens que ela criou.
Mas se o tema da coluna é minha relacao com Jane, há outro aspecto que preciso compartilhar… À parte essa face lúdica do meu encontro com a autora, o que mais me fascina na obra dela é o retrato de mulher que ela desenha. Um modelo de mulher que está dentro de mim e de você, mesmo que a consciência disso nao seja plena, mas que orienta muitos dos nossos desejos e fantasias, e por conseguinte, das nossas escolhas. Ler Jane Austen para mim é como conhecer algumas origens da minha subjetividade, do meu estar-no-mundo. É visitar alguns dos tracos desta subjetividade, que compartilho com minhas amigas, com minha mae, com minhas avós, com todas as outras mulheres que encontro ao longo da vida. Conhecê-la lanca luz à compreensao das expectativas que criamos sobre nossos maridos, namorados, nossos filhos, sobre nossas relacoes e nossas vidas sociais e até nossas profissoes.
Jane Austen para mim está muito longe de ser apenas literatura do século XIX. Ela deu materialidade e acessibilidade a um modelo possível do ser mulher e aos desdobramentos deste modelo, que eu vivo na atualidade.
Jane nao é só uma autora que aprecio. Eu gosto de dizer – e sinto meu coracao aquecido quando o faco – que Jane é minha amiga, minha camarada, com quem tomo chá nas tardes de domingo.

O maravilhoso acervo de Cíntia! 

5 thoughts on “Quartas – Minha história com Jane Austen: Cíntia Scelza

  1. Renata Céli 10/04/2013 / 3:19 PM

    Amei sua história!! Concordo com você, quando gostamos muito de um escritor, sentimos uma relação de amizade!!

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  2. luciennemachado12 10/04/2013 / 7:42 PM

    Linda história! Entendo esse sentimento de amizade por Jane,é assim que falamos de uma amiga,por quem temos tanta afinidade!

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  3. Tati Krempser 11/04/2013 / 9:00 AM

    Adorei a história!

    O que eu acho legal de ler essas histórias é que nós percebemos que algumas coisas que achávamos que acontecia apenas com a gente, acontece com outras fãs.

    Pra mim também a Jane Austen é muito mais do que apenas literatura 🙂

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