A fama de Jane Austen

Jane’s Fame (A Fama de Jane)


Como Jane Austen virou uma estrela?
(por Elizabeth Toohey*, publicado no site do The Christian Science Moniktor em 9 de Abril de 2010)
Por que o mundo está obcecado com Jane Austen? O que há em sua vida e seus romances que a transformaram de uma escritora regencial de renome limitado em uma indústria de chalé? A resposta, como os romances de Austen, é ilusoriamente simples, mascarando uma complexa rede de fatores, da publicidade feita por sua família à falta de informação verificável que torna tão fácil para nós projetarmos nossas fantasias sobre ela.
Em Jane’s Fame: How Jane Austen Conquered the World (“A Fama de Jane: Como Jane Austen Conquistou o Mundo”), com seu subtítulo apenas parcialmente irônico, Claire Harman traça o fenômeno que é “Jane.” Nem crítica literária nem biografia, “Jane’s Fame” rastreia a imagem de Austen como uma romancista que tinha dificuldade de ser publicada e estava aberta a diversas críticas àquela rara combinação de autora cultuada e canonizada, associada a tanto Shakespeare quanto zumbis. (Harman nos indica uma divertida montagem no YouTube de cenas românticas de adaptações cinematográficas de Austen acompanhadas de “It’s Raining Men”, facilmente achada no Google.)
A primeira tomada de Austen veio de seu sobrinho, James Edward Austen-Leigh, que coloca sua tia no papel da mulher vitoriana ideal – modesta, sem ambição e certamente não inclinada a deixar que sua escrita interferisse com seus “deveres domésticos.” Foi em “Memoir of Jane Austen” (“Memórias de Jane Austen”) de Austen-Leigh que a imagem da literatura de Jane como um “pouquinho de marfim” começou, criando uma associação de “pequenez” com os romances que tratam de uma vida própria, aderindo à própria Austen, que, ironicamente, era provavelmente alta.
A relutância inicial da família em revelar a verdadeira face de Jane Austen ao público forneceu a perfeita atmosfera de mistério para especulação nas gerações seguintes.
Embora seu foco seja nas histórias que outros contaram sobre Austen, Harman tem sua própria história para contar também. A Austen de Harman não é nem amável nem retraída, mas uma atiçadora de chamas – uma metáfora evocada por sua conduta e seus modos, de acordo com uma visitante contemporânea de sua casa. Pense em alta, forte e “formidável,” não, pequena e amável.
Austen-Leigh é um conveniente testa de ferro e Harman claramente aprecia citar suas inexatidões apenas para derrubá-las. Austen, ela argumenta, era mais determinada e empresarial do que a tia ofuscada e virginal em que Austen-Leigh quer nos levar a acreditar. Harman também enfatiza a natureza literária da casa que estimulava sua ambição. O irmão mais velho de Austen, que publicou um periódico literário de curta duração, foi um poeta aspirante e considerado o escritor da família por sua mãe. Seu primo era próximo à romancista Fanny Burney d’Arblay e essa proximidade pode ter influenciado Austen tanto artisticamente quanto em sua iniciativa de vender seus romances. Do mesmo modo, a arte de Austen não surgiu sem esforço, mas através de extensivos rascunhos e revisões, envolvendo pedaços de papel com novo texto anexados a um rascunho anterior, “uma versão do século XIX de cortar e colar.” A ausência de marcos históricos ou controvérsias políticas em seus romances, antes de ser uma deficiência, pode ser devida a um medo de ficar ultrapassada, tão consciente que era Austen de seu público-alvo e tão frustrada pelo longo atraso na publicação de Abadia de Northanger, seu primeiro trabalho e o que mais tinha a ver com o momento.
Tais atrasos, embora desanimadores, podem ter ajudado Austen a afiar sua inovação estilística. “Quanto mais tempo Austen permanecia sem publicação,” Harman coloca, “mais ela se tornava experimental e mais liberdade ela se dava para movimentos audaciosos e brilhantes.” Sem um público leitor além de seus íntimos, Austen permanecia livre para desenvolver sua voz distinta.
Figuras literárias importantes que se seguiram tendiam a cair em campos que ou depreciavam ou enalteciam Austen – Mark Twain entre os primeiros (mas, afinal, de quem ele gostava?), e os evidentes herdeiros dela, James, Forster e Woolf, entre os últimos. Mas a imagem de soldados da Primeira Guerra Mundial lendo Austen nas trincheiras, ou de Churchill recorrendo a Orgulho e Preconceito para conforto enquanto acamado com gripe nos dias mais sombrios de 1943, vividamente mostram a posição de Austen como uma pedra angular da cultura britânica.
Harman aponta o apelo universal de Austen também, como comprovado pelo anarquista parisiense Félix Fénéon, que leu Abadia de Northanger durante a prisão e ficou tão encantado com sua crítica de classe que traduziu o livro para o francês, assim tornando-se o primeiro crítico marxista de Austen.
Harman completa seu livro analisando a Austen-mania corrente em nossa cultura gerada pela proliferação das adaptações cinematográficas. Sendo a mais proeminente idéia transmitida por “Jane’s Fame” a de que esses filmes biográficos, introduções e seqüências refletem mais em nós mesmos do que na própria Austen, pode-se apenas supor o que as futuras gerações vão inferir de Orgulho e Preconceito e Zumbis ou Mr. Darcy, Vampire, sobre o início do século XXI.
* Elizabeth Toohey leciona Estudos Femininos e Literatura Americana Pós-Guerra no Principia College em Elsah, Ill.
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Texto original em inglês, retirado do site: http://www.csmonitor.com/
Traduzido e cedido gentilmente por Mariana Fonseca
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2 thoughts on “A fama de Jane Austen

  1. Karlinha 12/04/2010 / 11:54 AM

    Nossa adriana, que vontade que deu para eu comprar esse livro!

    Gostar

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