Jane Austen por Luciana Darce – Parte 5/6

A biblioteca de Austen

Vamos começar hoje de onde paramos no último tópico: a questão da educação como um dos temas centrais que perpassa toda a obra de Austen – especialmente de um ponto de vista ético-moral.
Boas maneiras e dever para com a sociedade são expressões muitas vezes utilizadas em seus romances e caracterizam o código moral interposto pela autora. Na verdade, todas as personagens de Austen passam por um processo de educação, de “iluminação”, pelo sentido de ascensão moral.
Nós temos, por exemplo, Marianne, em Razão e Sensibilidade em seu reconhecimento da necessidade de temperança; Catherine, em Northanger Abbey, compreendendo que o mundo não é um romance gótico e que ela não deve sair fazendo suposições nem enfiando o nariz onde não é chamada e, Emma, no livro homônimo, dando-se conta de que não é nenhuma mestre das marionetes e que as pessoas ao seu redor não estão ali colocadas para seu deleite pessoal.
Não esqueçamos também Elizabeth Bennet, que revê em Orgulho e Preconceito toda a sua conduta, seus preconceitos em relação a Darcy e Wickham, sua visão de mundo restrita – e ela mesma o admite:

Por assim dizer, as heroínas de Austen passam por sua própria “jornada do herói” (perdoe-me Campbell, pelo uso frouxo que faço de suas teorias) – elas precisam evoluir moralmente, reconhecendo o erro de seus julgamentos e amadurecendo para o mundo.

– De que modo desprezível agi! – exclamou. – Eu, que me orgulhava de meu discernimento! Eu, que me congratulava por minhas habilidades! Que tantas vezes desdenhei a generosa candura de minha irmã e gratifiquei minha vaidade com desconfianças inúteis ou censuráveis! Como é humilhante esta descoberta! Mas como é merecida esta humilhação! Estivesse eu apaixonada e não poderia estar mais desgraçadamente cega! Mas foi a vaidade, e não o amor, a minha insensatez. Lisonjeada com a preferência de um e ofendida com o desprezo do outro, pouco depois de nos conhecermos, alimentei em relação a ambos o fascínio e a ignorância e abandonei a razão. Até este momento, eu não me conhecia.

Ao final das contas, devemos lembrar que praticamente todas elas são muito jovens – exceto por Anne, que está às portas de tornar-se uma balzaquiana – com idades variando entre dezessete e vinte e dois anos. Se, para a época, essa era uma boa idade para se casar e começar uma família, não é exatamente uma idade em que somos lá muito sábios ou cautelosos.
Pelo contrário, a marca da juventude é impetuosidade de corpo e espírito, impressionabilidade, e o início da descoberta de que há um mundo lá fora. E a gente tem de levar umas pancadas na cabeça antes de nos tocarmos que as coisas nem sempre são aquilo que parecem.
Nem tanto assim mudou em duzentos anos, não é verdade?
Essa jornada pela qual passam nossos heróis e heroínas austenianos são também um mundo literário à parte. Na verdade, nós poderíamos montar uma biblioteca só com os livros citados, satirizados ou homenageados nos romances de Jane Austen.
Como já falei em um tópico anterior, os livros que Austen coloca seus personagens para ler são também um indicativo da época em que eles se passam – como os pesquisadores mais aficcionados são capazes de indicar. De cabeça e sem dar uma colada nos livros, eu posso citar de imediato Ann Radcliffe em Northanger (óbvio) e Byron e Scott em Persuasão.
Aliás, o capitão Wentworth me parece muito byroniano em algumas acepções…
Talvez vocês se lembrem, lá da primeira parte deste especial, que falei sobre Plan of a Novel, manuscrito de 1816 em que Austen demonstra sua verve para o humor e para ironizar o que havia de ridículo – inclusive na literatura de sua época.
Suas primeiras obras foram, em muitos pontos, experimentos – o uso de clichês literários bastante em voga à época, estereótipos dos chamados “romances de sensibilidade”, os quais ela subvertia completamente.
Um dos mais deliciosos e divertidos exemplos que encontrei dessa característica de subversão foi em Lesley Castle, outro dos excertos da Juvenilia:

Perhaps you may flatter me so far as to be surprised that one of whom I speak with so little affection should be my particular freind; but to tell you the truth, our freindship arose rather from Caprice on her side than Esteem on mine. We spent two or three days together with a Lady in Berkshire with whom we both happened to be connected. — During our visit, the Weather being remarkably bad, and our party particularly stupid, she was so good as to conceive a violent partiality for me, which very soon settled in a downright Freindship, and ended in an established correspondence. She is probably by this time as tired of me, as I am of her; but as she is too polite and I am too civil to say so, our letters are still as frequent and affectionate as ever, and our Attachment as firm and sincere as when it first commenced.

Sou a única a morrer de rir aqui com a completa falta de sentido desta carta? “Ela estará provavelmente tão cansada de mim quanto eu dela; mas como ela é muito polida e eu, muito civil, para dizê-lo, nossas cartas continuam tão freqüentes e cheias de afeição como sempre…” – poderíamos passar o dia aqui tirando dessa única frase várias e várias considerações e ainda assim, não iríamos exaurir o tema.
Assim é que agora, vou deixá-los para tirar suas próprias conclusões. Já falei e fiz propaganda o suficiente para que tenham ao menos uma idéia do que o esperam e um vislumbre da genialidade de Austen – especialmente a se considerar que ela foi uma autora, mulher, num mundo e século ainda dominados por homens.
Apenas para terminar esse especial, na próxima e última parte, vamos dar uma pincelada sobre essa nova moda de misturar clássicos com o sobrenatural – e dá-lhe vampiros, lobisomens, múmias, zumbis, krakens, fantasmas… (continua no post seguinte)

Jane Austen por Luciana Darce – Parte 4/6

É engraçado que, se você for para a ponta do lápis com os livros de Austen, vai perceber que eles têm um cronograma quase perfeito. Você pode se localizar temporalmente, numa seqüência de acontecimentos bastante lógica – um detalhismo que parece se contrapor à pouquíssima descrição física que ela faz.
Há inúmeros artigos de estudiosos que montam esses calendários dia-a-dia, alguns devotando uma enorme atenção até a descobrir a exata época em que cada história se passaria, fazendo cálculos que envolvem o ano em que ela começou a escrever tal história, o ano em que a história foi publicada – tendo assim passado por uma última revisão – para depois sair catando no calendário quando nessa margem houve páscoa em março ou abril; quando o livro que determinado personagem aparece segurando foi popular, vasculhando a parca correspondência que foi preservada pela família (que preferiu queimar a maior parte) e assim por diante.
E tem gente que diz que eu sou maníaca e perfeccionista…
O único romance, contudo, que realmente tem uma data absolutamente certa trazida no próprio bojo da história é Persuasão, assunto, aliás, sobre o qual já tratamos num dos capítulos anteriores desse especial.
E, se vocês prestarem muita, muita atenção nas histórias, vão perceber que em quase todos os seus romances (exceto pela Abadia de Northanger), incluindo aqueles que compõem a chamada Juvenilia, alguma coisa muito ruim sempre acontece nas terças-feiras.
Sério, as terças de Austen são malditas – geralmente elas terminam com o herói/heroína sofrendo uma grande decepção/humilhação ou golpe violento em sua dignidade.
A essa altura, vocês já devem estar se perguntando onde quero chegar com tudo isso… bem, o que estou tentando mostrar é exatamente o nível de detalhismo quase obsessivo que Austen demonstrou em sua obra, a ponto de muitos de seus livros terem passado mais tempo sendo revisados do que sendo escritos.
Embora não tenha viajado muito, Jane Austen baseava-se em almanaques para descrever lugares em que não tinha estado; o tempo de duração de uma viagem, entre as localidades mostradas em suas histórias; demorando-se em detalhes como as estações, colocando seus personagens para lerem livros ‘da moda’ ou preocupando-se com o estilo de vestidos de acordo com o que estava se usando em Londres, criando assim um universo bastante sólido, bastante crível em suas minúcias.
Essa é apenas uma das muitas características que fazem do estilo mesmo de Austen algo que se reconhece de pronto e que não é tão facilmente imitado.
Por outro lado, as descrições dos ambientes físicos estão quase ausentes nas narrativas – na contramão de outros autores da época, tal como Ann Radcliffe. Austen não se preocupa em criar uma ambientação propriamente dita e, quando o faz – como na Abadia de Northanger – é justamente para ironizar as novelas góticas, tão em voga em sua época. Lembremos, afinal, que estamos em pleno romantismo, na Inglaterra do maior expoente deste movimento: o temível e sombrio Lorde Byron – o tipo de homem contra quem mamãe nos alertou.
Em outras palavras… Tudo bem, os jardins de Pemberley são magníficos, mas vejam que ela não demora muito para descrever os pormenores da arquitetura, seu estilo (clássico, neo-clássico, sombrio, cheio de gárgulas, etc, etc, etc), ou sobre como tempestades assomam ao horizonte, mas sim as impressões que a propriedade provoca em Elizabeth.
Em vez de se concentrar na ambientação propriamente dita, Austen vai nos descrever pormenorizadamente a psique de seus personagens – como no perfil que ela traça das irmãs Dashwood, ao início de Razão e Sensibilidade:
Elinor, a filha mais velha, cujo conselho foi tão eficiente, possuía uma força de entendimento e uma frieza de julgamento que a qualificavam, embora tivesse apenas dezenove anos, para ser a conselheira da mãe, e lhe permitiam com freqüência opor-se, para proveito de todos, àquela impaciência de espírito da sra. Dashwood que em geral a levava a cometer imprudências. Tinha um excelente coração, um temperamento afetuoso e sentimentos fortes; mas sabia como governá-los.


(…)
As habilidades de Marianne eram, sob muitos aspectos, bastante semelhantes às de Elinor. Era sensível e inteligente, mas intensa em tudo: suas angústias, suas alegrias não tinham limites. Era generosa, agradável, interessante, era tudo, menos prudente

Ao final das contas, eu diria que Jane Austen tem um pé mais firme no realismo do que no romantismo e, se eu fosse pensar num autor cujo estilo me fizesse lembrar dela… eu diria Machado de Assis.
Muita gente pensa em Austen como contemporânea das irmãs Brönte, comparando-a ainda com Charles Dickens. Só que é o seguinte, jovem padawan: Brönte e Dickens pertencem à literatura vitoriana, tendo publicado depois da morte de Austen. Eles ainda seguem o romantismo da virada do século, mas já começam a demonstrar as características do romance psicológico que dará o tom do século XX.
Vejam bem, não sou uma estudante de literatura, nem uma crítica e tampouco estudo teoria literária (a não ser como hobby e se o escritor é Eco…), mas as diferenças de que falo saltam aos olhos e mesmo quem não é especialista no assunto é capaz de perceber.
Vou explicar o que penso, em linguagem cinematográfica… ou talvez fotográfica, não sei bem ao certo… mas acho que vocês entenderão do que estou falando…
O caso é que uma história escrita/que se passe na era vitoriana teria uma fotografia mais escura, trabalhando bastante o jogo de luz e sombras. Seus personagens são, geralmente, personagens “sujos” – são trabalhadores, pessoas do povo. O tom do romance gótico, que alcança seu ápice no Morro dos Ventos Uivantes, divide a cena com autores de veia mais realista, com crianças cobertas de fuligem e acostumadas à vida dura do início da Revolução Industrial, comuns em Dickens.
São histórias mais violentas – essa, afinal, foi a época que produziu Jack, o estripador! – com as ruas de Londres tomadas pelos fogs, a neblina natural característica da cidade somada à fumaça das fábricas ao princípio da Revolução Industrial.
Agora… se você conhece as obras de Jane Austen – e já assistiu algum dos filmes/séries baseados nelas… eu preciso dizer que é bem o oposto disso? Fotografia clara, ambientes amplos, temas bucólicos. E, se Dickens retrata o cotidiano urbano, Austen pinta em cores vivas o ambiente da pequena nobreza rural.
Talvez possamos dizer que Austen ainda se insere no contexto do romantismo por seus “finais felizes”, por tudo terminar com mocinha e mocinho superando todos os obstáculos num belo casamento – finais estes não tão em voga no romance moderno. Ainda assim, ela se diferencia de outros escritores seus contemporâneos pelo uso da ironia, (que é, na minha opinião, o que a aproxima do estilo do nosso Machado) e do discurso indireto, de forma a melhor explorar os pensamentos d seus personagens.
O sarcasmo de Austen pode ser tanto sutil quanto explícito; mas não falha. Ela explora com pena cortante uma sociedade de idiossincrasias, hipócrita ao extremo, não poupando nem mesmo seus protagonistas. É uma Caroline Bingley, criada para ser uma dama e que se perde em inveja, ciúme e comentários mesquinhos; é uma Emma Woodhouse, que em sua vaidade, acaba por magoar pessoas a quem devia apenas compaixão.
Austen compõem um retrato de um mundo de vaidades, de orgulho, preconceito, paixões exacerbadas – um mundo este que, a julgar por seu ponto de vista e pela evolução de suas personagens, só pode ser temperado com educação.

Jane Austen por Luciana Darce – Parte 3/6

O trabalho dignifica o homem
“Não sei se vocês já perceberam, mas em geral, personagens de uma história não são mostrados trabalhando – a não ser que o trabalho deles tenha alguma coisa a ver com a narrativa ou seja absolutamente necessário para o desenrolar dos acontecimentos. Sabemos que fulano ou sicrano é médico, advogado, engenheiro, jornalista, escritor ou o raio que o parta, mas não o acompanhamos no trabalho (nem para escovar os dentes, tomar banho, fazer necessidades fisiológicas, etc).
Venhamos e convenhamos que, se queremos rotina, a gente já tem a nossa própria e não precisamos de histórias que as repitam.
Aos leitores de Austen, contudo – ou de romances de época em geral – talvez salte aos olhos como todo mundo parece mais ou menos desocupado; tudo o que se fala é sobre casamentos, bailes, piqueniques, caminhadas, chapéus e “ai, meu Deus, a milícia está em Meryton!”.
Sabemos que a fortuna de Bingley veio do comércio e que sir Thomas Bertram tem uma plantação em Antígua, para onde tem de viajar a certa altura de Mansfield Park porque os negócios não vão lá muito bem. Sabemos que Mr. Darcy tem uma renda de dez mil libras por ano e que volta e meia ele se encontra com seu administrador em Pemberley para cuidar de negócios.
Nenhum destes cavalheiros, contudo, tem uma profissão.
A sociedade à época de Austen, nestes termos, lembra um pouco Atenas na era clássica, onde os homens livres, a casta superior em sua hierarquia, não trabalhava, uma vez que o trabalho era coisa de escravos – eles administravam e lucravam com o trabalho dos escravos e de resto, passavam seus dias a filosofar (ou o que quer que achassem interessante fazer).
Aliás, sobre a escravidão, por causa de uma única linha em Mansfield Park, acadêmicos dedicaram páginas e páginas a discutir se Austen era contra ou a favor da abolição.
— Mas eu falo com ele mais do que costumava. Não ouviu eu o interrogar ontem à noite sobre o tráfico de escravos?
— Ouvi — e tive esperança de que à pergunta fosse seguida de outras. Seu tio havia de gostar que lhe tivesse pedido outras informações.
— E eu queria muito fazer outras perguntas — mas estava um silêncio tão pavoroso! E enquanto meus primos estavam ali sentados sem dizer uma palavra, parecendo não se interessar absolutamente pelo assunto, eu não quis… — parecia que eu queria me exibir à custa do silêncio deles, mostrando uma curiosidade e um prazer pelas informações que ele decerto desejaria fossem manifestados pelas suas próprias filhas.
Não acho que se possa chegar a uma decisão definitiva acerca do assunto apenas com essa passagem, mas, a se considerar que é Fanny que questiona Sir Thomas e conhecendo seu próprio histórico e seu lugar na casa dos Bertram, eu não acredito que ela teria perguntado nada ao tio com idéias de elogiar o regime escravocrata.
Mesmo porque, quando Austen escreve esse livro, entre 1812 e 1814, a Inglaterra já editara o Ato contra o Comércio de Escravos de 1807 (que aboliu o comércio de escravos no Império Britânico, mas não a escravidão propriamente dita; que teve de esperar pelo Ato de Abolição da Escravatura de 1833).
De toda forma, o trabalho não era considerado lá muito dignificante na Inglaterra da virada do século XVIII para o XIX. Um cavalheiro vivia de renda – investia sua fortuna em títulos (fundos do governo, das Companhias das Índias, etc.) e passava o resto da vida recebendo as rendas desses investimentos.
Para investir, claro, primeiro você precisa de dinheiro, e é daí que vem a questão das heranças, um problema diversas vezes abordado nas obras de Austen.
Então… se você é o primeiro filho homem de um cavalheiro, você está feito na vida: vai receber sua herança, aplicá-la, e passar o resto da vida passeando, freqüentando a sociedade, jogando cartas e caçando faisões, tudo isso pago com as rendas que você recebe da sua fortuna aplicada em títulos.
Se você não é o primeiro filho… bem, você terá então de abrir caminho por si mesmo. Você tem, basicamente, três opções: casar-se com uma herdeira (como pretendia o capitão Fitzwilliam), fazer carreira militar (preciso falar de Wentworth e cia?) ou virar clérigo (como Edmund Bertram, Henry Tilney e Edward Ferrars).
Como já tratamos dos militares no capítulo anterior deste artigo, vamos nos deter nos clérigos por algumas linhas.
Antes de mais nada, temos de lembrar que a Inglaterra de Austen é anglicana e que a Igreja Anglicana tem regras diferentes da Católica em relação à vida de seus ministros. Para começar, eles não precisam ser celibatários.
Na verdade, ser um clérigo era como outra profissão qualquer, para a qual você não precisava ter particular vocação, recebia uma paga, além de uma casa na paróquia de que fosse cuidar.
É bom lembrar que cada paróquia tinha seu patrono – geralmente o grande senhor de terras do lugar, o cavalheiro que tivesse o maior ranking entre seus companheiros – e que era esse patrono o responsável pela designação ou indicação do vigário de seu gosto para sua paróquia.
Assim é que se explica como Darcy poderia ter feito a fortuna de Wickham; ou a ajuda que o Coronel Brandon representa para Edward e ainda porque Mr. Collins é tão ansioso por agradar Lady Catherine.
Agora, se você é uma mulher à época de Austen… bem, se você for uma herdeira, ótimo. Você pode viver como Georgiana Darcy, Caroline Bingley ou Emma Woodhouse.
No geral, contudo, a situação feminina não era das melhores, especialmente a se considerar o chamado “direito de primogenitura”, pelo qual as mulheres eram sempre preteridas em prol do parente homem mais próximo – e servem como exemplos aqui a propriedade de Mr. Bennet (Orgulho e Preconceito) e o título de baronete e as propriedades de Sir Elliot (Persuasão), que, na falta de um filho varão, iriam para as mãos de outros parentes, deixando as filhas dos respectivos cavalheiros numa situação precária.
Não bastasse isso, uma vez casadas, as mulheres, no sentido legal, tinham sua existência suspensa. Em outras palavras, ela se tornava o marido.
Não, sério, é isso mesmo. No sistema legal britânico da época, se você quisesse processar uma mulher, tinha de processar o marido dela. E, se ela quisesse processar você, ela teria que convencer o marido a fazê-lo. Se o marido quisesse fazer a doação de uma propriedade para o nome da esposa, ele não podia fazê-lo porque… bem, porque era o equivalente a fazer uma doação para si mesmo. Se a mulher fosse uma autora e ganhasse dinheiro com isso… o dinheiro era do marido. E por aí vão as conseqüências dessa interpretação legislativa.
Pense que você é uma mulher com sua própria fortuna, casada, nessa época. Pense que você decide se divorciar – lembrando que a separação é permitida pela Igreja Anglicana, tendo sido um dos motivos pelos quais Henrique VIII fez a reforma religiosa. Nesse momento, você até tinha uma personalidade jurídica, mas percebe que toda a sua fortuna pertence ao seu marido e uma vez que você se separe, ele vai ficar com ela?
Complicado, não? Essa questão legal fazia o divórcio – ao menos para as mulheres – virtualmente impossível.
Contudo, o marido podia deixar uma renda, em testamento, para sua esposa – acredito que era essa a idéia de Mr. Dashwood caso tivesse herdado Norland Park: a propriedade ficaria, de uma forma ou de outra, com o filho, mas as rendas da fortuna poderiam ser divididas entre as mulheres.
Para finalizamos por hoje, uma pequena curiosidade que encontrei enquanto pesquisava para escrever esse artigo, uma espécie de ‘censo’ da Inglaterra da época:
Mapa da Sociedade Inglesa em 1814

(Retirado de Patrick Colquhoun, A Treatise on the Wealth,
Power, and Resources of the British Empire, 1814)
Classes mais altas: família real, lordes espirituais e leigos, grandes oficiais de propriedade, nobres acima do degrau de baronete.
Chefes de família: 576
Total de pessoas: 2.880
Segunda classe: baronetes, cavalheiros, outros com grandes rendas.
Chefes de família: 48.861
Total de pessoas: 234.305
Terceira classe: clérigos, doutores, mercadores e manufatureiros em grande escala, bancários.
Chefes de família: 61.000
Total de pessoas: 112.200
Quarta classe: clérigos de categoria mais baixa, médicos, advogados, professores, donos de navios, mercadores e manufatureiros de segunda categoria, gerentes, artistas, construtores, mecânicos, pessoas com rendas moderadas.
Chefes de família: 233.650
Total de pessoas: 1.168.250
Quinta classe: comerciantes, estalajadeiros, editores, pessoas de outras diversas ocupações.
Chefes de família: 564.799
Total de pessoas: 2.798.475
Sexta classe: trabalhadores mecânicos, artistas, artesãos, trabalhadores rurais.
Chefes de família: 2.126.095
Total de pessoas: 8.792.800
Sétima classe: mendigos, vadios, ciganos, pessoas desocupadas sustentadas por atividades criminosas.
Chefes de família: 3.371.281
Total de pessoas: 16.165.803
Forças armadas e marinha: oficiais, incluindo não comissionados, soldados, marinheiros, pensionistas.
Chefes de família do exército: 10.500
Total de pessoas: 69.000
Chefes de família da marinha: 120.000
Total de pessoas: 862.000

Eu me pergunto como esse censo terá sido feito… será que chegavam para o povo na rua e perguntavam “com licença, você é uma pessoa desocupada que se sustenta através de uma atividade criminosa?”
Hum… grandes mistérios da humanidade…
Feitas todas essas considerações históricas, vamos agora analisar um pouco do estilo que fez de Austen essa autora consagrada e alguns dos motivos pelos quais ainda hoje, duzentos anos depois, lê-la ainda está na moda. (continua no próximo post)”

Jane Austen por Luciana Darce – Parte 2/6

Nos vemos em Waterloo

“Jane Austen nasceu em 16 de dezembro de 1775, em Steventon, Hampshire, filha do reverendo George Austen – pároco anglicano local – e sua esposa, Cassandra. Teve seis irmãos e uma irmã mais velha, Cassandra, que foi sua melhor amiga e confidente a vida inteira.

Nunca se casou – embora saibamos que tenha recebido pelo menos uma proposta, em 1802, de Harris Bigg-Wither, irmão de amigas das irmãs Austen. Jane até chegou a aceitar, imagina-se que pela possibilidade de dar um maior apoio financeiro à família, mas no dia seguinte, desfez o compromisso.
Ela teve uma educação formal entre 1783 e 1786, primeiro em Oxford e depois em Southampton, mas a família não tinha recursos suficientes para manter as duas filhas na escola, de modo que elas tiveram de voltar para casa e o resto de sua instrução foi através da vasta biblioteca do pai – a qual Jane teve um acesso irrestrito.
É bom compreender aqui o momento histórico em que o mundo vivia, antes de estendermos as ramificações das obras de Austen.
O mundo – e, por mundo, devemos aqui entender especialmente a Europa – estava em convulsão. Entre 1789 e 1848, passamos por três grandes revoluções: a Francesa, de 1789, que derrubou o Absolutismo; a Liberal, de 1830, retratada por Victor Hugo em Os Miseráveis e a Primavera das Nações, de 1848, com as revoltas do proletariado.
Especificamente no período de vida de Jane Austen – de 1775 a 1817 – temos a revolta das colônias americanas (que viriam a se tornar os Estados Unidos da América em 1783), a queda da Bastilha, o Terror, a ascensão de Napoleão e a guerra quase ininterrupta entre França e Inglaterra (com uma única trégua de dezoito meses, entre 1801 e 1803).
A Inglaterra, por sua feita, vivia um período de crise tanto externo quanto interno. Primeiro, óbvio, a guerra contra a França – que viria mesmo a bloquear os portos de todo o território sob seu poder, tentando com isso acabar com o comércio inglês (motivo este pelo qual a família real portuguesa saiu corrida de Lisboa e veio parar no Brasil). Segundo, a instabilidade mental do rei, George III.
Em 1788, George III teve um dos primeiros ataques do que, mais tarde, se viria a ser considerado porfiria – uma doença genética – dirigindo-se a árvores como se estas fossem colegas de coroa, ameaçando e desconhecendo adversários e aliados.
O Príncipe de Gales, George, assumiu o reino enquanto o pai esteve impossibilitado (houve, inclusive, boatos de que o rei teria sido envenenado), enquanto o Parlamento discutia se tal regência seria temporária ou definitiva – constitucionalmente falando, a loucura de George III o fazia morto para o trono.
Enquanto se discutia sua sucessão (ou não), o rei voltava a si, no final 1789, e ainda viria a reinar até 1811, quando aceitaria a necessidade de um Regency Act. No final desse ano, ele voltou a adoecer, sendo recolhido no Castelo de Windsor até sua morte, em 1820, quando o regente foi coroado, passando a ser o rei George IV.
Este período da história da Inglaterra é por isso chamado de Regência e é considerado uma era de transição entre a Era Georgiana e a Era Vitoriana.
Apesar das incertezas desse período, a sociedade inglesa da Regência caracterizou-se por um ambiente amplamente favorável às artes – a literatura, a música, a arquitetura – tendo entre seus patronos o próprio Príncipe Regente e a Duquesa Georgiana de Devonshire, ambos lideranças não apenas políticas e sociais, mas também de estilo e moda.
A bem da verdade, essa foi uma época bastante liberal – e liberal, inclusive, nos excessos; o estilo glamouroso da aristocracia em contraste com a pobreza que imperava nos estratos inferiores da sociedade.
A valsa é trazida do Continente para os salões ingleses, escandalizando as matronas da sociedade. As lamparinas a gás são introduzidas nas ruas de Londres. A escravidão começa a ser questionada, até ser banida definitivamente. Começa a Revolução Industrial. Mary Shelley escreve Frankenstein, enquanto Byron escandaliza a todos com seus poemas e seu modo de vida e Sir Walter Scott publica Ivanhoé. Na França, Balzac trabalha em sua Comédia Humana e na Alemanha, Goethe publica Fausto. Mozart, Bach, Beethoven, Paganini, Rossini, Schubert são todos também dessa época.
Se vocês lembram alguma coisa das aulas de história e literatura nos tempos de colégio, pelos personagens citados, já devem ter percebido o óbvio: estamos precisamente no auge do Período do Romantismo.
É nessa época de efervescência cultural e social que Austen viveu, embora, à primeira vista, tais mudanças não pareçam ter se infiltrado em sua obra – muitos críticos dizem (erroneamente) que Austen criou um mundo à parte em sua obra, completamente desviculado da realidade em que vivia. Aqui, porém, temos de nos lembrar que Jane passou grande parte de sua existência num vilarejo rural; onde pertencia à baixa nobreza, a classe dos gentis. Esse é o mundo que ela retrata porque esse é o mundo que ela conheceu.
Perceba-se que, se não se fala em Napoleão ou na guerra primeiro contra as colônias, depois contra o império francês, os militares estão quase que onipresentes em seus livros: a milícia em Meryton e nas figuras de Wickham e do Coronel Fitzwilliam em Orgulho e Preconceito; Sir John Middleton e Coronel Brandon em Razão e Sensibilidade, o general Tilney e seu filho, capitão Tilney na Abadia de Northanger; e a Marinha Real Britânica, representada por Capitão Wentworth e demais companheiros de Persuasão.
Persuasão é, de todos os títulos, aquele que mais referências históricas faz – ainda que elas sejam quase invisíveis para nós, porque são menções mito rápidas, de passagem e que não chamam tanto a atenção do leitor. É também a única história que traz uma data certa, que abre com o exato ano em que a história se desenvolve.
Persuasão começa por volta de junho para julho de 1814. Em abril desse ano, Napoleão abdicou do trono, sendo exilado para a Ilha de Elba, terminando assim, para todos os efeitos, a guerra – como se depreende do discurso de Mr. Shepherd, no início do capítulo 03, tentando convencer Mr. Elliot a alugar Kellynch Hall:
– Peço autorização para observar, Sir Walter – disse o Dr. Shepherd uma manhã no Solar de Kellynch, pousando o jornal -, que a conjuntura atual nos é muito favorável. A paz fará desembarcar os nossos oficiais da Marinha, ricos. Vão todos querer casa. Não podia haver melhor altura, Sir Walter, para escolher inquilinos, inquilinos muito responsáveis. Fizeram-se muitas fortunas respeitáveis durante a guerra. Se um almirante rico nos aparecesse, Sir Walter…
O ano, aliás, é pista bastante para entendermos como, exatamente, veio o capitão Frederick Wentworth a fazer sua fortuna – à época, cada navio aprisionado gerava um prêmio em dinheiro, uma percentagem para cada membro da tripulação.
Frederick já era comandante quando veio a conhecer Anne, no verão de 1806, tendo sido promovido “em seqüência de uma batalha ao largo de São Domingos”. As ilhas São Domingos, nas Américas, eram colônias da Inglaterra, França e Espanha, servindo como base para a produção de açúcar, no regime de escravidão. Espanha e Inglaterra abandonaram essa colônia ainda no século XVIII, deixando tudo para França. Aos poucos, a coisa toda foi degringolando para uma guerra racial entre os escravos e grande senhores de engenho, com uma manobra de invasão liderada pelo cunhado de Napoleão em 1802, na tentativa de restabelecer o controle francês sobre a colônia.
Resumo rápido da história: os escravos se aliaram aos ingleses para expulsar de vez os franceses da ilha, culminando assim com a independência da ilha, que se tornaria o que conhecemos hoje como Haiti.
1806, aliás, é também o ano em que Napoleão decreta o Bloqueio Continental, o qual ordenava que os portos dos países submetidos ao Império Francês fossem fechados para navios da Grã-Bretanha.
Estamos por volta de fevereiro de 1815 quando chegamos ao final do livro, quando Napoleão decidiu que o clima de Elba não casava muito bem com ele e fugiu de volta para França, junto com um exército, reconquistando o poder e iniciando o “Governo dos Cem Dias”, até ser definitivamente derrotado pela coalizão anglo-prussiana na famosa Batalha de Waterloo, em 15 de julho. Provavelmente, se o livro tivesse continuado até depois do casamento de Frederick e Anne, teríamos visto o capitão ser convocado para se apresentar, uma vez que os tempos de paz teriam acabaram.
A determinada altura, Anne diz, sobre o almirante Croft, cunhado do Capitão Wentworth, “esteve na batalha de Trafalgar e, desde então, tem estado nas Índias Ocidentais; foi destacado para lá, creio, há vários anos”, o que se refere à batalha naval de 21 de outubro de 1805, ao largo do cabo de Trafalgar, na costa espanhola, com a esquadra inglesa comandada pelo herói nacional Almirante Nelson (que morreu após os combates, antes de chegar à Inglaterra), batalha esta em que Napoleão perdeu o controle do Atlântico, possibilitando inclusive a retirada estratégica da família real portuguesa para o Brasil.
Uma curiosidade: dois irmãos de Austen fizeram carreira e fortuna na marinha, exatamente por essa época.
E pensar que tem autores que dizem que Jane Austen não escreveu absolutamente nada sobre o que estava acontecendo à época… O fato de ela não falar abertamente sobre a guerra com Napoleão não significa que ela era alienada do que estava acontecendo no mundo ao seu redor.
Na próxima parte do artigo, após termos tratado dos homens de armas – que eram praticamente uma classe à parte na sociedade extremamente estratificada da época – vamos cuidar dos cavalheiros… Como diria o Barão de Itararé… “quem inventou o trabalho não tinha o que fazer”.
Não se preocupem, vocês entenderão o sentido dess frase no contexto da próxima parte.”

Jane Austen por Luciane Darce – parte 1/6

Luciana Darce, representante da JASBRA-Recife, escreveu alguns posts sobre Austen. Hoje, publico o primeiro:
“Uma vez que passei o mês de maio praticamente vivendo na virada do século XVIII para o XIX (mesmo quando eu estava lendo coisas que não tinham nada a ver com meu “projeto”, de alguma forma eu acabava indo parar na Inglaterra da época das guerras napoleônicas, indo até a era vitoriana…), eu decidi dedicar o mês de junho no Coruja à Austen – inclusive nos posts de “Na sua estante”, que são as quatro partes da história com que participo da mostra de contos do encontro.
Se você passou os últimos duzentos anos vivendo numa caverna, você talvez não saiba quem seja essa autora. Mesmo que o caro amigo leitor seja o tipo que passa ao largo de livrarias ou estantes de romances clássicos, não é possível que nunca tenha ouvido falar pelo menos em Orgulho e Preconceito – nem que tenha sido só de passagem.
E se não ouviu, meu amigo, o que você estava fazendo da vida até agora? Sendo monge eremita nas montanhas do Tibete?
Jane Austen é considerada por muitos críticos como a segunda maior autora da língua inglesa; ficando atrás apenas de Shakespeare. Apesar de ter escrito relativamente pouco – foram apenas seis romances completos, além da obra epistolar Lady Susan e vários contos que compõem o que chamamos de Juvenilia – Austen conseguiu criar um monumento literário que ecoa ainda nos dias de hoje, duzentos anos após suas primeiras publicações.
Entender o fascínio que essa mulher exerce ainda hoje em leitores (mas, em especial, leitoras) de todo mundo passa por diversos fatores, os quais, unidos, reforçam o motivo de ela ter entrado para o rol de clássicos.
Em primeiro lugar, pergunto a vocês: o que faz de um clássico um clássico?
Essa pergunta pode ter dezenas de respostas – todas certas de um certo ponto de vista. Isso porque podemos entender uma obra clássica como aquela que nos tocou profundamente, que no grande esquema das coisas, deixou uma marca. Nesse caso, estamos falando de um “clássico pessoal”, um favorito, não necessariamente nos grandes clássicos universais da literatura.
Mas, ao fim e ao cabo, eu acredito que os grandes clássicos universais da literatura sejam os favoritos de… alguém. Então, comecemos pensando individualmente antes de partirmos para o coletivo.
Tendo enrolado pelos últimos três parágrafos, dou minha resposta, meu ponto de vista sobre o que seja um clássico: é uma obra que consegue capturar um painel de sua época, ao mesmo tempo em que permanece atemporal, uma vez que fala de coisas, de sentimentos, que são comuns a todas as eras. Um clássico é uma obra não necessariamente sublime em termos gramaticais e extremamente complicada de ler (como alguns críticos parecem pensar), mas uma história que “nos fale à alma”, que seja capaz de nos emocionar – seja às lágrimas, aos risos, aos suspiros ou ao horror.
Jane Austen consegue reunir todas essas qualidade em sua obra.
Ela tece em suas páginas um painel de sua época e de sua sociedade: a Inglaterra da Era Regencial, dividida entre a grandiosidade do Império Britânico (o Act Union que criou a Grã-Bretanha foi assinado em 1801) e as Guerras Napoleônicas – e, mais especificamente, a pequena-nobreza interioriana.
Embora não haja nenhuma menção explícita em nenhum dos livros acerca dos combates dessa época – e, na maior parte da vida de Austen, de 1775 a 1817, a Inglaterra esteve em guerra; primeiro com as Colônias, que se tornaram os Estados Unidos da América; depois com a França de Napoleão (e, por conseqüência, mais da metade do mundo dito civilizado) – há alguns fatos que deixam bem marcadas nas histórias (e, em especial, Persuasão) o que estava ocorrendo no mundo.
Ao mesmo tempo em que seus personagens, os lugares pelos quais estes passam e suas histórias são bastante característicos dessa sociedade em que ela viveu, os livros de Austen continuam tratando de temas bastante atuais.
Em primeiro lugar, os personagens que passeiam pela obra de Jane Austen são autênticos, soam como pessoas de carne e osso, absolutamente reais – são personagens com os quais podemos nos identificar; mesmo os mais caricatos. Eles não são heróis ou vilões absolutos: têm falhas e virtudes.
Ao final das contas, como ela mesma escreveu em uma de suas cartas, “pictures of perfection make me sick and wicked”; no manuscrito Plan of a Novel, ela parodia tudo o que havia de ridículo na literatura de sua época, montando um plano de novela com virtuosas mocinhas, vilões aristocráticos e todos os clichês de um bom e velho folhetim.
Céus, o casal mais conhecido de todos, Mr. Darcy e Lizzy Bennet, passam boa parte da história tropeçando em seus próprios egos e preconceitos! E mesmo assim, são adorados pelos leitores. Se isso não faz dela uma grande escritora, não sei mais o que poderia fazer…
Não apenas podemos nos identificar com os personagens, mas também com seus dilemas. Amor, casamento, família, educação, moral, o lugar que ocupamos na sociedade, nossas ambições, os sentimentos mais sublimes e os mais mesquinhos…
Todas essas questões continuam tão importantes hoje quanto o eram duzentos anos atrás. E vão continuar importantes daqui a mais duzentos anos (se a raça humana não estiver extinta até lá).
Não bastasse unir as duas mencionadas qualidades – apenas aparentemente contraditórias – Austen é simplesmente deliciosa de ler. Ela não tem um estilo rebuscado, cheio de descrições. Pelo contrário, as descrições são raras. Você consegue, contudo, desenhar perfeitamente os personagens em sua mente sob o efeito de seus discursos.
Apenas a título de exemplo, você consegue entender perfeitamente como Mr. Collins é terrivelmente pedante e insuportável apenas pela maneira como ele constrói suas falas. Ou como Mr. Elliot é um tratante melífluo pela forma com que ele não se posiciona de verdade em nenhum momento, sempre diplomático, no melhor estilo Mefistófeles de ser.
Em suma, o forte de Austen são seus diálogos, e eles são rápidos, inteligentes e ferinos – sua característica mais marcante é justamente essa veia irônica que ela demonstra.
Não à toa, ela é uma das minhas autoras favoritas… Todo mundo sabe que adoro autores sarcásticos.
Agora que já tratamos dos porquês da obra de Jane Austen ser um clássico, vamos cuidar de conhecer Miss Jane e entender um pouco o que estava acontecendo no mundo ao seu tempo (leio próximo post).”